'O Poder do Cão'. Uma neozelandesa reinventa o "western"

Revisitando as paisagens do velho Oeste, O Poder do Cão, escrito e realizado por Jane Campion, consegue ser o retrato de uma época através de uma delicada teia de enigmas pessoais.

Um "western"? É verdade. A classificação tem tanto de inevitável como de insuficiente. O Poder do Cão (Netflix) é um filme que nos coloca no estado de Montana, em 1925, seguindo a odisseia dos irmãos Burbank, Phil e George, criadores de gado, interpretados por Benedict Cumberbatch e Jesse Plemons, respetivamente.

Phil é o cowboy clássico, conhecedor do gado e dos mistérios da paisagem, que não perde uma oportunidade para troçar das diferenças de pose e comportamento de George (que estudou na universidade). Ainda assim, a sua relação agreste, povoada de muitos silêncios, possui uma estabilidade que vai ser posta em causa pelo facto de George se enamorar de Rose (Kirsten Dunst), dona de uma estalagem, com quem acaba por casar...

Mais do que factualmente limitada, esta sinopse corre o risco de sugerir que o novo filme da neozelandesa Jane Campion (que lhe valeu um Leão de Prata, melhor realização, em Veneza) segue os caminhos de uma evocação mais ou menos pitoresca do velho Oeste.

Nada disso. Desde logo porque estamos já num contexto em que os cavalos coexistem com os primeiros automóveis, sem esquecer os dotes de piano de Rose, desenvolvidos enquanto acompanhante da projeção de filmes... Reencontramos, afinal, o espírito de alguns modelos revivalistas do "western" das décadas de 1960/70 (a memória de Sam Peckinpah é incontornável) em que o fim de um modo de vida - de ocupação e desenvolvimento do território - se revela através de uma convulsão radical das relações humanas.

Ainda que evitando revelar mais do que é devido sobre o argumento que Jane Campion também escreveu (a partir do romance homónimo de Thomas Savage, publicado em 1967), importa acrescentar que há qualquer coisa de prodigioso na delicadeza com que O Poder do Cão nos envolve numa teia de personagens em que todo um modelo de civilização se exprime através dos desejos mais enigmáticos e também de uma sexualidade estranha aos clichés do nosso tempo. Fiquemo-nos, para já, pelo mais simples: Benedict Cumberbatch pode estar a caminho do seu primeiro Óscar.

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