O fim do mundo em oito episódios 

Chega esta sexta-feira à plataforma Filmin uma minissérie a olhar a falência do sistema económico, sem máscaras ou pandemia, mas com um caos organizado em episódios autónomos. O Colapso pode ter sido produzido antes da nova realidade, mas não deixa de refletir sobre ela em contrarrelógio.

"Nenhuma instituição, nem neste país nem em nenhum outro, está preparada para o que vai acontecer." A frase, dita no primeiro episódio de O Colapso, provoca um arrepio na espinha. Refere-se a uma iminente crise civilizacional (no caso, em França), mas podia aplicar-se sem tirar nem pôr aos dias que estamos todos a viver, mais precisamente, ao ano 2020 de uma assentada: nenhum país estava preparado para esta pandemia, e as medidas para a controlar, num jogo de equilíbrio com a economia, vão-se apertando ou aliviando conforme as oscilações da curva... Acontece que, por detrás dos gráficos e números estão pessoas e, associados a elas, comportamentos. Ora é isso que importa aqui observar.

Realizada em 2019 por um coletivo de autores intitulados Les Parasites, esta minissérie francesa em estreia na Filmin - a primeira grande aposta da plataforma numa série internacional - tem todos os ingredientes para gerar pequenas doses de pânico. Ao longo de oito episódios, cada um com cerca de 20 minutos e filmado em plano-sequência, explora-se a ideia de colapso do sistema, levado à letra em diferentes situações.

No início, tudo se passa dentro de um supermercado parisiense. E lá vem outro arrepio: na "ficção real" que experienciámos em março, qual foi o sintoma que se fez sentir nos dias em que se anunciava o primeiro confinamento? Uma corrida aos supermercados, prateleiras vazias e um cheiro a incerteza no ar. Em O Colapso, a diferença é que as prateleiras vazias não têm nenhuma perspetiva de reposição e quem se sente dominado pela incerteza não se fecha em casa, pelo contrário, tenta fugir a todo o custo.

Fuga é, de resto, a palavra de ordem num cenário contemporâneo mais ou menos abstrato quanto às origens do dito colapso. À medida que os episódios prosseguem, a debandada em contrarrelógio toma configurações cada vez mais aflitivas. Logo no segundo momento da minissérie o foco é uma bomba de gasolina que só abastece em troca de bens alimentares, gerando reações drásticas nos clientes que só podem pagar em dinheiro, desde um pai de duas crianças com os nervos em franja a um polícia de arma em punho.

Segue-se o retrato da mesquinhez de um milionário a deixar a sua vivenda para se dirigir ao aeródromo onde um avião privado o espera, no cumprimento de um plano de evacuação em caso de "estado de emergência" nacional. Depois é a vez de analisar o que acontece numa propriedade agrícola que acolhe um grupo de foragidos, ao mesmo tempo que se instala um clima de desconfiança em relação às medidas implementadas à chegada. Passa-se ainda por uma central nuclear em perigo de explosão, um lar gerido por um único funcionário, que se dedica à sobrevivência dos poucos idosos que lá residem, um veleiro em alto-mar com comunicações intermitentes e, por fim, uma emissão televisiva. Escusado será dizer que estamos familiarizados com muito do vocabulário dos episódios...

Para além dessas óbvias semelhanças com um certo estado das coisas - levado ao extremo, claro - a maior originalidade formal desta série é o facto de cada capítulo funcionar segundo a lógica de uma curta-metragem. Ou seja, ainda que faça parte da mesma circunstância global, cada visão-limite tem a sua própria estrutura breve, sem depender de uma narrativa em formato rígido de continuidade. Um pouco na linha da badalada série britânica Black Mirror, também com episódios autónomos e um olhar sobre a sociedade moderna.

Daí que a energia concentrada de O Colapso faça valer cada minuto como um estudo do comportamento humano perante o alarme mental do "salve-se quem puder". De que maneira se responde ao caos e à necessidade absoluta de sobrevivência? A pergunta é velha, mas a abordagem tem qualquer coisa de refrescante e definitivamente atual. A ficção continua a tentar levar a melhor sobre a realidade, e por enquanto ainda consegue.

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