Museus de Viena recorrem à plataforma OnlyFans para evitar censura aos nus artísticos

Museus de Viena criam conta na plataforma OnlyFans para iniciar um debate sobre a censura da arte nas redes sociais

Incomodados com a censura praticada pelas redes sociais à Paleolítica Venus e a outras obras de arte consideradas "explícitas", os museus de Viena estão a mostrar estas obras na plataforma OnlyFans, conhecida por permitir e incentivar a publicação de conteúdo explícito. A conta dos museus, uma jogada publicitária do organismo de turismo local, tem acumulado subscrições desde a sua criação no passado mês de setembro.

"Iniciar um debate sobre a censura a que a arte é sujeita e o papel dos algoritmos nessa mesma censura nas redes sociais". É assim que Norbert Kettner, diretor da agência publicitária responsável pela campanha, se refere à migração das obras de arte para esta plataforma online. Kettner acrescenta ainda que a ideia nasceu das "frustrações e dificuldades" de promoção de exposições de arte devido às regras muito restritas aplicadas pelas redes sociais "a conteúdos que possam ser considerados pornográficos, sem distinção entre o que realmente é conteúdo explícito e o que é arte."

Recorde-se que, em 2018, a rede social Facebook censurou a obra pré-histórica "Venus de Willendorf", considerada uma obra de arte da era paleolítica. A decisão "bizarra" - nas palavras de Kettner - originou um pedido de desculpas pelo "erro".

OnlyFans: uma questão de necessidade

Para Klaus Pokorny, porta-voz do Leopold Museum , "é estranho e mesmo ridículo" que a nudez ainda seja objeto de tanta controvérsia, considerando que deveria "ser algo bastante natural". O museu tem como uma das suas exposições principais um conjunto de pinturas de Egon Schiele, constantemente censuradas pelos algoritmos das redes sociais.

Pokorny considera que estas restrições "forçaram" os museus a explorar alternativas para a divulgação da sua arte e das suas exposições. É assim que surge a plataforma OnlyFans, não por vontade expressa dos diretores dos museus, mas porque todas as outras redes sociais não permitem a publicação sem censura das obras de arte. Kettner , por outro lado, acrescenta ainda que "no que diz respeito a tabus sobre o corpo humano, estamos exatamente no mesmo ponto de há 100 anos."

Segundo Thomas Schlesser, historiador e diretor da Fundação Francesa Hartung-Bergman, a criação da conta na plataforma OnlyFans foi uma ação "astuta", devolvendo à arte o seu conteúdo provocativo e muitas vezes pornográfico com que foi muitas vezes pensada.

"Autocensura criativa"

Segundo Kettner, o problema não é exclusivo das grandes galerias de arte. "Muitos jovens artistas dependem dos meios de comunicação online e, pior do que isso, muitos já pensam no que é possível lá publicar", criando, involuntariamente, uma "espécie de autocensura criativa".

As redes sociais têm tentado modificar os algoritmos para uma distinção entre arte e pornografia mas, até ao momento, a tentativa ainda não tem sucesso. Olivier Ertzscheid, especialista em Tecnologias da Informação na Universidade de Nantes, afirma que "na realidade, pouco ou nada tem sido feito para reduzir a censura algorítmica", reforçada quando existe uma representação nua de uma figura feminina.

Kettner não tem qualquer tipo de importunação em relação a estar associado a uma plataforma como a OnlyFans - essencialmente ligada a criadores de conteúdo erótico.

Pokorny vai mais longe que Kettner, afirmando que a mudança para esta plataforma é uma "questão de princípio." Por outras palavras, é "uma guerra por outros meios", "uma luta pela liberdade, pelo amor, pela compreensão e não pelas restrições e pelas pessoas que pretendem influenciar o nosso modo de vida".

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