Nobel da Literatura: poeta grande na América, Louise Glück é ainda maior na Suécia

O nome anunciado pelo Comité Nobel é sempre uma surpresa. Na edição deste ano foi a poeta norte-americana Louise Glück. Um nome inesperado, mas muito conhecido na Suécia, país onde neste ano recebera já o Prémio Tranströmer, o poeta sueco nobelizado em 2011.

Depois dos escândalos que atingiram a Academia Sueca, o novo júri do Nobel da Literatura prometeu mudanças e olhar para os escritores fora da Europa. No ano passado não cumpriu e escolheu a polaca Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke. Desta vez, é Louise Glück, norte-americana, de 77 anos.

A Academia Sueca justificou a escolha por Louise Glück ser "uma das mais proeminentes poetas da literatura contemporânea americana".

Louise Glück iniciou a sua carreira literária em 1968 como o volume Firstborn. Seguiram-se doze livros de poesia e alguns ensaios sobre poesia.

Em Portugal, não existem traduções da sua obra.

A poeta é bem conhecida na Suécia, onde recebeu neste ano o Prémio Tranströmer (Tomas Tranströmer é o poeta sueco nobelizado em 2011) por "uma poesia que com exatidão e negrura faz ressoar o pessoal desde um fundo mitológico e histórico". Muitos dos temas e das influências pessoais de Tranströmer estão presentes na obra e na vida de ambos.

Em 2015, a poeta Louise Glück recebeu do presidente Barack Obama a Medalha Nacional de Artes e Humanidades pela sua obra. Um galardão que o atual presidente Trump interrompeu e só voltou a conceder no ano passado. Recebeu em 2008 o Prémio Wallace Stevens pela distinção em arte e poesia e o prestigiado Prémio Bollingen.

Louise Glück foi eleita em 1999 chanceler da Academia dos Poetas Americanos, em 2003 nomeada poeta da Biblioteca do Congresso como consultora de poesia.

Um poema de Louise Glück

April


No one"s despair is like my despair-

You have no place in this garden
thinking such things, producing
the tiresome outward signs; the man
pointedly weeding an entire forest,
the woman limping, refusing to change clothes
or wash her hair.

Do you suppose I care
if you speak to one another?
But I mean you to know
I expected better of two creatures
who were given minds: if not
that you would actually care for each other
at least that you would understand
grief is distributed
between you, among all your kind, for me
to know you, as deep blue
marks the wild scilla, white
the wood violet.

(ler outros poemas nesta página)

A biografia da poeta reconhecida com o Nobel da Literatura de 2020 confirma a sua importância nas letras americanas. Nascida em 1943 em Nova Iorque, a poeta cresceu em Long Island, tendo sido professora na Universidade de Columbia e no Sarah Lawrende College. Segundo a sua biografia no site da Poetry Foundation, Louise Glück é considerada "uma das mais talentosas poetas da contemporaneidade".

Entre as suas principais características, acrescenta-se, está a precisão técnica, a sensibilidade, uma introspeção solitária, bem como um olhar penetrante para a família, as relações familiares, o divórcio e a morte.

A poeta foi também muito influenciada pela psicanálise, além das influências da mitologia clássica e de parábolas. Entre as suas principais influências, confessa, estão os académicos Léonie Adams e Stanley Kunitz, bem como autores como Robert Lowell, Rainer Maria Rilke e Emily Dickinson.

Em 2012, na revista The New Yorker, Dan Chiasson escrevia a propósito de Poems 1962-2012:: "Um grande livro de uma poeta que valoriza, acima de tudo, a precisão do seu discurso. Cinquenta anos de excisões, recusas, correções, ao longo de uma obra. Nada disto interessaria se Glück não estivesse entre os principais poetas da nossa época, mesmo quando foge às regras."

A natureza é outra das temáticas da poeta e com bastante presença na obra, segundo os especialistas. O melhor exemplo é o livro The Wild Iris, em que os poemas são inspirados pelas flores de um jardim. Mesmo que no volume The House on Marshland esteja implícita uma releitura da tradição romântica da natureza.

Entre os seus interesses está também a cultura grega clássica e romana, temas que no início da carreira da poeta eram preteridos pela análise das questões familiares, como os amores falhados e os desencontros entre familiares, que se mantiveram como objeto da sua poesia.

Louise Glück publicou vários livros, como o de 2014, Faithful and Virtuous Night, premiado com National Book Award. Dois anos antes, lançara Poems 1962-2012, que recebeu o Los Angeles Times Book Prize. Dois entre os muitos prémios que a sua obra tem merecido.

Segundo o poeta Robert Hass, Louise Glück é "uma das vozes mais puras e completas que escrevem poesia atualmente". Destaca o seu primeiro trabalho, Firstborn, como um exemplo do controle da técnica.

Também Helen Vendler considerou a poeta dona de uma mestria que cria "narrativas críticas que convidam à participação, substituindo os leitores por personagens ficcionadas".

Obras publicadas de Louise Glück

Firstborn (The New American Library, 1968)

The House on Marshland (The Ecco Press, 1975)

Descending Figure (The Ecco Press, 1980)

The Triumph of Achilles (The Ecco Press, 1985)

Ararat (The Ecco Press, 1990)

The Wild Iris (The Ecco Press, 1992)

The First Four Books of Poems (The Ecco Press, 1995)

Meadowlands (The Ecco Press, 1997)

Vita Nova (The Ecco Press, 1999)

The Seven Ages (The Ecco Press, 2001)

Averno (Farrar, Strauss and Giroux, 2006)

A Village Life (Farrar, Strauss and Giroux, 2009)

Poems: 1962-2012 (Farrar, Strauss and Giroux, 2012)

Faithful and Virtuous Night (Farrar, Strauss and Giroux, 2014)

Nobel da paz conhecido sexta-feira

Nesta semana, foram já conhecidos os vencedores do Nobel da Medicina (Harvey J. Alter, Michael Houghton e Charles M. Rice) e da Física (Roger Penrose, Reinhard Genzel e Andrea Ghez).

Falta ainda divulgar os premiados da Paz (sexta-feira, dia 9, às 10.00) e da Economia (segunda-feira, dia 12, às 10.45).

Os prémios serão entregues a 10 de dezembro. Por causa do novo coronavírus, a cerimónia será quase inteiramente online, à exceção de uma reduzida plateia que estará no edifício da Câmara de Estocolmo, na Suécia.

"A ideia é que as medalhas e os diplomas sejam entregues aos laureados em segurança nos respetivos países de residência, muito provavelmente com a ajuda das embaixadas e das universidades dos laureados", explicou a Fundação Nobel.

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