"Guerra dos Tronos islâmica". A série turca de TV que é um sucesso no Paquistão

Conhecida como a "Guerra dos Tronos" turca, a série "Ressurreição de Ertugrul" acompanha um herói da Anatólia do século XIII. O primeiro-ministro do Paquistão elogia-a por promover os "valores islâmicos" e contrariar os estereótipos difundidos por Hollywood sobre os árabes.

O drama histórico da televisão turca Dirilis Ertugrul (Ressurreição de Ertugrul) é o mais recente sucesso no Paquistão desde que em abril começou a ser transmitida pela emissora estatal (PTV). Esta é terceira vez que a série, que se estreou na Turquia em 2014, é exibida no país - já tinha passado em 2015 no canal Hum Sitaray e está disponível na Netflix local desde 2019 - mas desta vez está num canal público e em versão dobrada, o que faz toda a diferença.

A ação passa-se no século XIII e maioritariamente na Anatólia. A série é baseada na vida do líder muçulmano Ertugrul, cujo filho Osman Ghazi é considerado o fundador do Império Otomano. A série descreve a bravura dos turco muçulmano de Oghuz que luta contra invasores mongóis, cristãos e bizantinos. Embora seja uma série de ação com um pano de fundo histórico, Dirilis Ertugrul enfatiza claramente a identidade turca dos protagonistas e sua fé - o Islão.

A imensa popularidade do programa polarizou a opinião no Paquistão, noticia a BBC. Alguns acham que é uma ameaça à cultura local e que promove a violência, enquanto outros aplaudem a série por glorificar os heróis muçulmanos. A polémica tem sido tanta que até os políticos do país entraram no debate sobre uma série de ficção.

Ertugrul - que muitas vezes é descrita como uma espécie de Guerra dos Tronos muçulmana - está, inclusivamente, a ser promovida pelo primeiro-ministro Imran Khan por razões políticas.

Não só foi Khan que pediu à PTV para passar Dirilis Ertugrul e recomendou o programa aos seus cidadãos, como afirmou que ajudaria o Paquistão a entender o significado da civilização islâmica. Ele gostou desta série porque é interessante, com romance e história, mas, ao mesmo tempo, promove "valores islâmicos", explicou. Desde que o primeiro-ministro proferiu estas declarações, a série começou a bater recordes de audiência no país.

A aliança com a Turquia

Fundado em 1947, o Paquistão foi criado como um país para os muçulmanos-indianos. Embora a presença muçulmana na Ásia tenha uma origem pacífica, devido aos muitos comerciantes árabes que ali se instalaram ao longo dos séculos, a verdade é que entre os séculos XI e XVI foram muitas as investidas turcas na região.

Atualmente, não existe uma grande ligação cultural entre o Paquistão e a Turquia mas essa é uma situação que Imran Khan provavelmente gostaria de alterar: ao promover Dirilis Ertugrul ele procura, por um lado, sublinhar o denominador comum do Islão e aproximar o Paquistão dos outros países muçulmanos, como também quer marcar alguns pontos na relação política com a Turquia.

Numa cerimónia de entrega de prémios na Turquia, em novembro de 2016, Erdogan elogiou esta série por "entrar no coração do país". Ao promover o programa, Khan "também estava provavelmente a tentar marcar pontos políticos na Turquia, um país com o qual o Paquistão está a fortalecer a sua parceria", escreveu o jornal The Diplomat.

Contra os estereótipos de Hollywood

Para estes líderes, é importante criar uma narrativa que contrarie o que eles chamavam de islamofobia crescente nos media internacionais - sobretudo pelas ficções de Hollywood e Bollywood. Os muçulmanos têm sido mostrados principalmente "pelo olhar da negatividade" em séries e filmes de TV, portanto, esta série marca uma mudança bem-vinda, dizem os analistas. "Os muçulmanos desejavam ter uma representação poderosa e positiva nos media em todo o mundo. E Dirilis Ertugrul parece ter saciado esse desespero de ver uma representação gloriosa dos muçulmanos", diz um artigo no site em inglês The Global Village Space.

No Paquistão, alguns meios de comunicação, como o site Naya Daur, dizem que o drama "glorifica o sistema de valores muçulmano e o Império Otomano". Um artigo do diário popular local The Nation também defende que o drama "glorifica corretamente os heróis muçulmanos, a história islâmica e a ética".

Mas os críticos, como o ativista Pervez Hoodbhoy, discordam. "Se [Ertugrul] procura projetar o Islão como uma religião de paz e combater a islamofobia, o que consegue é o contrário disso", escreveu no Dawn, citando as decapitações e outros atos atos violentos mostrados no drama.

E outros, como Jibran Nasir, ativista social e político, dizem que o programa está a criar uma "crise de identidade" entre os paquistaneses.

Num artigo publicado no The Diplomant, Krzysztof Iwanek deixa bem claro: Dirilis Ertugrul é uma série de ação e ficção; não pode ser considera uma série religiosa nem histórica. "Certamente contém valores islâmicos, mas é discutível se realmente os promove. A religião é mostrada como uma parte importante da vida das personagens, mas não é o principal herói da história. Há, no entanto, momentos em que a fé é enfatizada. Os esforços militares turcos são projetados como uma luta para unir os muçulmanos e levantar a bandeira do Islão em todo o mundo - essas declarações aparecem tanto no início da série quanto no seu final. Na maioria das vezes, no entanto, a história é sobre Ertugrul a lutar contra seus inimigos (incluindo outros muçulmanos) e enfrentando outros desafios, e não há muito de "islâmico" na maneira como ele faz isso".

Paquistão precisa de melhor ficção

Alguns analistas acham que a ausência de conteúdo de alta qualidade nas séries de TV paquistanesas é outra razão para a enorme popularidade do drama estrangeiro. Ertugrul é "muito diferentes das típicas séries paquistanesas que não mostra a vida quotidiana", dizem os espectadores citados pelo The Global Village Space.

"É mais do que evidente que existem muitos canais e pouco conteúdo de qualidade a ser produzido", diz um artigo do The News.

A indústria de televisão do Paquistão é popular, mas não é particularmente conhecida pelo seu foco nos valores islâmicos - embora tenha produzido programas comoa série Alif. Os produtores paquistaneses sentem-se ameaçados pela série turca e muitas pessoas, incluindo o ministro federal Fawad Chaudhry, temem que as importações estrangeiras acabem por prejudicar a indústria de entretenimento local. Também pode acontecer que por causa de toda a polémica Ertugrul inspire o Paquistão a fazer melhores produções televisivas.

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