Pelos olhos de uma criança 

O que se passa nos intervalos das aulas numa escola primária? É isso que mostra Recreio, notável longa-metragem de estreia de Laura Wandel. Um olhar cru sobre a violência de um espaço teoricamente de diversão.

Se consultarmos o dicionário da Porto Editora, encontramos esta definição da palavra recreio: "Tempo e lugar destinado às crianças para brincarem, no intervalo das aulas." A belga Laura Wandel, que assina uma primeira longa-metragem chamada, no original, Un Monde, sabia com certeza que a realidade passa a perna a um exíguo significado de dicionário, e por isso encapsulou o dito "tempo e espaço" noutra palavra ("mundo"). Seja como for, o título português do filme é excelente para criar tensão entre a teoria e a prática. O "mundo" que se retrata neste Recreio é aquele que só pode ser sondado por quem dele faz parte. Mais precisamente, alguém que acaba de aterrar no planeta escola e é obrigado a explorar o ambiente como princípio básico de sobrevivência.

Falamos de Nora (Maya Vanderbeque, debutante excecional), uma menina de sete anos que, no seu primeiro dia de escola, abraça chorosa o irmão e o pai antes de entrar no recinto como quem entra numa prisão - esses minutos iniciais do filme são discretamente violentos e tocantes, estabelecendo o abraço como um gesto de infinita comoção. Nora está prestes a conhecer, de facto, uma atmosfera parecida com a de um pátio prisional, um mundo onde as regras são ditadas pelos mais fortes. Chegada a hora do recreio, ela corre para ir ter com o irmão (Günter Duret), um pouco mais velho, e dá com ele a ser pontapeado por um grupo de rapazes: apenas o início de uma série de exemplos do bullying sistemático de que é alvo. Apesar do que ela viu, e vai voltar a ver, o miúdo não quer que a irmã se envolva nem conte ao pai, e essa atitude é um dos geradores da complexidade do olhar de Wandel, que não se limitou a fazer um filme sobre o bullying.

Recreio assenta na linguagem expressiva do rosto de Nora e no seu campo de visão. De resto, a câmara está sempre à altura das crianças (apenas dois ou três adultos se agacham ao nível delas, deixando aparecer mais do que pernas e tronco no plano) e o barulho do recreio torna-se uma potente banda sonora, com os movimentos da lente a denotarem a pressão do fora de campo. Essa claustrofobia da câmara é parte da intensidade da experiência de 72 minutos. Com uma economia impressionante, que implica não sair nunca do espaço da escola, Wandel faz-nos imergir num território indomesticado onde as crianças ensaiam as suas relações, em constante procura de integração. É aí, nesse nódulo de angústia social, que a realizadora projeta a infância na escola - longe de uma imagem idealizada - como o molde de uma vivência adulta.

Mais do que introduzir o espetador num ambiente, o que Recreio faz é introduzir-nos na pele de Nora, na sua desorientação inicial e no modo como evolui perante a dureza dos laços. E por falar em laços, um dos raros momentos em que ela experiencia o prazer da amizade é numa bonita cena onde duas colegas lhe ensinam a atar os cordões das sapatilhas. Essa aprendizagem confunde-se com um breve sentido de pertença. Porém, é no abismo entrelaçado de um abraço entre irmãos que a verdadeira comunicação acontece. Como um milagre dentro de um ringue imaginário.

dnot@dn.pt

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