O Museu Gulbenkian tornou-se radical à sua maneira

Uma reaproximação entre Oriente e Ocidente, um olhar sobre as estruturas pós-coloniais, uma exposição em torno da coleção de arte islâmica e novas aquisições marcam o próximo ano da Gulbenkian.

Do Oriente ao Ocidente vai uma longa distância que Calouste Sarkis Gulbenkian (1869-1955) sempre soube reduzir. Foi assim que colecionou e dispôs as suas obras. E foi a esse espírito que quis regressar a diretora do Museu Gulbenkian Penelope Curtis, chamada a unir as duas coleções do Museu, a do Fundador e a Moderna, em 2015.

Num pequeno-almoço com jornalistas para apresentação da temporada de 2019 e das recentes mudanças e aquisições nas coleções, a diretora lembrava que, logo em 2016, afirmou em entrevista ao Público que "radical seria mudar a forma como separamos Oriente e Ocidente no Museu Gulbenkian". Dois anos depois, eis que a antiga galeria da Renascença, "que era uma espécie de espaço vazio", diz, se tornou no lugar desse trânsito entre Oriente-Ocidente, Ásia-Europa.

"Ambos estavam muito próximos quando Gulbenkian era vivo, mas depois foram separados. Vamos reaproximá-los e atravessar várias culturas, explorando a relação", explicou Curtis.

É a curadora Jessica Hallett quem nos guia pela recente presença de uma medalha com o retrato do sultão otomano Maomé II, criada pelo artista veneziano Gentile Bellini, no século XV, por exemplo, bem como encadernações de manuscritos com motivos que associamos ao Oriente mas onde surge o leão de São Marcos no centro, um guarda-sol de Veneza do século XVI, ou, próximas, cerâmica policromada de Florença e de Iznik (Turquia), de cerca de 1500.

"Acho que as pessoas não vão ficar chocadas, apesar de ser uma grande diferença. A ideia é que esteja em harmonia com o museu", lança a diretora ainda na galeria.

Também na Coleção Moderna, onde têm sido registadas mais visitas de estrangeiros desde que o Centro de Arte Moderna foi extinto e as duas coleções foram fundidas no mesmo museu, houve mudanças. No primeiro piso, onde estava um núcleo de obras surrealistas estão agora obras neorrealistas de Júlio Pomar, Querubim Lapa, Júlio Resende ou Rogério Ribeiro.

Logo na sala ao lado, outra novidade. Parte das obras que a Gulbenkian levou para mostrar na Semana Cultural de Bagdade em 1966, onde a fundação queria mostrar o que de mais moderno se fazia então na arte europeia, podem agora ser vistas por todos. Algumas delas, nota a curadora Patrícia Rosas, "foram diretamente" para o Iraque depois de serem adquiridas, e só depois vieram para Portugal.

Lá está For Men Only, de Peter Phillips, uma das obras mais marcantes da coleção moderna, ao lado de quadros também de grande dimensão de Harold Chen, Nuno de Siqueira, Alan Davie ou Artur Real.

Helena Almeida e João Queiroz estão entre os artistas da coleção moderna com presença reforçada no Museu Gulbenkian.

A arte e o petróleo lado a lado

Para celebrar os 150 anos que o arménio Calouste Gulbenkian faria em 2019, o Museu mostra a partir de 12 de julho a exposição A paixão pela arte islâmica - Dos finais do Império Otomano à Era do Petróleo. Mais uma vez, regressamos às origens da coleção e do seu fundador.

"Esta coleção de arte islâmica, uma das melhores do mundo, nunca foi devidamente valorizada", considera Penelope Curtis. Nesta mostra, garante, vamos ver Realpolitik ou, por outras palavras, "como a estrutura geopolítica nesta altura permitiu a Gulbenkian e outros fazer a sua coleção". Curtis, aliás, lembrou que as maiores aquisições de Gulbenkian foram feitas quando os preços do petróleo estavam mais altos.

A diretora lembrou ainda a importância dos negociantes arménios na constituição da coleção Gulbenkian: "Metade dos objetos foram comprados através de negociantes arménios com ótimas relações com o antigo império Otomano."

Olhar o (pós-)colonialismo

Além de Oriente-Ocidente, Norte-Sul será outra das geografias do próximo ano na Gulbenkian, que convocou três artistas contemporâneos a refletir sobre o colonialismo ou estruturas colonialistas em África e a expor no espaço Projeto.

A franco-marroquina Yto Barrada, com uma obra bastante marcada pelas relações impostas por um passado colonial, será a primeira, com inauguração marcada para fevereiro. Segue-se a portuguesa Filipa César, que se tem debruçado sobre a Guiné-Bissau. A partir de 31 de maio, ali será exibido o seu documentário fílmico sobre a gentrificação nas Bijagós, por franceses e senegaleses. Irineu Destourelles, artista nascido em Cabo Verde e cujo trabalho é fortemente marcada pela perpetuação de práticas coloniais, sobretudo no que diz respeito às questões de violência, inaugurará Subtitularizar em setembro.

Francisco Tropa e Sarah Affonso

É conhecido e visível na sua obra o fascínio de Francisco Tropa com os objetos. O Pyrgo de Chaves parte de um bem raro. Trata-se de um "pyrgo" ou "turrícula" de bronze, uma torre para lançar dados de jogar, encontrado nas recém-descobertas Termas Romanas de Chaves.

Penelope Curtis contra que perto do objeto foram encontrados dois esqueletos e dados. É daí que Tropa parte, numa exposição marcada para fevereiro. "Acho que vai ser uma conversa inesperada entre arte e arquitetura", diz Curtis, curadora da exposição, no espaço Conversas, com o arqueólogo Sérgio Carneiro.

Para que surja em paralelo com a grande exposição que o Museu de Museu Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado vai dedicar a Sarah Affonso, anunciou Penelope Curtis, o Museu Gulbenkian vai mostrar em julho a relação da artista (1899-1983) com a arte popular, com o foco na do Minho, que marcou a infância de Sarah Affonso em Viana do Castelo. Além das suas obras, a exposição mostrará também "objetos cerâmicos, têxteis, ourivesaria que formam o léxico visual" que a inspirou.

Robin Fior e a tradição radical do design gráfico, a partir de novembro de 2019, mostrará obras do designer gráfico (1935-2012) britânico que se mudou para Portugal em 1972, ainda a tempo de ter um papel político ativo antes e depois do 25 de abril. A diretora do museu chamou a atenção para os cartazes para os movimentos de libertação africanos do designer cujo espólio está depositado na Biblioteca de Arte da Gulbenkian.

Um museu que já nasceu old-fashioned

Para celebrar os 50 anos do Museu (bem como de todo o edifício da sede) Gulbenkian, Penelope Curtis imaginou uma exposição que confrontasse os visitantes "com diferentes formas de mostrar arte" e que isso fosse feito naquele museu, "clássico, onde a relação é de um para um em entre espectador e obra".

A diretora, que será curadora da exposição com Dirk van den Heuvel, diz que tem trabalhado bastante nos arquivos da instituição para pensar este museu que, por opção, considera, "já era old-fashioned antes de abrir", lembrando que na mesma altura houve opções bastante diferentes, como o Centre Georges Pompidou, em Paris, que abriu pouco depois.

Marcada para novembro, a exposição quer pensar este museu "em relação a outros da mesma altura", com a ajuda da revisitação de projetos de arquitetos como Albini, Bo Bardi, Carlo Scarpa, Aldo Van Eyck ou Alison e Peter Smithson.

500 mil euros para aquisições

O orçamento do Museu Gulbenkian em 2018 para novas aquisições foi o mesmo do ano anterior: meio milhão de euros. "Fizemos um exercício intenso para identificar lacunas na coleção", explicou a diretora. Obras de Ernesto de Sousa, Ana Jotta, Cruzeiro Seixas, Ângela Ferreira, Fernando Lemos, ou Jorge Vieira estão entre as novas aquisições do museu.

A exposição Pós-Pop. Fora do Lugar Comum, que esteve patente entre abril e setembro de 2018 e foi vista por mais de 50 mil pessoas, foi ainda ocasião para a aquisição de obras de Teresa Magalhães, José de Guimarães, João Cutileiro - "que fez uma doação generosa" à fundação - e Praneet Soi.

Grada Kilomba e Kiluanji Kia Henda afirmam agora o pensamento sobre o pós-colonialismo em África na coleção moderna da Gulbenkian. Luísa Jacinto, Mariana Silva e Miguel Soares marcam a presença das novas gerações.

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