"O que faz o ministro dos Andares Ridículos?"

A dias das eleições que irão ditar a composição do próximo Executivo, a Fundação Francisco Manuel dos Santos lança o "Governo de Portugal", de Pedro Silveira. O DN revela o capítulo onde, socorrendo-se dos Monty Python, o jurista e politólogo procura responder a esta pergunta: "O que faz, afinal, um membro do Governo?"

O que faz, afinal, um membro do governo? Como ocupa os seus dias? Imagine que, tal como no mundo criativo dos Monthy Python, em Portugal existia um «Ministério dos Andares Ridículos», encarregado das pessoas que caminham de modo ridículo. Como é uma semana típica do ministro dos Andares Ridículos? A resposta mais adequada, para qualquer ministro, é que não existem semanas (ou dias ou meses) típicos. Na verdade, para muitos governantes, a inexistência de rotina é precisamente o que torna o exercício do cargo tão interessante. Ainda assim, tentemos imaginar uma agenda semanal do ministro dos Andares Ridículos.

Na segunda-feira, o ministro marcará presença, às 9h, na inauguração de uma nova fábrica de sapatos adaptados a pessoas com andares ridículos. Como a fábrica é nos arredores de Lisboa, o motorista apanha o ministro às 8h45 à porta de sua casa. Se não o fez já, pode aproveitar o tempo da viagem para percorrer os documentos de preparação da iniciativa ou para ler os jornais. A visita é rápida, porque o ministro tem de comparecer no ministério para a reunião semanal, marcada para as 10h30, com os seus três secretários de Estado - o do Pé Esquerdo, o do Pé Direito e o do Jogo de Cintura. Com o objectivo de projectar a semana, mas também para discutir e decidir assuntos pendentes que requerem a atenção do ministro, esta reunião alonga-se até à hora de almoço. Após comer algo trazido pelos serviços, reserva a tarde para as audições concedidas aos agentes do sector (como o poderoso Sindicato do Pé-Coxinho). Algumas horas depois, após terminar estas audiências, o ministro recebe os membros do gabinete que, entretanto, pediram para ser recebidos. Um adjunto que prepara um discurso a ser proferido na quinta-feira pede para trocar impressões sobre as principais ideias, o secretário de Estado do Pé Direito apresenta uma negociação difícil com outro ministério. Um telefonema de outro ministro interrompe esta conversa e mantém o ministro no gabinete até às 21h30.

No dia seguinte, o ministro chega ao ministério às 8h30. Aproveita o café para discutir alguns assuntos internos com o chefe de gabinete e recebe o assessor de imprensa para avaliar um pedido de entrevista para o noticiário da noite, onde deverá pronunciar-se sobre a greve dos fabricantes de andas. Aproveitam para discutir alguns assuntos pendentes de comunicação política. O ministro tem tempo para folhear os jornais até à próxima reunião, com o director-geral das Técnicas de Caminhada, às 9h30. Pelas 10h, inicia uma reunião de trabalho com dois dos secretários de Estado e um membro do gabinete de cada um. Tratando-se de uma reunião sobre uma nova política que diz respeito às duas subáreas, arrasta-se até perto da hora de almoço. O secretário de Estado do Jogo de Cintura pede para almoçar com o ministro, com o intuito de obter orientações sobre um dossiê politicamente delicado. Este tira a tarde para preparar a entrevista televisiva dessa noite, mas é regularmente interrompido por telefonemas e pedidos de reuniões rápidas com membros do gabinete. A meio da tarde, é mesmo confrontado com uma notícia crítica da Direcção-Geral dos Caminhos Tortos, um serviço sob a sua alçada, pelo que dá orientações para se averiguar o que se passou e se elaborar uma resposta oficial do gabinete, que revê. Pelas 20h15, está nos ecrãs de milhares de portugueses. Dos estúdios segue para casa, onde chega às 21h.

Na quarta-feira o ministro viaja para Coimbra, constando da agenda uma visita a um passadiço exclusivo para caminhadas de lazer, um encontro com uma associação regional de empresários do sector e uma reunião com o presidente da Câmara. A visita estava marcada para as 10h, mas o ministro chega às 10h45. Pelas 15h, está de regresso ao ministério, para uma reunião com os secretários de Estado onde se discutirá a proposta de decreto-lei de apoio aos andares ridículos de alta competição. Esta estará no dia seguinte em discussão no Conselho de Ministros e não foi previamente consensualizada. No final, telefona ao ministro das Finanças, que tem inviabilizado a solução pretendida. Recebe ainda o assessor de imprensa, com quem discute os resultados da entrevista e a estratégia para lidar com dois novos assuntos. Pelas 17h, acede ao pedido de reunião do secretário de Estado do Pé Esquerdo, que o confronta com dois problemas de resolução urgente e uma iniciativa política. A reunião termina às 19h30, e o ministro aproveita o tempo sozinho para pensar e fazer alguns cálculos sobre o problema que ficou por resolver. Chama a economista do gabinete para trocar ideias e telefona ainda a outro membro do gabinete para confirmar um detalhe técnico e pedir sugestões. Deixa o ministério às 20h30.

A manhã de quinta-feira começa na sede da Presidência do Conselho de Ministros, onde, pontualmente, o ministro chega às 9h30. Esta reunião termina pelas 12h30, pelo que o ministro consegue ir almoçar a casa. Regressando ao ministério às 14h00, recebe o membro do gabinete que preparou o debate parlamentar do dia seguinte. Como um dos assuntos do momento diz respeito ao ministério - o aumento abrupto da taxa de andares normais no país -, o ministro estará presente. Reúne-se ainda com o adjunto que apresenta a versão final do discurso que o ministro fará hoje, numa conferência da Organização Mundial de Andares. O ministro concorda e, já sozinho, faz pequenos ajustes, enquanto consulta alguns dados. Entretanto, recebe um telefonema do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares acerca de uma negociação em curso com a oposição sobre pés-chatos que seria útil fechar antes do plenário. O ministro pede algumas horas e reúne-se com o chefe de gabinete e com um adjunto de perfil partidário. Às 18h, discursa na conferência e regressa ao ministério às 19h, iniciando a preparação do plenário parlamentar, o que o ocupa até às 22h.

No dia seguinte, a primeira paragem é em São Bento, com o debate parlamentar em pano de fundo. Regressa ao ministério às 14h, conferencia com o chefe de gabinete e chama o secretário de Estado do Pé Esquerdo, que aguarda orientações sobre o tal problema urgente. Este traz um adjunto e os três analisam, discutem e decidem a solução: reverter a grande reforma das caminhadas ébrias. Pelas 16h30 terminam, e o ministro dedica-se a analisar os documentos que o chefe de gabinete assinalou como requerendo a sua aprovação. Entretanto, vai sendo interrompido por telefonemas e reuniões curtas com membros do gabinete que, incumbidos das suas tarefas específicas, o procuram quando não se sentem confortáveis a decidir sozinhos. Às 19h regressa a casa. Sábado e domingo são dias de descanso. Ainda assim, no sábado à noite tem um compromisso partidário, sendo o orador principal de uma iniciativa do partido do seu círculo eleitoral dedicada ao tema "Andares ridículos em tempos sisudos". No domingo à tarde acompanhará o primeiro-ministro numa visita à Feira Internacional de Calçado.

Convém voltar a frisar que dificilmente esta semana constituirá uma semana típica. Por um lado, devido à imprevisibilidade do exercício do cargo. Com grande probabilidade, a semana anterior e a seguinte seriam muito diferentes. Ademais, se fossem meses de negociação do orçamento, o ritmo tenderia a ser muito mais elevado. Por outro lado, a agenda dependerá de qual é o ministério e de quem é o ministro. Se, por exemplo, o ministro fosse membro do núcleo duro teria, pelo menos, mais uma reunião semanal e maior probabilidade de se manter em contacto com o primeiro-ministro. Afinal, convém admitir que a agenda do nosso ministro dos Andares Ridículos é ficcional... mas não totalmente.

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