O adorável porquinho Babe faz 25 anos 

Sucesso de bilheteira e de crítica, Um Porquinho Chamado Babe tornou-se um clássico. Foi inovador nas técnicas à volta de "animais falantes" e o seu grande coração continua a tocar pais e filhos.

É um dos filmes de família mais amados e com um protagonista de quatro patas que não ladra nem mia, mas fala. Um Porquinho Chamado Babe estreou-se há 25 anos, a 4 de agosto de 1995, e fez do suposto menos nobre dos animais um herói intemporal. Órfão e desamparado, o destino do leitão Babe cruza-se com o de um lacónico fazendeiro que o leva para a quinta onde vai conhecer outros animais, ora enternecidos ora intrigados perante a delicadeza e a inocência de um futuro... porco pastor de ovelhas.

Não será por acaso que tal adaptação do romance infantil de Dick King-Smith consta na lista dos "100 Filmes Mais Inspiradores de Todos os Tempos" do American Film Institute: depois dela nunca mais se olhou para os suínos da mesma maneira.

O fenómeno em que se tornou esta (grande) produção de George Miller, com assinatura de Chris Noonan, não era esperado. Miller, que já tinha fixado estatuto com a trilogia Mad Max, foi quem vislumbrou no livro de King-Smith um filme com potencial de público, sem nunca colocar o cinema de animação como hipótese viável, já que, na sua interpretação da história, as personagens animais eram demasiado realistas para ficarem cingidas ao universo infantojuvenil. E esse golpe de vista inicial foi decisivo para o que veio a ser Um Porquinho Chamado Babe; a saber, uma excelente proposta "para toda a família", com semelhante interesse entre miúdos e graúdos.

Posta a animação de parte, o projeto demorou sete anos a desenvolver-se, contando com o treino de mais de 900 animais de quinta, dos quais foram selecionados 500, numa produção que exigia a troca periódica do protagonista, devido ao crescimento rápido dos leitões... A isto juntou-se a complexidade das técnicas associadas à magia dos "animais falantes", no caso, a animatrónica (bonecos controlados por computador) e a fotografia digital, esta última um importante avanço tecnológico que permitiu a criação de expressões humanas nos animais. De resto, entre bichos treinados e réplicas, este foi um meticuloso trabalho de efeitos visuais, que não só levou Miller a pedir aconselhamento a Stanley Kubrick - o qual se mostrou bastante interessado no projeto - como culminou num Óscar arrebatado a Apollo 13, o seu concorrente mais sério nessa categoria.

Com efeito, para além da referida vitória, Um Porquinho Chamado Babe surpreendeu ainda pelas suas sete nomeações para os Óscares, incluindo nas categorias de melhor filme, realizador e ator. Escusado será dizer que James Cromwell, no papel do fazendeiro Arthur Hoggett, é de uma simplicidade brilhante: o modo como interage com Babe, usando pouco da palavra e muito do olhar e da postura, revela um homem inserido nos gestos rurais mas com uma sensibilidade a anos-luz da definição de "rústico". Depois de fazer o filme, Cromwell tornou-se mesmo vegetariano ético, de tal forma a experiência da rodagem o fez refletir sobre a sua relação com os animais - desde então tem sido voz ativa nas causas de proteção animal.

E não foi apenas o ator. A clara mensagem do filme, que mostra um leitão adorável a vingar no ambiente agreste de uma quinta com atitude polida e prova de sentimentos, não deixou ninguém indiferente. Isso e o facto de logo do princípio se assistir à separação de Babe da sua mãe, mandada para o matadouro (que se pensa ser o "paraíso de onde os porcos não querem voltar"), ou a conversas sobre os animais transformados em repasto dos humanos, sobretudo na época natalícia... Pois bem, o chamado "the Babe effect" traduziu-se numa correspondência quase direta entre a popularidade da película e um aumento dos hábitos de vegetarianismo, que na altura levaram a uma quebra notória na venda de carne de porco nos Estados Unidos.

Comportamentos alimentares à parte, revendo hoje Um Porquinho Chamado Babe (está disponível, por exemplo, na Netflix) fica claro o motivo do seu sucesso. A visão de George Miller e o perfeccionismo de Chris Noonan espelham-se numa narrativa depurada, tocante e visualmente admirável. Nem por um segundo somos distraídos por aquilo que agora poderia ser o ruído dos "efeitos especiais da época". Pelo contrário, não se sabe onde começa a magia e acaba a realidade, tal é a harmonia do triunfo deste porco nascido de modestas expectativas.

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