Quando não basta salvar o mundo…

A saga dos agentes secretos da agência Kingsman prolonga-se num terceiro capítulo dramaticamente carente de inspiração, banalizando o espectáculo e esbanjando o talento dos seus atores.

Até quando seremos forçados a ver o talento de Ralph Fiennes desbaratado em filmes medíocres? A pergunta justifica-se, agora, por causa do atabalhoado The King"s Man: O Início, dirigido por Matthew Vaughn, o realizador inglês que já assinara o bem curioso Kingsman: Serviços Secretos (2014) e a sequela, francamente menos inspirada, Kingsman: O Círculo Dourado (2017).

O notável actor de títulos como A Lista de Schindler (1993), O Paciente Inglês (1996) ou O Fiel Jardineiro (2005) - os dois primeiros valeram-lhe nomeações para Óscares - surge, aqui, como Orlando Oxford, líder da saga dos serviços secretos inspirada na BD de Mark Millar e Dave Gibbons (no original, precisamente, The Secret Service). Fiennes pouco mais tem para fazer do que repetir o cliché do gentleman que, em nome da liberdade e da coroa britânica, viaja por muitos e exóticos cenários para... salvar o mundo. A sua condição de fundador da sofisticada agência de espiões que vela pelo bem estar da humanidade surge, aliás, devidamente individualizada no título: já não Kingsman, a agência, mas King"s Man, o "homem do rei" que se prepara, afinal, com a serenidade de quem toma um chá, para reescrever a história do século XX.

Do assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo, desencadeando a Grande Guerra, até às vésperas do segundo conflito mundial, dir-se-ia que assistimos ao desfolhar de um disparatado resumo histórico. No limite mais bizarro de tais tropelias, o filme parece querer garantir-nos que foi tudo culpa dos escoceses...

A questão, entenda-se, está longe de se reduzir a um problema simplista de "verdade histórica". Já somos crescidos, temos cabeça para pensar e sabemos que, por vezes, o fascínio da ficção nasce do legítimo arrojo com que se "recriam" determinados factos históricos - será preciso evocar Sacanas Sem Lei (2009), de Quentin Tarantino?

A questão é de outra natureza. "Explicar" a eclosão da guerra ou o triunfo do comunismo na Rússia por causa de uma quadrilha escondida no topo de uma quase inacessível formação montanhosa é apenas uma premissa, nem "boa", nem "má", para construir um espectáculo que se quer feérico e contagiante... Utilizar tudo isso para fabricar situações como as que são protagonizadas pela desastrada personagem burlesca (?) de Rasputine não passa de um completo alheamento dos valores de espectáculo e emoção que o cinema pode envolver. Além de que a composição caricatural (?) de Rasputine por Rhys Ifans envergonharia o mais patético ator amador.

Como se percebeu desde o primeiro Kingsman, há uma "mensagem" artística e, mais do que isso, industrial nesta série de filmes. A saber: os estúdios britânicos vêm lembrar-nos que não são meros espaços de aluguer para as diatribes dos super-heróis da Marvel e afins... De Michael Powell e Emeric Pressburger às aventuras de James Bond, possuem uma riquíssima história artística e conceptual que, infelizmente, filmes como The King"s Man: O Início reduzem à fabricação rotineira de efeitos especiais.

dnot@dn.pt

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