Revolução de Veludo faz 30 anos e The Sleepers recorda política e espionagem na Praga de 1989

Eis uma nova série de espionagem ambientada no tenso clima político de 1989, na antiga Checoslováquia. The Sleepers estreia na HBO Portugal este domingo, dia em que se assinalam os 30 anos da Revolução de Veludo.

Numa altura em que o vasto catálogo de séries disponíveis tende a repetir formatos de grande produção e temas mais ou menos populares, é bom saber que ainda há espaço no panorama televisivo para objetos de uma certa classe madura, com lógicas narrativas mais discretas mas não menos exigentes. Por outras palavras, criações que assumem um determinado contexto histórico, com sobriedade suficiente para dele extraírem ficção "adulta" com um gancho para a realidade, de hoje e de ontem. É o caso de The Sleepers, a série checa realizada por Ivan Zacharias (Wasteland) que chega este domingo à HBO Portugal, por ocasião dos 30 anos da Revolução de Veludo - a revolução não violenta, tal como o nosso 25 de Abril, que levou à queda do governo comunista na antiga Checoslováquia, colocando um ponto final a 40 anos de domínio soviético.

Ambientado nesses últimos meses de 1989, em que os ímpetos da mudança já se faziam sentir na Alemanha Oriental, Hungria e Polónia, The Sleepers apresenta-se com todos os elementos de um focado drama de espionagem, a revisitar as marcas do clima histórico e assente num conjunto de personagens que funcionam em rede, sem que seja logo muito claro o que as liga ou de que "lado" estão. Essa ambiguidade é o território, aqui bem gerido, do suspense.

No centro da trama está um casal de dissidentes, Marie (Tatiana Pauhofova), violinista, e Viktor (Martin Mysicka), professor, a viverem em Londres há 12 anos. Os dois regressam a Praga por iniciativa dele (sem que também sejam transparentes os seus motivos) e, ainda pouco tempo depois da chegada, e de começarem a retomar os contactos no seu país, acabam separados por uma circunstância súbita (que importa não revelar). Resultado: ela vai parar a uma cama de hospital e ele literalmente desaparece do mapa... A partir daqui, Marie estará por sua conta na investigação secreta do estranho desaparecimento do marido, movendo-se entre os dois lados - da Segurança de Estado e dos dissidentes -, mas sempre em terrenos e circuitos perigosos.

O que não falta aqui são casas revistadas por homens de casacos de cabedal preto, gravadores ocultos, alguém que espia outrem dentro de um carro, comboio ou atrás da esquina, raptos, telefonemas enigmáticos e outras delícias do género ficcional em causa. Estes são movimentos e tópicos constantes na ação de The Sleepers, uma dinâmica que envolve o espectador, mas com a devida distância cerebral e gravidade dramática. Por sua vez, Marie, que se torna o principal ponto de vista dentro da teia de ocorrências, habita a atmosfera da época - recriada de forma exímia - pelas linhas mais kafkianas, percorrendo o cinzentismo da burocracia, dos edifícios e dos funcionários como um corpo forasteiro dentro do seu próprio país.

No curioso genérico de cada episódio (seis no total), em que se vêm as personagens, em planos individuais, a dormitarem numa aparência de quadros de natureza morta, impõe-se uma perceção: a de que, entre o sono e a vigília, estas pessoas vivem o estertor do cenário político de então sob um permanente efeito soporífero. Esse causado pelo desconhecimento do estado das coisas ou pelas angustias mais íntimas, do passado e do presente. Também por aí, no cruzamento da escala individual com a máquina obscura da conjuntura política, The Sleepers revela o seu valor enquanto estimulante produção europeia, com o caráter desafetado e sério que faz falta numa paisagem de séries cada vez menos interessadas no registo não espetacular; neste caso, em que tudo acontece por via de uma troca de gestos humanos, mais ou menos brutais, verdades e mentiras, num jogo complexo.

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