Os melhores anos da nossa vida

Um DJ, a sua prolongada juventude e o despertar para a vida adulta são a matéria-prima de Éden, a crónica de uma geração pela realizadora francesa Mia Hansen-Løve. Passa esta sexta-feira na RTP2.

Nos dias excecionais que estamos a atravessar, ver cenas de discoteca no pequeno ecrã pode ter um efeito frustrante ou libertador. Frustrante porque não podemos ter aquela experiência agora; libertador porque - e virando do avesso o ditado popular - o que os olhos veem o coração sente. Por alguns minutos, dispersos ao longo de Éden (2014), será possível mergulhar nessa visão de ritmo noturno, de dança coletiva, com o abraço da recatada nostalgia que a francesa Mia Hansen-Løve explorou neste filme.

Éden, em exibição esta sexta-feira (23.10) na RTP2, segue de perto os passos de um jovem DJ, Paul (Félix de Givry), desde os dias em que se apegou à mesa de mistura e aos vinis até ao momento em que a realidade lhe cai em cima e os tempos da juventude se despedem sem cerimónias ou pré-aviso. Esse jovem, cujo percurso se baseia no do irmão da realizadora, Sven Hansen-Løve, é o corpo através do qual se retrata a geração da música eletrónica e todo um sentimento de felicidade fugidia. As noites longas - em que se vislumbram personagens como a dupla Daft Punk, dando azo a um gag à volta do facto de não serem reconhecidos sem os capacetes que usam como máscara -, a droga, o sexo, a dependência financeira, o abandono dos estudos académicos e as repetidas separações amorosas, compõem o carrossel de uma vida, íntima e coletiva, que Hansen-Løve não deixa que passe demasiado depressa pelos olhos do espectador.

Pelo contrário, desde o ano em que começa, 1992, até se ler "2013" no ecrã, o filme progride por uma acumulação subtil de experiências que revelam apenas a vida como ela "era" e não voltará a ser para Paul. Na tentativa de prolongar o mais possível a sua fórmula da juventude, ele vai atravessando os anos como uma figura estagnada entre a música e as namoradas que lhe roubam t-shirts, sem conseguir aceitar a ideia do paraíso perdido. O tempo passa, os amigos e essas ex-namoradas vão constituindo família, e nada volta atrás.

Mais do que a cena musical de uma geração, é sobre esse arrastar de uma miragem que fala Éden, filme de uma tristeza tímida e bela que vai acalentando a alma do protagonista até que tudo desaba, com uma legenda invisível: a vida é uma pequena desilusão.

Pequena porque, apesar do seu fôlego romanesco, Éden faz-se de pequenos nadas, observações de traços quotidianos, conversas, festas, declarações de amor e olhares de despedida. Aí está, de resto, uma das marcas comuns do cinema de Hansen-Løve, que invariavelmente nos dá o sabor de determinadas vidas, mas nunca recorre a grandes temperos. Assim, a desilusão que advém do corte com a juventude é só mais um movimento necessário à continuação da vida... Talvez não seja por acaso que o seu filme seguinte se intitula O Que Está Por Vir (2016). Nessa crónica da maturidade com Isabelle Huppert no centro - por sinal, o melhor filme da realizadora - é a necessidade de reaprender a solidão que serve de mote ao magnífico retrato de uma mulher.

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