"Não sei se vou continuar a fazer teatro nos próximos tempos. Não quero perder o prazer de estar em cena"

Com duas peças em cena em simultâneo, como ator e como diretor artístico, Albano Jerónimo prepara-se para fazer uma pausa do teatro. Segue-se mais séries em canais de streaming, que vão chegar a uma audiência global.

Por estes dias podemos assistir, no palco do Teatro Nacional D. Maria II, à peça Orlando, um texto de Cláudia Lucas Shéu numa adaptação do original de Virgínia Woolf (1882-1941), com direção de Albano Jerónimo. Ao mesmo tempo e nos mesmos dias, o também ator está em palco na Culturgest com a peça Orgia, de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), onde contracena com Beatriz Batarda. Coincidência ou não, esta pluriatividade no teatro vai levá-lo a uma pausa. Diz que não quer perder o prazer de estar em palco.

Mas isso não quer dizer uma pausa na carreira, pelo contrário, vai dar lugar, pelo menos momentaneamente, a mais séries internacionais em canais de streaming e mais filmes. Em conversa com o DN, Albano Jerónimo conta as novidades que aí vêm na Netflix, HBO e Amazon Prime.

Por que razão esta peça, Orlando, tem temporadas tão curtas? Foi assim em Lisboa e em Guimarães. Tem a ver com a falta de agenda dos teatros por causa da pandemia?

Na verdade, essa questão deve ser colocada aos programadores. No que toca a atores, encenadores, gostaríamos de ficar muito mais tempo. Esta situação já era assim antes da pandemia. Não sei se o intuito é programar mais num curto espaço de tempo. Mas é contraproducente, não só pelo tempo investido, pois trabalhamos vários meses e depois estamos apenas uns dias em palco, e também não é rentável a nível financeiro. Nós, enquanto estrutura independente, com o TeatroNacional21, rentabilizamos as nossas peças com a venda de bilhetes em digressões, mas lamentamos que sejam carreiras sempre muito curtas.

Estrearam a peça em Guimarães e depois ainda foram a Famalicão e só agora chegam a Lisboa. É uma opção começar fora das grandes cidades?

Faz parte do ADN da nossa companhia estrear sempre fora das grandes cidades. Tem a ver com a descentralização cultural e com a vontade, a nível artístico, de experimentar espetáculos fora, porque os públicos são diferentes, e só depois trazer a Lisboa, Porto, Coimbra, Braga. Outra coisa que faz parte do ADN da nossa companhia é que temos sempre atividades paralelas ao espetáculo em cena. Dividimo-nos em workshops, em master classes, em idas a escolas, fazemos documentários. Acreditamos que o nosso trabalho não termina no palco. A nossa atividade tem a ver com a fomentação de novos públicos.

E como tem corrido as "minitemporadas" de uma peça que é muito característica pelas questões que levanta?

É sempre uma aprendizagem. Fizemos um vox pop em vários locais, uma pequena amostra de tecido social para falarmos de questões que estão paralelas ao texto de Orlando, das questões de género, do que é um transexual. E percebemos que a maioria das vezes o racismo, a violência, prendem-se com o desconhecimento. Claro que tem a ver com algo educacional, do que é passado em várias gerações e do local onde se vive. Mas enquanto TeatroNacional 21 acreditamos que através do conhecimento e da arte conseguimos esbater esses guetos sociais e chegar às pessoas de outra forma. Conhecemos pessoas com 50 anos que nunca tinham entrado numa sala de teatro. Alunos de teatro que aos 26 anos não sabem quem foi Virgínia Woolf ou Martin Luther King. Ou seja, desde a fundação da nossa companhia que queremos chegar a essas margens e, sempre que pudermos, editar novos dramaturgos portugueses. Estamos a cuidar do futuro e a deixar um legado.

Não seria mais fácil encenar só a peça Orlando, ao invés de adaptarem uma versão e escrever um texto novo?

Sim, seria mais cómodo. Como seria mais cómodo também ter um espaço em Lisboa e não irmos em digressão pelo país. Mas o nosso objetivo é chegar a mais pessoas de formas diferentes e variadas. E também faz parte da minha forma de estar na vida, pois, como venho de um meio muito pobre e sempre fui habituado a lutar muito por aquilo que quero, isso impregnou-se na minha forma de estar e de ver o mundo, ou seja, aquilo que faço tem de ter uma pertinência e chegar a mais pessoas, senão fica aquém. Mesmo reinventando-nos nas formas e nos escassos orçamentos que temos, ou até metendo dinheiro do próprio bolso para levar à cena um espetáculo. Por ser pai, tenho a consciência de que temos de deixar algo para as gerações futuras. Através da cultura e da educação pela arte é a melhor forma de chegar às pessoas.

Orlando, de Virginia Woolf, é um texto conhecido. O que quiseram acrescentar na "versão" da Cláudia Lucas Shéu?

A questão também nos foi colocada com este texto. Fizemos o paralelismo do maior massacre LGBT que decorreu na cidade de Orlando, EUA, em 2016, e pegámos nas questões de género que a própria Virginia Woolf já tinha levantado e ampliámos para fazer um tratado sobre a dignidade humana. A escolha do elenco foi fundamental para o que se vê em cena, e tem a ver com o lugar que queremos dar a uma comunidade que está sufocada, atada, presa e incompreendida a maior parte das vezes. Este espetáculo, em concreto, tem um prólogo e três atos. O prólogo contextualiza o espectador, o primeiro ato vai beber diretamente à obra de Virginia Woolf e nos seguintes há uma desconstrução para abordar os temas das questões de género e feridas pessoais.

Depois de ver a peça, o que gostariam que o público levasse para casa?

Que se questionassem, porque este espetáculo é muito performático, é uma viagem sensorial. Gostaríamos que, em dado momento, alguém se reconhecesse naqueles discursos, naquelas palavras e nas sensações que a peça transmite, e se questionasse. É essa a função do teatro - questionar e confrontar as pessoas. Gostava que levassem daqui um sentimento crítico e que isso resultasse num cuidado e aceitação da diferença.

" Aquilo que me é pedido como ator no teatro é altamente desgastante e eu não quero perder o prazer de estar em cena."

E também há algo especial no elenco desta peça?

Sim, sem dúvida, é a primeira vez que um ator transexual se estreia no palco do Teatro D. Maria II, na Sala Garrett. E isso é motivo de orgulho. E de alguma tristeza, ao mesmo tempo. Mas acreditamos mais na celebração. A nova direção do D. Maria II está mais sensível a essas questões. Por estes dias a fachada do D. Maria II tem um cartaz com duas atrizes negras e dois atores trans. É uma mudança de paradigma.

Ao mesmo tempo, o Albano está em palco com Orgia, de Pasolini...

Sim, é uma semana atípica, não é muito normal uma companhia de teatro estrear duas peças na mesma semana. Em Orgia entro como ator, com a Beatriz Batarda e a Marina Leonardo, encenado pelo Nuno M. Cardoso. Esta ideia de fazer a Orgia a seguir a Orlando faz parte de um díptico. Grosso modo, a peça Orlando traz à superfície questões sobre a diversidade, e a Orgia convoca questões sobre a individualidade, mas que para nós fecha este díptico sobre a dignidade humana.

O que lhe dá mais gozo: dirigir ou estar em palco como ator?

Ainda não sei responder a essa questão. Sei que é um privilégio estar a encenar e estar a orquestrar sentimentos e formas de ver o mundo, mas não sei transmitir em palavras o que é dirigir um espetáculo. Mas é fascinante. E tem a ver com um pacto surdo que se tem com o público. Alguém que ao fim de um dia de trabalho vem a uma sala, paga o seu bilhete, espera mais 10 minutos para lá da hora que todos entrem na sala e de repente entra num espaço para assumir uma ficção em conjunto com os atores... esse pacto surdo é das coisas mais comoventes que podem existir. Mas como ator estou num momento de transição...

...como assim?

A minha génese passa pelo teatro, foi onde comecei. Passa pela relação de amor com a palavra, vestir as palavras de dramaturgos. É um exercício de esperança que contrasta com a desesperança com que se vive no dia a dia. E digo-o pela primeira vez de forma aberta: não sei se vou continuar a fazer teatro nos próximos tempos. É uma posição de luta permanente, mas tem de ser justa.

É desencanto?

Não, é por ser responsável pela qualidade do meu trabalho. Sinto que estou a atingir um ponto qualquer de equilíbrio, em particular com o texto do Pasolini. Neste texto da Orgia percebi que é o momento de fazer uma pausa. Aquilo que me é pedido como ator no teatro é altamente desgastante, e eu não quero perder o prazer de estar em cena. Orgia é um exemplo perfeito, é das coisas mais difíceis de fazer em teatro, voltei a fazer coisas tal com fazia na minha primeira peça, há 20 e tal anos, vou duas horas e meia mais cedo para o teatro para me concentrar. Essa é a forma como me ligo ao teatro e não posso defraudar essa realidade, daí querer fazer uma pausa, preciso de voltar a "encher". Como disse o Al Berto, que precisava de morrer várias vezes para escrever sobre essas mortes. E estou a precisar de morrer.

Vem aí uma série internacional para a Amazon Prime dos EUA. Que foi dos trabalhos mais duros que tive a nível de ficção e produção internacional. Com três horas de make up todos os dias..."

E isso quer dizer que vai haver uma aposta maior em séries e televisão, por exemplo?

Sim, mais séries em canais de streaming. A primeira experiência [a série The One, na Netflix]correu muito bem. Mas vai ser um ano muito generoso do meu trabalho nessa área. Já não faço novelas há cinco anos, porque é altamente esgotante gravar 30 e tal cenas num dia. É insano e não quero isso para mim. O que me interessa e o que se segue em maio é uma série para a Netflix, que é a segunda série portuguesa para esse canal de streaming, mas o nome ainda não se pode saber, e depois há outra série para a HBO/SIC, e que será para televisão, que se chama Azul, e tem uma perspetiva social tremenda, porque 80% do elenco são atores com deficiências intelectuais e vou contracenar diretamente com eles. Acho que ambas irão estrear ainda este ano.

E o cinema é para continuar?

Sim, vou ter três longas-metragens com três realizadores portugueses que admiro. Uma com o Edgar Pêra, numa incursão no universo de Fernando Pessoa com The Nothingness Club. Nesse filme faço o heterónimo Álvaro de Campos, que é o meu preferido. Depois vai estrear também uma longa do Tiago Guedes, Restos, que nos remete para uma realidade portuguesa rural e que partiu de factos verídicos. Foi-me oferecido um papel incrível, de transformação física, tive de engordar 12 quilos e foi um prazer trabalhar com o Tiago depois de termos trabalhado n"A Herdade (2019). E acabei há mês e meio de rodar com o Rodrigo Areias, numa produção do Paulo Branco, um filme rodado em inglês com um texto sobre uma história verídica de Charles Augustus Howell, um dos responsáveis pelo movimento pré-rafaelista e que era português, do Porto, uma história que poucos conhecem. E depois vem aí uma série internacional para a Amazon Prime dos EUA que foi dos trabalhos mais duros que tive a nível de ficção e produção internacional. Com três horas de make up todos os dias...

E que tipo de série é?

Faço o papel de João Havelange, que foi presidente da FIFA durante mais de 20 anos e tem como base de partida o FIFA Gate. É dirigido por quatro realizadores muito experientes, brasileiros e uruguaios, em que cada um realizou dois episódios, e a série tem um total de oito. São pessoas com uma experiência fantástica e é isso que me atrai tanto no mercado internacional, não é por um sonho hollywoodesco, mas pela experiência de trabalhar com essas pessoas que admiro muito.

Desejo que este ministro tenha um mandato brilhante, que seja excecional como nunca outro ministro foi e que escute a classe artística."

E nessas experiências internacionais olham para si como ator português, etiquetado como latino?

O Banderas ao início, e o próprio Joaquim de Almeida, só faziam papeis de latinos..., mas hoje em dia ser português é uma mais-valia, estamos numa boa fase e tem a ver com as ferramentas que temos para trabalhar. O facto de sabermos línguas ajuda muito, mas não é só isso, é saber falar corretamente mas também falar bem, seja com sotaque posh britânico ou do Texas, seja falar corretamente francês ou alemão. E isso é uma das coisas que esta geração de atores que estão a ter carreiras internacionais, como a Daniela Ruah, o Nuno Lopes, a Alda Baptista ou a Daniela Melchior e outros, têm e com a qual conseguimos fazer-nos entender em outras línguas. É como aprender um instrumento, conseguimos comunicar por mais vias.

É um conselho para as novas gerações?

Sim, e tem a ver com conhecimento. Devorem conhecimento, cultivem-se, aprendam línguas e toquem instrumentos. É trabalhem muito, muito, muito.

Para fim, mas não menos importante: há um novo governo, um novo ministro da Cultura... O que espera desta nova fase?

Escuta. De parte a parte. Que o novo ministro escute a classe artística e que esta escute o ministro. Há lacunas e formas de melhorar, mas, de uma forma muito concreta, é necessário um genuíno interesse do poder em ouvir os problemas e necessidades da classe, e depois que haja vontade de fazer. Desejo que este ministro tenha um mandato brilhante, que seja excecional como nunca outro ministro foi e que escute a classe artística.

filipe.gil@dn.pt

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