O sorriso de Lázaro

Vencedor do prémio de melhor argumento no último Festival de Cannes, Feliz Como Lázaro, da italiana Alice Rohrwacher, é uma fábula de muitos encantos, conduzida por uma figura que não é deste tempo. Nas salas.

O nome bíblico constante no título é uma pista. Depois do esplendoroso O País das Maravilhas (2014), Feliz Como Lázaro, terceira longa-metragem da italiana Alice Rohrwacher, aprofunda a poesia que se pode esconder no verdor da natureza: esta é a história de um jovem camponês cuja imensa candura lhe dá direito uma segunda vida. É o milagre filmado sem espalhafato.

No filme, uma voz em off narra essa espécie de ressurreição do protagonista - identificando-o como "Santo" -, na imagem do encontro com um lobo que o desperta pelo farejo, e sentindo-lhe o "cheiro de homem bom", não ataca. Estamos perante o momento que assinala um antes e um depois, e que levará o espectador a sentir também, como o ressuscitado, o prazeroso aturdimento de tão delicada e lírica viragem temporal. Não haja dúvida de que o prémio de melhor argumento, no último Festival de Cannes, foi muito bem atribuído.

O "antes" de Feliz Como Lázaro centra-se na sua vida de rústico e no modo como é explorado pelos outros camponeses, devido à sua beatífica prontidão; estes, por sua vez, são escravos de uma milionária italiana (o caso é baseado em factos verídicos). Com uma sensibilidade desarmante, ajudada pela rugosa película de 16mm, Rohrwacher regista aqui o crepúsculo de uma Itália rural sem, contudo, precisar a época. Mas quando vemos adereços como um telemóvel de antena ou um Walkman, começamos a perceber que já lá vão os tempos da escravatura, e que a situação daquele clã que vive à mercê de uma tal Marquesa Alfonsina De Luna (a principessa de Roberto Benigni, Nicoletta Braschi), dona de uma plantação de tabaco, é ilegal. Mais do que isso, a imoralidade desta mulher está no próprio isolamento a que destina as famílias de trabalhadores, travando-lhes qualquer contacto com a realidade nacional, de forma a impedir a tomada de consciência dos seus direitos. Eles ignoram o que seja semelhante coisa: supostamente, estão sempre em dívida para com a patroa.

Revoltado com a injustiça, o filho rebelde da Marquesa, Tancredi (Luca Chikovani), é quem vem agitar a cápsula do tempo desta gente. Torna-se próximo de Lázaro - figura que nos comove a todo o instante pela sua serenidade pictórica - e desta amizade nasce o laço mágico que vai desafiar as leis da natureza, numa rumorejante beleza cinematográfica. Rohrwacher, inspirada pelo folclore italiano, elabora então a fabulosa passagem para o "depois", a segunda parte do filme, em que Lázaro percorre sozinho a propriedade abandonada até se encontrar na cidade, como um corpo anacrónico à procura de vestígios do seu passado; ou melhor, à procura do "meio-irmão" Tancredi.

Mais uma vez, a realizadora não dá indicações temporais, mas percebemos que se passaram muitos anos. Quando é reconhecido por um dos membros do clã de camponeses, Lázaro torna-se, pela evidência sobrenatural, a visão de um santo ou de um fantasma. Todos à sua volta envelheceram, mas ele permanece com o mesmo rosto jovem imaculado e sorriso divino, atravessando a paisagem urbana na qualidade de um ser celestial. Rohrwacher tira partido disso em vários momentos, um deles a belíssima cena em que Lázaro "rouba" a música do órgão de uma igreja, trazendo-a para a rua noturna, como uma melodia oferecida aos pobres.

É assim, na expressão de um naturalismo paredes-meias com a fábula, que se percorre este filme milagroso. O encantamento parte do rosto de Lázaro, esse brilhante não-ator Adriano Tardiolo, e Alice Rohrwacher nunca o desaproveita. A nossa profunda emoção vem desta pureza representada em delicado contraste com o mundo corrompido, quer no campo quer na cidade. E a alegoria torna-se mais do que isso: Lázaro é uma pintura inscrita no plano do real, com um segredo de humanidade que fica a ressoar.

**** (Muito bom)

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