O nosso extraterrestre favorito faz 40 anos

Um dos filmes mais amados de todos os tempos está a celebrar mais uma década. E. T. - O Extraterrestre, de Steven Spielberg, tornou-se um clássico através do retrato da amizade entre um menino e um adorável ser de outro planeta, na aventura do seu regresso a casa.

A silhueta de uma criança numa bicicleta, com uma criatura alienígena no cesto dianteiro, voando defronte de uma imponente lua cheia. A imagem fixada no logótipo da Amblin Entertainment, produtora que Steven Spielberg criou com Kathleen Kennedy (agora presidente da Lucasfilm) e Frank Marshall, muito mais do que a marca de uma empresa, é o símbolo da memória afetiva de toda uma geração. Aquela cena maravilhosa de E.T. - O Extraterrestre, em que o pequeno Elliott, surpreendido pelos poderes do seu novo amigo na noite de Halloween, grita "Não tão alto! Não tão alto!" à medida que este desafia a lei da gravidade com a deslocação aérea da bike, ao som de um dos mais belos temas do repertório de John Williams, é um momento que desbloqueia algo no espetador, pelo seu sentido puro de encantamento. Ainda hoje sentimos a magia do voo de Elliott, somos transportados pela melodia de Williams. Curiosidade: esta cena é uma homenagem ao filme O Milagre de Milão (1951), de Vittorio De Sica, um dos prediletos de Spielberg, com uma componente de fantasia que põe os pobres a voar em cima de vassouras...

Apresentado na noite de encerramento do Festival de Cannes de 1982, no dia 26 de maio, E.T. - O Extraterrestre voltará esta quinta-feira, numa sessão especial, ao certame onde foi visto pela primeira vez há 40 anos. Um caso muito sério de cinema popular que desde aí tocou o coração de famílias inteiras por esse mundo fora, surpreendendo o próprio realizador, que durante a produção disse nunca ter imaginado o fenómeno em que se tornaria um filme tão pessoal, sem ambições de grandiloquência. Chegados a 2022, pode dizer-se que continua a ser um dos mais amados de todos os tempos, passado de geração em geração como uma referência preciosa que se transmite a filhos e sobrinhos.

Ao longo dos anos, muito se especulou sobre uma possível sequela de E.T., mas Spielberg sempre resistiu à ideia, talvez por este ser um objeto demasiado sagrado na sua filmografia. Seja como for, não colocou entraves a um anúncio publicitário lançado em novembro de 2019 pela empresa de telecomunicações Xfinity, com o título A Holiday Reunion, que funciona como uma "curta sequela" do filme original. São quatro minutos realizados por Lance Acord (o diretor de fotografia de Lost in Translation) e tem Henry Thomas de regresso ao papel de Elliott, agora adulto e pai de família, recebendo E.T. em sua casa para as férias de Natal. Uma simples peça de conforto.

Mais recentemente, no passado mês de abril, já no âmbito das comemorações do 40º aniversário de E.T. - O Extraterrestre, Spielberg falou para uma audiência no TCM Classic Film Festival sobre o nascimento desta obra. Histórias que vale sempre a pena recordar, como seja o fantasma do divórcio dos pais que o realizador revelou, desde cedo, ter sido a grande razão para fazer o filme. Nos anos 1970 vinha escrevendo um argumento sobre esse tópico, com zero elementos fantásticos, quando, na rodagem de Encontros Imediatos do Terceiro Grau (1977), mais precisamente ao filmar a cena final, pensou: "Espera aí, e se aquela criaturinha [que comunica através de linguagem gestual com François Truffaut] não tivesse voltado para a nave?" Eis aqui um esboço de E.T., o elemento de uma família deixado para trás no planeta Terra, que viria preencher uma ausência na família de outra criança: a do pai. "O divórcio cria uma grande responsabilidade", nota Spielberg. "E se Elliott, ou o miúdo - eu ainda não tinha sonhado com o nome dele - pela primeira vez na sua vida se tornasse responsável por uma forma de vida, para preencher a lacuna no seu coração?"

Ao longo dos anos, muito se especulou sobre uma possível sequela de E.T., mas Spielberg sempre resistiu à ideia, talvez por este ser um objeto demasiado sagrado na sua filmografia.

Com efeito, o tema do divórcio atravessa mais ou menos inconscientemente vários dos seus filmes, incluindo, de forma muito direta, o que está neste momento em pós-produção, The Fabelmans, um drama semiautobiográfico sobre a infância, previsto para chegar ainda este ano às salas.

Curioso é que E.T., o filme sobre a solidão de uma criança que descobre num amável alienígena um amigo capaz de curar uma certa falha doméstica, ou simplesmente sobre esse lar dilacerado pela separação dos pais, foi também o filme responsável por uma mudança no projeto de vida de Spielberg. "Eu não queria ter filhos, não era um tipo de equação que fizesse sentido para mim", disse à plateia do TCM Film Festival. "Nunca me ocorreu até meio de E.T.: eu era um pai nesse filme. Estava literalmente a sentir-me muito protetor com Henry [Thomas] e Mike [McNaughton], e todo o meu elenco. Especialmente Drew [Barrymore], que tinha apenas 6 anos. Comecei a pensar: "Bem, talvez esta possa ser a minha realidade algum dia." Foi a primeira vez que pus a hipótese de talvez vir a ser pai." Do lado de cá da vida real, teve depois sete filhos.

Por falar em elenco, o casting dos pequenos atores compõe, por si só, um capítulo delicioso. O mais conhecido é o caso do protagonista, Henry Thomas, a quem foi pedido na audição para simular uma resposta às autoridades americanas que viriam buscar "o seu melhor amigo"... Ora, ele não simulou nada. Desatou a chorar com uma sinceridade espantosa, defendendo a criatura que ainda nem sequer tinha forma física. No final do brilharete, o realizador limitou-se a proferir o famoso "Ok kid, you got the job" (o vídeo está no Youtube). Mas Thomas não foi o único a partir a loiça toda numa primeira impressão. Ainda pegando nas palavras do próprio Steven Spielberg: "Quando Drew entrou no meu escritório tomou de assalto o encontro. Eu disse: "Gostas de representar? E ela: "Não sou atriz. Tenho uma banda de punk rock." [recorde-se: 6 anos de idade] E começou a contar-me sobre essa banda que tinha formado e que ia fazer espetáculos... Eu acreditei nela, havia ali tanta vida interior! Percebi pouco depois que realmente não tinha uma banda de punk rock. Mas se ela era capaz de acreditar que sim, então acreditaria que a pequena criatura mecânica era um verdadeiro extraterrestre." Pois bem, não foi apenas a mini Drew Barrymore que se afeiçoou ao E.T. concebido por Carlo Rambaldi. Os outros miúdos, mesmo que mais crescidos, também ganharam estima pelo boneco, o que deu azo a uma despedida honestamente sentida - algo que, sem dúvida, passou para o grande ecrã.

Nomeado para nove Óscares, dos quais venceu quatro (categorias técnicas e banda sonora, de John Williams), E.T. - O Extraterrestre está hoje no panteão dos "filmes da nossa vida", sobretudo para todos aqueles que cresceram na década de 1980. De onde veio a simpatia de Spielberg por seres alienígenas? O seu pai era um leitor ávido de ficção científica, e acreditava que se fôssemos visitados por eles seria apenas numa atitude de curiosidade, e não de ameaça. Lá está: tudo vai dar ao pai. Um eterno regresso a casa.

dnot@dn.pt

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