Rosie: uma mãe coragem sob o céu de Dublin

Os efeitos da especulação imobiliária fazem-se sentir um pouco por toda a Europa. Rosie - Uma Família sem Teto é um drama irlandês bem dos nossos dias. Em estreia nas salas portuguesas.

Comecemos pelo que nos dizem as estatísticas: a Irlanda é um dos países com maior taxa de famílias sem-abrigo da Europa, devido ao monstro da especulação imobiliária. Trata-se de um problema da vida real que afeta pessoas reais da chamada classe média. E por isso olhar para ele implica, no mínimo, uma atitude política. Algo que certamente define o olhar do realizador irlandês Paddy Breathnach nesta pequena produção banhada por uma luz o mais natural possível: Rosie - Uma Família sem Teto assume como pano de fundo essa crise que está a acontecer nos grandes centros urbanos, ganhando um significado muito concreto no seio de uma família repentinamente desabrigada em consequência da venda, por parte do senhorio, da casa arrendada onde vivia.

O céu de Dublin torna-se então testemunha da saga de uma mãe coragem (admirável Sarah Greene) com quatro filhos, que dedica as apertadas horas do dia a fazer repetidas chamadas, dentro do carro, diante de uma longa lista de hotéis - enquadrados num programa de apoio social - na tentativa de encontrar um quarto para passarem uma semana... ou pelo menos a noite seguinte, até encontrarem casa. Isto entre ir levar e buscar os três filhos mais velhos às respetivas escolas. Já o marido trabalha como assistente de cozinha, e no pouco tempo livre que lhe resta faz a sua parte, vendo anúncios e visitando casas à procura de uma nova morada para a família.

Tudo o que se concentra neste retrato de pouco mais de um dia e meio é um acumular de frustrações: os hotéis estão cheios, as casas, pelos vistos, já não se adequam às famílias (como chega a sugerir uma agente imobiliária) e o fantasma da situação de uma noite no carro, sem teto para dormir, torna-se cada vez mais provável.

Ao longo de menos de hora e meia de duração, o filme de Breathnach faz-nos respirar o mesmo ar que os membros daquela família e partilhar o seu contido desespero, com a câmara próxima da ansiedade dos rostos - sobretudo o da mãe, que silencia o sentimento de desnorte com uma capa de resiliência, para manter as aparências. É ela quem durante um dia inteiro se desdobrará em resoluções de problemas, sendo chamada à escola de uma das filhas, onde esta é gozada pelos colegas, e, mais tarde, tendo de lidar com a fuga de outra filha adolescente... Todos são contemplados pela lente do realizador nas suas mágoas individuais. E isso é um dos aspetos mais generosos do argumento, assinado pelo escritor Roddy Doyle (The Commitments), que talha as emoções num recatado naturalismo.

Nesse pudor reside talvez o maior trunfo de Rosie: estamos perante um quadro em que não se força uma única nota dramática, tudo se encaixa no próprio grão da realidade, permitindo que o amor se manifeste de modo espontâneo e inesperado. E se são tão genuínas as emoções tristes, também o são as mais afetivas. Como se aqui se tentasse minimizar a ideia de que uma câmara está a captar a situação. Como se o que se vê pudesse estar a ser vivido na pele do próprio espectador - sem espalhafato, com uma noção simples de como as coisas funcionam no plano da realidade. No fundo, são pessoas normais numa circunstância excecional.

Um dos momentos mais comoventes dessa despojada linha de ficção tem lugar numa cafetaria prestes a encerrar os seus serviços diários. Aí a família, de forma muito discreta, usa a casa de banho para a higiene das crianças "antes de deitar", enquanto a filha mais velha faz os trabalhos de casa numa das mesas, para no dia seguinte os apresentar nas aulas como uma estudante na sua rotina habitual...

Dito isto, podia ser um filme dos irmãos Dardenne, porque se fixa no desassossego de quem tenta resistir à lógica perversa da sociedade, ou podia ser um filme de Ken Loach, porque nasce de um semelhante sentido de urgência. O que queremos dizer é que, dentro da boa tradição do cinema de realismo social, Rosie - Uma Família sem Teto está entre um e outro, com a sensibilidade humana da escrita de Doyle a lançar as notas modestas de um drama altamente contemporâneo, e bastante próximo da verdadeira compreensão de qualquer um de nós. Eis a ficção a inspirar-se nas lutas invisíveis do dia-a-dia, escondidas atrás das estatísticas.

*** Bom

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