O cante, a viola campaniça e um copo de vinho: Pedro Mestre traz o Alentejo a Lisboa

O músico apresenta o seu segundo álbum a solo, "Mercado dos Amores", num concerto no Tivoli BBVA na terça-feira dia 29 de outubro.

"O cante e a viola campaniça tinham o seu grande palco nas feiras do Alentejo. E eu faço uma homenagem às ditas." É assim que Pedro Mestre apresenta o seu segundo álbum a solo, Mercado dos Amores. Um trabalho que o músico vai apresentar num concerto a 29 de outubro, no teatro Tivoli BBVA, em Lisboa.

"O disco é uma compilação de uma série de músicas que acabam por retratar o Alentejo em tudo aquilo que possa existir no dia-a-dia de um alentejano numa localidade do Alentejo. Fala da vida, da natureza e fala daquilo que temos de mais belo: que são os amores. Os vários amores. O amor à terra, à arte, à vida, à família. E aí envolve o cante, a viola campaniça, o improviso, o cante coral e por aí fora. Daí o Mercado dos Amores", explica Pedro ao DN, numa conversa a correr durante uma vinda a Lisboa e entre uma ida e outra à televisão.

Para além da sua campaniça, o músico vai ter a companhia em palco de vários convidados. "Vou trazer uma série de convidados, pessoas que gostam de cantar, que gostam do Alentejo, vozes de que eu gosto. Como a Celina da Piedade, o FF, os instrumentistas Hugo Osga e Paulo Marinho, o violeiro Chico Lobo, que vem do Brasil com a viola caipira, o Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento ou o Grupo Coral da Casa do Povo de Reguengos de Monsaraz"

O disco Fala da vida, da natureza e fala daquilo que temos de mais belo: que são os amores. Os vários amores. O amor à terra, à arte, à vida, à família. E aí envolve o cante, a viola campaniça, o improviso, o cante coral e por aí fora. Daí o Mercado dos Amores"

E alguns desses convidados vão trazer instrumentos que nunca nos lembraríamos de associar ao Alentejo e ao cante. "Sim, o Hugo Osga traz o didgeeridoo [um instrumento de sopro do povo aborígene da Austrália] e o Paulo Marinho a gaita-de-foles - que são instrumentos que no Alentejo nunca se usaram. Mas no meu entender, a sonoridade de ambos encaixam perfeitamente", garante Pedro Mestre.

O próprio Pedro Mestre promete algumas surpresas, entre as quais uma demonstração de cante de improviso - "uma realidade que está em extinção". Mas para aguçar o apetite para o concerto propriamente dito e para quem quiser mergulhar no espírito alentejano, poderá ver a exposição sobre cante patente no Tivoli. "Uma parte muito interessante desta noite é uma exposição sobre o cante que tem uma degustação de vinhos e queijos do Alentejo. Porque o cante sem vinho não é cante", explica o músico.

"O Alentejo renegava o seu cantar. Achava que era uma coisa depreciativa - para velhos e para bêbados"

Um dos grandes impulsionadores da candidatura do cante a Património Imaterial da Humanidade, quase cinco anos depois do reconhecimento pela UNESCO, Pedro Mestre admite que muito mudou. Sobretudo na forma como as pessoas encaram esta forma de arte. "Há mais respeito. Acho que as pessoas pararam para ouvir. Antes não ouviam, não ligavam. desprezavam completamente". Mesmo os próprios alentejanos? "Sim. O Alentejo renegava o seu cantar. Achava que era uma coisa depreciativa - para velhos e para bêbados". Palavras duras, que o músico explica: "A partir dos anos 90, as pessoas achavam que cantar era uma coisa ultrapassada. E que quando alguém cantava na taberna, era porque estava embriagado. Perdeu-se aquela sensibilidade, o sentido de convívio e confraternização e coloca-se esse rótulo". Um exagero? Claro: "Para cantar, basta beber um copo. O Alentejo gosta muito de se divertir e era uma forma de ultrapassar as amarguras da vida".

De ouvir o avô cantar na taberna ao projeto cante nas escolas

O próprio Pedro apaixonou-se pelo cante um pouco graças às idas à taberna. Nascido em Beja há 35 anos, mas criado na aldeia da Sete - "com uns 400 habitantes", foi ali que fez a primária e onde começou a contactar com a música tradicional alentejana. "Lá em casa havia um rádio, uma telefonia, que tocava música local sempre. Há uma altura em que aparece um programa de música da tradição chamado Património, que ainda existe! Os ouvintes ligam e dizem o que querem: cantam, dizem poesia, adivinhas, cumprimentam as pessoas. Eu adorava ouvir aquilo!", contou em conversa com o DN em finais de março, pouco antes do lançamento do álbum Mercado dos Amores.

O avô tinha uns tios solteiro que iam para a taberna e voltavam de lá a cantar, já tarde. A avó estava chateada, com a mesa posta à espera. Mas a discussão acabava sempre em cantoria. "Eu gostava de ouvir os mais velhos. A música fascinava-me! Saía à rua, se ouvisse cantar na taberna ia para lá. Mas ia mesmo, com oito, nove anos. Às vezes, a minha mãe mandava-me ir buscar o meu avô para ir jantar. Mas se eles estivessem a cantar, o meu avô punha-me no colo dele e acabou!", explicava Pedro Mestre.

Às vezes, a minha mãe mandava-me ir buscar o meu avô [à taberna] para ir jantar. Mas se eles estivessem a cantar, o meu avô punha-me no colo dele e acabou!"

Mas o momento de viragem só se deu quando foi estudar para Castro Verde, onde hoje vive. Tinha nove anos e descobriu que alguns colegas andavam num grupo coral infantil chamado Os Carapinhas, que ainda existe. Aos 9, 10 anos começou a cantar no grupo, aos 11, 12 passou a tocar viola campaniça. O instrumento não lhe era estranho, já o ouvia na tal telefonia lá de casa. Mas teve a sorte de aprender com os mestres: Manuel Bento e Francisco António. "Eu já ouvia a viola e pensava: este som é tão bonito! Identificava-me com ele. Eles diziam que, se tivessem alguém que quisesse aprender, eles ensinavam. Mas ninguém queria. Eu levantei o dedo: "Eu quero aprender"", recordou.

Os anos passaram e a música tomou conta da vida de Pedro Mestre. Aos 16 anos criou um grupo coral na aldeia dele, rapidamente passou a ser chamado para ensaiar outros, começou a fazer recolhas e gravações dos mais velhos, a fazer um acervo de informação. E foi a junção do cante com a viola, garante, que trouxe a juventude para a música tradicional alentejana.

De tal forma que parte do plano de salvaguarda do cante à UNESCO - é o projeto dele de ensino nas escolas. O projeto começou há 13 anos, foi nessa altura que Pedro Mestre decidiu levar o cante às escolas. O objetivo não é formar cantadores, mas "sensibilizar as crianças para esta realidade. Falar de memórias, do que foi a sua terra no passado".Uma forma de manter viva essa tradição que agora traz até Lisboa e ao palco do Tivoli.

Pedro Mestre e Convidados
Tivoli BBVA, Lisboa
29 de outubro
21:30
Bilhetes na Ticketline ou na bilheteira do Tivoli

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