Obama aos 60 anos. Um documentário em forma de radiografia política

A identidade, a ascensão e o legado de Barack Obama num documentário que procura manter viva a chama da história política americana recente. Obama: In Pursuit of a More Perfect Union estreia hoje na HBO.

Aos 34 anos publicou um livro de memórias - ninguém o faz com essa idade! -, e agora, no dia em que se torna sexagenário (4 de agosto), surge um documentário em três partes que percorre a sua biografia, desde a infância no Havai até aos desafios da presidência dos Estados Unidos. Barack Obama não é um dos entrevistados de Obama: In Pursuit of a More Perfect Union (produção original HBO), embora o realizador Peter Kunhardt recorra a várias das suas entrevistas antigas, nomeadamente ao programa 60 Minutos. Em todo o caso, estão aqui as linhas gerais da narrativa de um homem que quis abraçar a complexidade de um país, com um discurso otimista mas consciente de que não há planos perfeitos. Depois do informal Becoming, documentário da Netflix centrado na digressão da autobiografia da mulher, Michelle Obama, em que ele também dá um ar de sua graça, eis o momento só de Barack. Um olhar panorâmico sobre a figura e o seu lugar na política americana.

A primeira parte de Obama: In Pursuit of a More Perfect Union dá um retrato instantâneo da criança que cresceu no Havai, filho de mãe solteira, uma mulher caucasiana do Kansas, e de pai queniano (cuja ausência marcante na sua vida esteve na origem do livro Dreams From My Father), para além do jovem que se formou na Universidade de Columbia e na Faculdade de Direito de Harvard, passando pela experiência da comunidade afro-americana de Chicago, muito ligada à igreja, até se candidatar à presidência. Assim, no segundo capítulo já estamos no âmago da campanha presidencial, com as eleições em novembro de 2008 e a entrada na Casa Branca, e numa terceira parte o documentário mergulha nas dificuldades que o primeiro negro no cargo máximo da liderança americana teve de enfrentar com a crescente divisão do país, este severamente afetado pela violência policial contra os afro-americanos. Um cenário que, em última instância, levou ao sucesso da mensagem e posterior ascensão de Donald Trump.

A eterna América racial

Não estamos perante um filme definitivo sobre Barack Obama, tampouco um panfleto documental a fazer pura hagiografia, mas sim uma visão com diferentes perspetivas dadas por um conjunto de cabeças falantes. Se, por um lado, há quem sublinhe a coerência do trajeto deste que veio a ser o 44º presidente dos Estados Unidos, destacando a sua inteligência, jovialidade, carisma e sentido de responsabilidade, não deixa de ser aqui ouvido o "outro lado", isto é, quem torna mais delicada a reflexão em torno da questão racial. É o caso do pastor emérito da Trinity United Church of Christ, Jeremiah Wright, que na fase da´ascensão de Obama, em 2008, esteve no centro de uma polémica, quando a ABC News divulgou fragmentos dos seus sermões, expondo um discurso manchado por sinais de radicalismo. Na altura, o candidato presidencial repudiou as declarações em causa, mas debaixo da pressão mediática que insistia em apontar o dedo à sua amizade com Wright, acabou por fazer um discurso mais assertivo no distanciamento.

Em Obama: In Pursuit of a More Perfect Union, os testemunhos e comentários de personalidades afro-americanas como Jeremiah Wright, mas também o filósofo e ativista Cornel West, ou o escritor Jelani Cobb (produtor executivo do documentário), são importantes para colocar em contexto, de forma pragmática, a persistência das questões em torno da ação de Obama face à comunidade negra. Durante a sua Administração houve sempre quem achasse que ele não era "suficientemente afro-americano", por não ter uma história ancestral ligada à escravatura - ideia alimentada pelos media conservadores que entravam no jogo de difamação dos que punham em causa a sua identidade e cidadania americana.

A verdade é que o pioneirismo de Barack Obama apanhou sempre por tabela. Colocar acima de tudo o ideal da união do país, em vez de olhar a sociedade americana pelos seus diversos segmentos, valeu-lhe alguma incompreensão. Mas, no fim de contas, Peter Kunhardt - realizador que antes deste já tinha assinado um documentário sobre o republicano John McCain - quis fazer uma análise da postura de Obama e o modo como os americanos se vão relacionar com o simbolismo do seu legado.

É especialmente comovente, na última parte, regressar às conhecidas imagens do funeral do pastor Clementa Pinckney (uma das vítimas do massacre na igreja de Charleston, em 2015), circunstância em que Obama terminou o seu elogio ao defunto com uma interpretação espontânea do Amazing Grace, pondo todos os presentes a cantar em uníssono... É de momentos como este, do homem emocional que assume, em simultâneo, a dor e a esperança, que se faz o legado do 44.º presidente dos Estados Unidos.

De novo, Obama: In Pursuit of a More Perfect Union não é o documentário definitivo sobre uma figura única da história recente da política internacional. Mas é no seu estudo mais ou menos aprofundado do embate entre o idealismo de Obama e a aspereza da realidade americana que se alcança uma ideia clara sobre a complexidade de um país que tarda em cumprir o desígnio desse nome: Estados Unidos.

dnot@dn.pt

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