"O momento em que a América tomou as rédeas do seu destino"

Com assinatura do criador de Downton Abbey, Julian Fellowes, a nova grande produção da HBO troca a aristocracia britânica pela americana. Entre conversas, trajes elegantes e casas ricas, habitadas por um elenco à medida, a série The Gilded Age vai fazer as delícias dos apreciadores de dramas de época. Estreia na próxima terça-feira.

Otermo foi roubado pelos historiadores a um romance pouco conhecido de Mark Twain. "Gilded Age "("Era Dourada") refere-se ao período americano da década de 1870 até cerca de 1900, depois da Guerra Civil, caracterizado pelo rápido crescimento industrial e económico que se traduziu no excesso materialista e na corrupção política - temas que alimentaram, por sua vez, obras literárias de crítica social, a começar pelo referido livro de Twain (co-escrito com Charles Dudley Warner), The Gilded Age: A Tale of Today. Julian Fellowes, o britânico que nos deu o sucesso Downton Abbey, chegou ao paladar desta época precisamente pela leitura de um livro sobre a socialite multimilionária Alva Vanderbilt (1853-1933) e a sua filha Consuelo, esta última uma das mais famosas "Dollar Princesses", tendo em mente uma série sobre os Vanderbilt. Mas como confessou no painel virtual de promoção de The Gilded Age em que o DN participou, "quando escrevemos sobre pessoas reais, temos de acertar no que realmente aconteceu", e ele estava mais voltado para os mecanismos da ficção no interior da História.

Fellowes diz-se um apaixonado pela história americana e um grande fã da autora de A Idade da Inocência, Edith Wharton, "o que ajudou muito". Mas o que é que lhe interessou em particular neste período? "A Gilded Age é um capítulo muito vívido dessa história, logo após o igualmente vívido, mas sem dúvida menos glamoroso, capítulo da Guerra Civil. Portanto, temos estes imensos períodos passíveis de dramatização uns atrás dos outros... Acho isso absolutamente emocionante!" Vívido em que sentido? Talvez se possa começar pelo modo como os ricos dessa época se viam a eles próprios: "Julgavam que eram gigantes, e construíam casas para gigantes!" E continua, quando interrogado sobre a influência do padrão europeu: "Penso que este foi o momento em que a América tomou as rédeas do seu destino e deixou de sentir que tinha de ter algum tipo de marca europeia no seu modo de vida." Um incremento de confiança que se testemunha na atmosfera dos primeiros cinco episódios da série da HBO (são nove, no total) disponibilizados à imprensa. "Este foi o início da Renaissance americana. Eles encontraram uma forma de fazê-lo à sua maneira, e não enquanto pastiche de como foi feito em Paris ou Londres", conclui.

Senhor de uma atenção obsessiva aos detalhes que garantem o sentimento de autenticidade , o realizador teve uma grande equipa responsável pela pesquisa de como realmente se vivia na Nova Iorque de 1882.

Senhor de uma atenção obsessiva aos detalhes que garantem o sentimento de autenticidade - mesmo nos espetadores leigos em história -, Fellowes teve uma grande equipa responsável pela pesquisa de como realmente se vivia na Nova Iorque de 1882. É nesse ano que apanhamos a jovem Marian Brook (Louisa Jacobson, filha de Meryl Streep) de saída d a Pensilvânia, após a morte do pai que não lhe deixou um tostão, para ir viver com duas tias, Agnes van Rhijn (Christine Baranski) e Ada Brook (Cynthia Nixon), na grande cidade. Pelo caminho, ela travou uma amizade instantânea com uma aspirante a escritora, Peggy Scott (Denée Benton), que lhe prestou auxílio depois do seu bilhete de comboio ser roubado, e que por ser uma jovem mulher negra suscitará alguns olhares desconfiados à chegada a Manhattan. Porém, passada a primeira reação típica da classe alta, a tia Agnes acaba por contratar Peggy como sua secretária, para lhe tratar da correspondência, e deixa bem claro à sobrinha Marian quem é que manda...

Esta será então a casa que representa o "dinheiro antigo" de Nova Iorque, por oposição aos Russells, os novos vizinhos do outro lado da rua, que simbolizam o "dinheiro novo". George (Morgan Spector) fez a sua enorme fortuna como magnata das ferrovias, e a sua esposa, Bertha (Carrie Coon), aplicou parte dela na mansão palaciana - ao estilo dos gigantes, como dizia o criador da série - que se impõe aos olhares curiosos. O problema é que, apesar da sua determinação feroz, ela está a ter dificuldades em ser aceite na alta sociedade, composta por mulheres que separam bem as águas, como a dita decana interpretada por Baranski.

Baranski que, na conferência virtual, divertida e com aquela pausa de charme muito sua, falou da química desta personagem viúva com a "irmã" Cynthia Nixon, que é uma das delícias da escrita de Fellowes: "Há tanto naquela relação que tem o humor de um casal de idosos... São duas pessoas que vivem juntas, que se irritam uma à outra, que são muito protetoras uma da outra, e toda a tonalidade de uma relação onde alguém está para o outro todos os dias é algo difícil de representar, porque há demasiado tecido quente ali."

Nixon, aqui a assumir a pele da solteirona cândida, longe do perfil da Miranda de O Sexo e a Cidade, prossegue com essa ideia do velho casal: "Ada é aquela que desempenha o papel tradicionalmente feminino. Isto porque é a Agnes que tem o poder financeiro, mas também uma personalidade forte - é a irmã mais velha, muito opinativa, que tem sempre razão. E Ada, que viveu sempre à margem, está ansiosa por ver mudanças a acontecer. De certa maneira, com o seu jeito para vasculhar, de recolher informações daqui e dali e insistir na sua agenda, ela é quem tem os ouvidos bem abertos lá em casa. Às vezes o Rei - e penso na Agnes como o Rei ou a Rainha - sabe menos do que as pessoas à sua volta." Nem mais.

Tradição versus modernidade

Julian Fellowes, que escreveu a série com Sonja Warfield, sabe trabalhar a coreografia feminina do costume drama como poucos, e prova com The Gilded Age que este não é um género exclusivamente britânico. As mulheres são, de resto, a respiração da intriga, funcionando como forças contraditórias a que as atrizes procuraram responder dentro de uma consciência de época. Louisa Jacobson, por exemplo, diz que leu, para além de A Idade da Inocência, outros romances como Retrato de uma Senhora, de Henry James, para tentar entrar "na mente de uma jovem mulher branca na sociedade nova-iorquina daquela altura", mesmo que a sua Marian tenha crescido na Pensilvânia. Já Denée Benton diz de Peggy Scott que "é um reflexo de mim mesma, no sentido de fazer parte da história. As nossas experiências são semelhantes nisto de ser uma mulher negra letrada na América, que cresceu num ambiente de classe média alta... Sinto uma ligação espiritual com ela". Uma personagem que "lida com o patriarcado dentro de casa, com a supremacia branca fora de casa, e onde é que que encontra o seu caminho no meio da imaginação limitada que a rodeia?" Na escrita. Lembra-nos a Jo March de Mulherzinhas, mas com a realidade de uma jovem negra às costas.

The Gilded Age define as linhas mestras do seu enredo nas duas famílias opostas, as Brooks e os Russells, mas permite que em cada uma das casas ricas circulem opiniões distintas, como um suave campo de batalha onde as conversas e o chá fazem o conflito entre a tradição e a modernidade confundir-se com manobras de opulência. E a verdade é que não conseguimos tirar os olhos de cada vestido diário (por vezes, mais do que um) de Bertha/Coon, que passa o tempo a ostentar uma postura de estratega social, quer no desejo de integrar as elites estabelecidas quer na gestão da vida sentimental da filha.

Quem tem a última palavra em excelência de pose, no entanto, é Christine Baranski, que surge como um equivalente da Condessa viúva de Maggie Smith em Downton Abbey. Para onde quer que a narrativa vá, ela é o posto seguro da língua afiada, com o carisma tranquilo de quem só precisa de um piscar de olhos para fazer tremer os deslumbrantes cenários. Fellowes é exímio neste tipo de personagens que, por muito dinheiro que tenham e pelo qual se definam, nunca chegam nem próximo do perfil odioso. Não há gente propriamente desprezível aqui. O carinho do criador por cada uma das peças do seu puzzle social vai da cozinha do andar de baixo, onde se reúne o staff, até à sala de jantar dos patrões (a etiqueta à mesa dá azo a um diálogo cómico entre os mordomos de ambas as casas). E a sensação de conforto que The Gilded Age proporciona reside nesse gosto clássico das vivências, mais do que sobressaltos de intriga, concentrando-se o essencial nas flutuações emocionais das classes. Certo é que, de diálogo em diálogo, de figurino em figurino, no constante sobe e desce, chegará o momento de uma agitação mais pronunciada.

dnot@dn.pt

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