O Irlandês: a terceira idade dos gangsters de Scorsese

Sem passar pelas salas de cinema portuguesas, a mais aguardada estreia da Netflix chega nesta quarta-feira ao pequeno ecrã. O Irlandês é uma obra-prima introspetiva de Martin Scorsese, com velhos companheiros de crime.

Pelo menos uma coisa era possível antecipar em relação a O Irlandês: a poderosa química do reencontro de Robert De Niro e Joe Pesci, no que se vê como uma espécie de regresso ao universo tão marcado de Goodfellas - Tudo Bons Rapazes (1990) e Casino (1995). Ou mais ou menos isso. Se é verdade que as referências estão inevitavelmente presentes, a diferença é que o novo filme se distancia, com subtileza, da enérgica crónica americana desses gangster movies de Martin Scorsese. Ou melhor, o sentido da crónica mantém-se, e reforçado, mas há agora uma dimensão meditativa que funciona como calmante, levando-nos na corrente do tempo sem muito barulho ou agitação, o que não significa que haja menos sangue.

O título do livro de Charles Brandt em que o filme se baseia - I Heard You Paint Houses - contém logo essa metáfora do sangue derramado. Steven Zaillian, argumentista que antes colaborou com Scorsese em Gangs de Nova Iorque (2002), assina a maciça adaptação. Esta é a história verídica de Frank Sheeran (De Niro), o tal "irlandês", veterano da Segunda Guerra Mundial feito assassino da máfia ítalo-americana que, em 1975, terá estado envolvido no desaparecimento do famoso líder sindical Jimmy Hoffa (Al Pacino). Ou assim se assume, a partir da tese do livro...

Digamos que a transparência dos factos não é aqui o ponto-chave. Desejoso de voltar a fazer um filme de gangsters, noutro registo, Scorsese inspirou-se nestas personagens reais e no seu caminho para explorar a história americana à sua maneira. Mais do que isso, como disse em entrevistas, nesta altura da sua carreira interessava-lhe falar do sentimento da morte próxima; algo que ganha peso no belíssimo último ato de O Irlandês, ressoando tanto na frase pesarosa de De Niro "Não sabemos como o tempo passa depressa até chegarmos lá", como numa porta que se pede para deixar entreaberta.

Desde o primeiro plano, Scorsese faz um trabalho de mestre, entre a revisitação de um território de cinema que lhe é familiar e o assumir de um tom sereno. Veja-se como, logo na abertura, o movimento da câmara que percorre o interior de um lar da terceira idade replica esse outro célebre take único de Goodfellas, em que seguíamos atrás de Henry Hill (Ray Liotta) e a futura mulher pelos corredores que vão dar ao salão do clube Copacabana. Desta vez, a câmara detém-se sobre a figura octogenária de Sheeran/De Niro, que começa então o seu extenso relato de memórias, recuando aos tempos de condutor de camiões, quando conheceu o paternal mafioso Russell Bufalino (Joe Pesci), que o encaminhou no mundo do crime, mais tarde colocando-o na rota do popular sindicalista Hoffa, de quem Sheeran se tornou amigo, além de conselheiro e guarda-costas. Até que chegou o dia em que Hoffa se tornou um problema para a máfia... e o resto já se adivinha.

No decurso da sua imperturbável marcha temporal de três horas e meia, que anda para trás e para frente nas décadas (notável labor da montadora veterana Thelma Schoonmaker), O Irlandês imprime força e significado nos pormenores de conversas, rituais, trocas de olhares, breves cenas da vida familiar e uma quase permanente violência seca e subterrânea - com correspondência na angústia silenciosa de uma das filhas de Sheeran, que, através dos olhos expressivos, se torna a mais amarga vigilante da vida criminosa do pai. Em pano de fundo, a política vai espreitando, da eleição ao assassínio de John F. Kennedy, passando pela crise dos mísseis de Cuba, a rivalidade entre Jimmy Hoffa e Robert Kennedy e o Watergate.

As exigências de produção dos referidos saltos temporais, em que os atores são rejuvenescidos pela tecnologia de-aging, foi a primeira questão mediática à volta de O Irlandês. Na prática, Scorsese não teria feito o filme se a Netflix não tivesse investido nesse "capricho" digital (que é tudo menos capricho). E o motivo pelo qual não abdicou dele fica bastante claro nos resultados: a coesão deste épico depende do ADN dos protagonistas tal como os reconhecemos dentro do cinema de Martin Scorsese. Substituí-los por outros atores em cenas cruciais seria perder a essência carismática que torna o filme uma peça tão eloquente no corpo da sua filmografia, agora chegada a um momento de introspeção.

É, por isso, na gravitas das lendas Robert De Niro, Joe Pesci e Al Pacino (sem esquecer o pequeno mas valioso contributo de Harvey Keitel) que O Irlandês inscreve a sua singularidade de conto moral e jogo de memória cinéfila. Porém, os códigos dessa memória também existem para serem quebrados. Se Pacino, aqui a trabalhar pela primeira vez com Scorsese, põe a sua genial febre performativa ao serviço de uma personagem sem medo, Jimmy Hoffa, e De Niro faz o seu grande retorno às raízes com uma interpretação tão discreta quanto densa no conflito interior, Pesci representa talvez a mais deliciosa redescoberta, quase 25 anos depois de Casino.

No extremo oposto do carácter temperamental que o tornou famoso (como não lembrar o seu ameaçador "How am I funny?" em Goodfellas?), a personagem de Russell Bufalino tira da cartola um extraordinário velho Pesci, em pleno controlo de qualquer situação, com uma tranquilidade soberana que, não raras vezes, provoca um arrepio na espinha.

Com este ensemble dos melhores - que estão longe de ser bons rapazes -, Martin Scorsese, aos 77 anos, permitiu-se a uma robusta melancolia. O Irlandês é uma obra-prima que parte do nervo do seu próprio cinema para aprofundar um olhar sobre a vida e sobre a morte, sem rendas sentimentais. A identificar-se um ténue brilho emocional, é aquele partilhado entre o realizador e De Niro, que fica cravado no filme pelo modo como o apaziguamento toma conta de tudo. Os gangsters estão cansados, taciturnos, e o encanto está aí.


Classificação: ***** Excecional

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