Peter Pan pelos olhos de Wendy

Reinventar o mito da eterna criança? Wendy é uma viagem "semidocumental" à Terra do Nunca assinada pelo aclamado realizador de Bestas do Sul Selvagem. Um inédito agora disponível nos videoclubes das operadoras.

Não há nada de estranho na ideia de Benh Zeitlin - o realizador que foi a grande surpresa do cinema independente americano em 2012, com Bestas do Sul Selvagem (valeu-lhe quatro nomeações para os Óscares) - agarrar na já muito revisitada história fantástica do Peter Pan, de J.M. Barrie, e transformá-la numa visão realista com pozinhos mágicos. Isto porque, apesar da distância temporal, o novo Wendy partilha com essa primeira longa-metragem o mesmo imaginário dos lugares isolados e a confiança absoluta na sua protagonista andrajosa. A saber, desta feita é a energia e argúcia da jovem atriz Devin France que incute a aventura da câmara, embora a mensagem do "nunca mais crescer" fique a rodar em seco durante boa parte do filme.

No início, Wendy é uma bebé que vê um menino desaparecer à boleia de um comboio de mercadorias, qual ato revolucionário, depois de lhe dizerem que ele estava destinado ao esfregão e à vassoura, em vez de se tornar pirata. Da janela do café da mãe ela fixou aquela imagem como um segredo bem guardado que, anos mais tarde, a seduz também, juntamente com os dois irmãos: numa noite, o gaiato Peter (Yashua Mack), com rastas e um riso matreiro, desperta-os e leva-os para uma ilha misteriosa (por certo a Terra do Nunca) onde descobrem outras crianças e reencontram o tal vizinho que fugira no comboio "fantasma" e que... está exatamente igual à última vez que o viram. Ali eles são livres, do nascer ao pôr-do-sol, não há adultos para impor disciplina e, à semelhança desse menino que queria ser pirata, não crescem. Pergunta: como assim? Há uma criatura marinha a que chamam Mãe, espécie de coração vivo da ilha, que será a fonte da eterna infância. Quer dizer, desde que nunca se deixem tomar por pensamentos tristes.

Naturalmente, a sombra da tristeza terá de instalar o conflito nos dias de brincadeira infinita, e a partir daí o filme de Zeitlin entra num vácuo em que a beleza da premissa "não envelhecer" se torna pouco envolvente, servindo apenas para pôr lenha na narrativa. Mas haja fé em Wendy. De facto, se o realizador americano já tinha encontrado na protagonista de Bestas do Sul Selvagem, Quvenzhané Wallis, um talento gritante, Devin France, por sua vez, tem aquela maturidade e brilho nos olhos que arrepiam o espectador. Ela é a heroína que conta a sua versão do Peter Pan e segura a tenda quando o espetáculo parece já ter terminado.

Outra das fragilidades de Wendy, o filme, é que, quando nos está a convencer de um olhar quase documental - que até poderia enveredar por um Deus das Moscas -, se deixa sobrecarregar por uma banda sonora que uniformiza os momentos. Dito de outra maneira: há um excesso de impulso épico que não permite distinguir a vibração de uma cena em relação a outra, e isso cria distância, trava a empatia que se poderia estabelecer através do silêncio partilhado com as personagens. Elas acabam por responder a um projeto de nostalgia do próprio Zeitlin, um espírito infantil que, contas feitas, não é suficiente para quebrar o gelo nos adultos, e talvez seja demasiado abstrato para cativar as crianças.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG