"O D. Maria II tem de ser um teatro da memória mas também de futuro"

Presidente do conselho de administração do Teatro Nacional D. Maria II desde 2016, Cláudia Belchior falou ao DN dos 175 anos da instituição, no dia 13, do desafio da pandemia, da reabertura ao público, da sua primeira ida ao teatro e de um futuro "com confiança".

O Teatro Nacional D. Maria II celebra 175 anos no dia 13 - ainda com restrições por causa da pandemia e à espera do regresso do público no dia 19. Como é que lidaram com estes meses de covid?
No primeiro fecho, no ano passado, ficámos muito desorientados. Foi um choque, soubemos praticamente de um dia para o outro que tínhamos de fechar. Num teatro em que temos montagens a decorrer nos vários palcos, ter de ir a uma sala dizer a uma equipa que trabalhou durante meses num palco que vamos ter de fechar não é fácil. Até porque no teatro há uma cultura de the show must go on, não podemos parar. Mesmo quando há peripécias durante os espetáculos, a ideia é sempre não parar. Portanto, o teatro fechar foi uma coisa inédita para todos nós. Foi um grande susto, uma grande perplexidade, ficámos sem saber o que íamos fazer. Depois tivemos de nos adaptar. No segundo fecho, já estávamos mais bem preparados. Já tínhamos tido a lição do primeiro. Também em termos legislativos estávamos mais bem preparados. Sabíamos que sairia algo para podermos pagar aos artistas e companhias, que foi uma coisa que na primeira fase nos preocupava muito.

Nesse momento a incerteza era completa?
Sim. Dois ou três dias antes de fecharmos da primeira vez, nós instituições culturais públicas e do Estado tivemos uma reunião com a senhora ministra e com os secretários de Estado e foi-nos feita a promessa de que iam tentar aprovar um pacote legislativo que nos permitisse cumprir os compromissos. Isso foi bom. Na segunda fase estávamos mais bem preparados, mas houve ali uma angústia por causa da dúvida sobre se podíamos ou não continuar a trabalhar, mesmo com o teatro fechado. Assim que soubemos que sim, no fundo continuámos com os trabalhos - à porta fechada, claro, e de uma forma mais difícil. Só podiam estar presentes as pessoas estritamente necessárias, testávamos as equipas de semana a semana. As companhias ensaiavam, montavam, filmávamos o espetáculo, colocávamos online, depois a companhia saía e entrava outra. Para os artistas devia ser uma coisa horrível. Fazer teatro sem público é estranhíssimo. Além disso tivemos de aprender a filmar teatro num teatro, que não é a mesma coisa que filmar teatro num estúdio. Foi preciso mover mais técnicos e recursos financeiros para áreas que não são as nossas - câmaras, edição, realização, montagem. Foi uma aventura e ainda estamos a meio gás. Todos os que podem fazer o seu trabalho a partir de casa estão em teletrabalho. A sensação é um bocadinho desoladora.

Mas essa nova forma de trabalhar também trouxe algumas vantagens, por exemplo ao levar o teatro a um público fora de Lisboa?
Há lições que podemos tirar. E há práticas que ganhámos e que vamos manter. A primeira é a acessibilidade. Pelos dados que temos, há muitas pessoas, até fora de Portugal, que veem as nossas peças. Isso é incrível, porque conseguimos ir para além das fronteiras. Depois há muita gente de fora de Lisboa que tem acesso às peças. E temos recebido cartas de pessoas que, mesmo que o teatro estivesse aberto, não vinham - ou porque têm dificuldades de locomoção ou porque vivem sozinhas - e passaram a ter acesso. Essas são as coisas boas desta loucura. E vamos continuar este trabalho. Não com a mesma intensidade, mas é uma aposta para continuar.

Sentiu falta de mais apoios à cultura nesta pandemia? As salas de espetáculo foram das primeiras a fechar e são das últimas a abrir...
Quando fechámos, sentimos que vir ao teatro era um exercício muito seguro. As pessoas mediam a temperatura, seguiam uma série de regras. Este teatro tem 90 pessoas permanentes mas há alturas em que, com as diversas companhias, tem 200 ou 300 pessoas. Sabendo nós que estávamos a testar as pessoas, que tínhamos um cuidado extremo nas nossas práticas de desinfeção, de ensaios, de montagem, com uma aposta enorme de meios para tornarmos esta casa segura, vi com muita perplexidade o fecho dos teatros. Acho que a fruição da cultura, com pessoas e para pessoas, faz muita falta à nossa cabeça. Mas logo a seguir começaram a surgir aqueles números muito preocupantes e aí, não sei dizer tecnicamente, mas fechar pareceu-me a solução adequada. Eu própria já tinha uma enorme ânsia de perceber se as pessoas que vinham até cá estavam seguras. Portanto acho que se calhar fechámos cedo de mais mas percebo que depois os números chegaram a um ponto em que já não havia grande opção. Agora, acho que já devíamos ter aberto.

Nesse intervalo entre o primeiro e o segundo confinamento, houve uma grande ânsia das pessoas de virem ao teatro...
Absolutamente. Os nossos espetáculos praticamente esgotaram todos, embora com salas mais reduzidas. Muitas pessoas telefonavam a perguntar o que vinha a seguir. Nós não parámos. O que aconteceu em quase todos no país, pelo menos nos teatros públicos, foi que para não cancelarmos os espetáculos, adiámos e reprogramámos. Portanto estávamos, e ainda estamos, com uma programação intensíssima. Pelo menos em Lisboa e Porto, as pessoas do teatro são quase todas da mesma geração e conhecemo-nos há muitos anos. Temos um encontro informal de 15 em 15 dias por Zoom em que falamos das nossas preocupações. Houve uma altura em que olhámos uns para os outros e pensámos: "Nós não vamos ter público." Porque estávamos todos a fazer espetáculos. Mas enchemos. Todos nós. As pessoas querem muito vir. A prática de entrar num teatro é um exercício social, civilizacional. Eu vou muitas vezes sozinha ver espetáculos e é tão bom sentir que há ali outras pessoas que estão como eu. Não me sinto só.

"As pessoas querem muito vir. A prática de entrar num teatro é um exercício social, civilizacional. Eu vou muitas vezes sozinha ver espetáculos e é tão bom sentir que há ali outras pessoas que estão como eu. Não me sinto só."

Antes do regresso físico do público a 19, no dia 13 as celebrações dos 175 anos ainda serão online.
Não havia outra opção. Vamos ter de estar fechados, mas vamos tentar abrir o mais possível em termos de plataformas. Fizemos uma parceria com a RTP Palco e durante uma semana - de 13 a 18 - esta vai ter uma programação à volta do Teatro Nacional. Vamos mostrar algumas das peças emblemáticas mas também coisas mais recentes, como Última Hora, que teve um enorme sucesso, ou A Origem das Espécies. Eles vão também mostrar o arquivo da memória das pessoas que passaram por aqui: atores, escritores, etc. Vamos ter uma sessão especial no dia 13 do Clube dos Poetas Vivos, uma rubrica que temos e que foi um sucesso online, como já era aqui no teatro fisicamente. Será à volta de poetas portugueses que trabalharam textos aqui no teatro. Vamos fazer uma programação online, que é a possível. Mas não queremos deixar de assinalar estes 175 anos.

Na inauguração em 1846 foi apresentado no Teatro Nacional D. Maria II o drama histórico O Magriço e os Doze de Inglaterra. Agora a reabertura ao público vai fazer-se com Catarina e a Beleza de Matar Fascistas. Porquê esta escolha?
Na realidade, a peça já estava programada há um ano. Era para estar em palco do início de abril até ao dia 25. É uma peça que está a rodar muito internacionalmente e já estava prevista, não foi escolhida agora. O que vamos ter agora é menos récitas. Já tínhamos todas as sessões completamente esgotadas. Vai ser uma grande chatice. Vamos fazer uma ou duas récitas a mais mas vamos ter de devolver bilhetes a muitas pessoas.

Foi o empenho em contar a memória, deste teatro inaugurado em 1846 pelos 27 anos da rainha D. Maria II, que esteve na origem da rubrica Correntes de Transmissão - que põe à conversa duas figuras ligadas às suas várias áreas?
Pensámos em duas coisas. A primeira é que a memória não é uma coisa morta. No teatro, a memória é fundamental porque o espetáculo e todas as profissões subjacentes a fazer um espetáculo - estou a pensar em guarda-roupa, adereços, figurinos, cenografia - são coisas efémeras. Nós temos pouca memória: ou a registamos ou vai-se perder. Por outro lado, nós queremos muito ser o teatro do futuro. E acho que nestes últimos anos temos tentado, de forma muito consistente, abrir novas oportunidades: mais atores, mais jovens, mais técnicos jovens que vêm estagiar ou trabalhar connosco. No fundo procuramos confrontar o que era a prática de há uns anos com o que é agora. E o que é que cada um aprende com o outro. As conversas são deliciosas. Muitas delas com pessoas que os espectadores nem sabem que trabalham aqui, não sabem o que faz um maquinista, o que é um diretor técnico, etc.

Como é que se planeia o futuro em plena pandemia?
Com confiança. Temos objetivos e temos de os cumprir. Por um lado, a programação, que está desenhada e apresentada. Por outro, quando entrámos em 2015 fizemos um grande trabalho em termos do que gostávamos que o teatro fosse. No segundo triénio apostámos muito na questão do território nacional e da internacionalização. Agora, chegámos a um ponto em que precisamos de olhar para outras coisas. Precisamos de ir muito mais longe no território nacional do que fomos até agora. Precisamos mesmo de ser um Teatro Nacional no país. E isso, sim, está dependente da pandemia e da sua evolução. Mas há outras coisas que não estão. Precisamos de ser um teatro mais verde. É uma das áreas em que estou muito empenhada. Temos de pensar no que podemos mudar nas nossas práticas diárias, tentar criar um manual de boas práticas sobre como ser mais sustentáveis. Outra área é ir ainda mais longe no trabalho de inclusão que estamos a fazer. Queremos ter mais pessoas a trabalhar connosco sem olhar, por exemplo, à deficiência como sendo um handicap. Começámos por fazer isso já nas áreas artísticas.

Em Portugal ainda se olha para o teatro como uma coisa de elites?
Cada vez menos. Quando nós entrámos, olhámos para o logótipo do teatro - um telhado com as colunas - e fizemos um estudo informal junto das pessoas perguntando o que era. E as pessoas achavam que era a Assembleia da República. Havia pessoas que não entravam no teatro porque tinham medo. Medo até dos veludos. O nosso trabalho tem sido mostrar que este é um teatro para todos. E não estamos isolados nisso, todos os teatros têm feito um trabalho importantíssimo nessa área. E acho que hoje as pessoas não têm quaisquer peneiras em entrar num teatro. Embora tenhamos percebido que este teatro tinha esse estigma. Intimidava. E temos feito um trabalho com os nossos vizinhos, com as pessoas que moram aqui - e infelizmente são cada vez menos. Havia pessoas que moravam aqui há 50 ou 60 anos e nunca aqui tinham entrado. Convidámo-las a entrar. Ficaram deslumbradas. Perceberam que não era caro. Somos um teatro público e os bilhetes são acessíveis.

"Este teatro tinha esse estigma. Intimidava. (...) Havia pessoas que moravam aqui há 50 ou 60 anos e nunca aqui tinham entrado. Convidámo-las a entrar. Ficaram deslumbradas."

Lembra-se da primeira vez que foi ao teatro?
Eu sou aqui de Lisboa, a primeira vez que fui ao teatro foi a minha mãe - ou a minha avó, já não sei - que me levou a umas sessões infantis que havia no Parque Mayer. Depois fui ao Teatro Monumental, onde também havia peças infantis. E depois, de facto, durante muito tempo não fui. Estou a falar dos anos 1980. Se calhar tinha outros interesses. Eu era uma jovem e achava que o teatro que se fazia na altura era uma coisa mais fechada, de autor. Achava que não chegava lá. O teatro não era muito simpático nesse aspeto. Mas logo no início dos anos 1990 comecei a consumir teatro e música e dança.

E agora está no D. Maria II...
Sim, eu ainda por cima sou de História e trabalhei em arqueologia. Tive a sorte de ter construído a minha carreira nas áreas das instituições culturais. Trabalhei em produção, em direção de cena, na área técnica, na área financeira. Isso dá-me uma visão abrangente. E por outro lado é-me muito fácil perceber os problemas das pessoas. Acho que há esse reconhecimento de parte a parte. Esta equipa é extraordinária. Tenho uma política de porta aberta, funcionamos como equipa. Há alguma informalidade no trato, com grande respeito, como é óbvio. É uma equipa de teatro, opinativa, cheia de ideias, que não tem medo de dizer o que acha. Portanto tudo e negociado. Mas é muito enriquecedor.

Estes 175 anos de história têm um peso diferente, por exemplo, de outras instituições onde a Cláudia já trabalhou, como o CCB?
Os 175 anos pesam no sentido em que esta é das poucas casas de criação - neste momento somos só nós e o Teatro São João. Há 175 anos, Almeida Garrett, quando este teatro foi fundado, já falava da importância de haver dramaturgia portuguesa. Há esse peso de fazermos dramaturgia portuguesa, de apoiarmos autores e criativos, de não deixarmos de ser um teatro de criação. E é muito fácil deixar de o ser porque dá muito trabalho, mas não só: é preciso um saber. Hoje em dia onde há uma mestra de guarda-roupa que saiba fazer corte? Que saiba fazer moldes? Há imensas profissões aqui que persistem e têm de persistir. Por outro lado, temos um arquivo-biblioteca extraordinário. Com uma equipa com enorme dedicação a esse lado de preservar a memória. Há esse peso, mas é um peso bom. É preciso não esquecer a nossa missão. E essa, hoje em dia, a que está nos nossos estatutos e que tem 20 anos, não é muito diferente daquela que Almeida Garrett defendia. Temos de ser um teatro da memória, mas também um teatro de futuro.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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