Os portugueses e a cultura. Estará o futuro no consumo online?

Grande parte das práticas culturais dos portugueses são agora feitas na internet. Especialistas temem a tendência digital e a falta de afluência aos palcos, teatros e cinemas.

Qual é o consumo atual da cultura? Quem são os consumidores? O que se prevê para o futuro e que práticas se podem implementar? Estas foram algumas das questões em destaque na apresentação do "Estudo Sobre as Práticas Culturais dos Portugueses" da parceria entre a Fundação Calouste Gulbenkian e o Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Trabalho de investigação onde se concluiu que os rendimentos, o nível de educação e a idade são as três grandes desvantagens e desigualdades nas práticas culturais em Portugal.

O estudo foi coordenado por Pedro Magalhães, José Machado Pais e Miguel Lobo Antunes que explicaram na apresentação do trabalho existirem diferenças na sociedade no que diz respeito aos hábitos e acesso à cultura. Segundo os especialistas, os hábitos e acessos à cultura divergem, uma vez que muitos cidadãos com menos escolaridade e rendimento não têm tantos meios para aceder à cultura. Já a idade vem refletir o nível de interesse nas diferentes atividades culturais e de entretenimento.

Os resultados sobre os consumos culturais dos portugueses demonstraram que a leitura continua a ser uma preocupação, visto que cada vez menos se lê em formatos impressos (apenas cerca de 43% dos inquiridos admite ter lido jornais impressos nos últimos 12 meses antes do trabalho de campo). Pelo contrário, a televisão continua a ser o meio audiovisual escolhido pelos portugueses: 90% vê diariamente. No entanto, face às consequências da pandemia, surgiram alternativas à cultura com o recurso à internet e aos smartphones (89%) que beneficiaram as práticas na sua generalidade.

Durante o confinamento, verificou-se uma intensificação da utilização do uso da internet nas atividades culturais principalmente nos jovens até aos 24 anos, que passaram a ver online mais filmes e séries (41%) e a consumir livros, jornais, música e espetáculos.

Porém, ainda que o consumo digital seja positivo para o setor, surge a dúvida: O consumo cultural online vai manter-se uma tendência em detrimento dos eventos ao vivo?

Miguel Lobo Antunes acredita que depois de meses em confinamento "as pessoas têm a necessidade de sair de casa" e prevê que o desejo de convívio vai motivar o regresso aos cinemas, teatros e museus. Também Pedro Magalhães destaca a "convivialidade das práticas culturais não substituíveis pelo consumo em casa (online)".

Já José Machado Pais admite o "desafio de atrair os internautas para os espetáculos ao vivo", mas confia que "o aumento da oferta cultural acessível através da internet pode diversificar e ampliar os hábitos culturais".

Sobre as gerações futuras e a transmissão de hábitos culturais, Miguel Lobo Antunes observa que "as projeções demográficas indicam que Portugal vai continuar a ser um país envelhecido. O que resta saber é se ao ter práticas bem mais jovens, as pessoas vão mantê-las em mais velhas".

A fim de fortalecer as práticas culturais na sociedade, os coordenadores do estudo destacam a necessidade de serem colocadas em prática medidas públicas que levem os portugueses à cultura, entre elas, campanhas de incentivo ao cinema e leitura (bem como nas outras áreas) e informação cultural nos noticiários televisivos, devido ao elevado alcance.

Quanto ao elevado preço de ingressos - um dos grandes entraves no acesso aos eventos - os intervenientes frisam ainda a necessidade de preços acessíveis, com promoções para famílias, jovens, idosos e bilhetes "última da hora" (mais baratos).

Contudo, para um retorno aos palcos, teatros, cinemas e livrarias há uma resposta ainda mais urgente: o desfecho da pandemia e o regresso das pessoas à rua.

ines.dias@dn.pt

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