Morreu o músico angolano Waldemar Bastos

O músico angolano Waldemar Bastos, autor de temas como Velha Chica e Angola, Minha Namorada, tinha 66 anos e morava em Lisboa.

Nascido na província de M'Banza Kongo, o cantor, galardoado com o prémio de New Artist of the Year nos World Music Awards em 1999, estava em tratamentos oncológicos há um ano e morreu nesta madrugada em Lisboa, vítima de cancro, aos 66 anos, disse à Agência Lusa fonte do gabinete de comunicação do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente de Angola. Era um das figuras mais importante da música lusófona.

"Nasci em São Salvador do Congo, hoje M'Banza Congo, que continua a ser rural. O meu pai tocava órgão e violoncelo, tinha sido seminarista. Lembro-me de ouvir a minha mãe cantar em casa, sempre muito discreta", contou numa entrevista ao DN em 2016. Quando tinha 6 anos, a mãe ouviu-o a assobiar uma música da rádio e espantou-se. Nesse Natal, ofereceram-lhe um acordeão que ele aprendeu a tocar sozinho e só depois de se mudarem para Cabinda é que ele começou a aprender música com um professor. "Para nos ensinar a tocar, o professor mandava vir pautas de Portugal e demoravam muito tempo a chegar, iam de barco. Mas eu ouvia as músicas na rádio e tocava-as no violão. Então o professor passou a escrever as notas a partir do que eu tocava. Tinha um ouvido excecional, apanhava as músicas por dá cá aquela palha."

Iniciou a sua carreira muito novo, ainda em Cabinda, com o grupo Jovial, e depois com outros grupos e também a solo, atuando em todo o país. Após a independência de Angola, em 1975, Waldemar Bastos, com 28 anos, fugiu do país para Portugal. Exilou-se para escapar à guerra civil.

Em anos recentes, acusou o regime de José Eduardo dos Santos de perseguição, por se recusar a apoiar o partido no poder, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola). "Foram poucas ou nenhumas as vezes em que me deixaram cantar no meu país", alegou em 2016 na rede social Facebook, acrescentando que se sentia vigiado "todos os dias, palmo a palmo, pela Polícia secreta e 'bufos' ao serviço do regime no poder em Angola".

Waldemar Bastos viveu em Angola, no Brasil, em Portugal e viajou por muitos lugares, incluindo muito tempo passado na América - de todos esses lugares trazia música. Ainda que a maior parte da música que tocava e cantava fosse da sua autoria: "Às vezes, gosto de um poema e musico-o. Tenho isso logo no meu primeiro disco, poemas do Ernesto Lara Filho. Se gosto muito de uma música tradicional, faço o meu arranjo. Quando gosto de músicas de outros compositores e as sinto, vou buscar e recrio."

Gravou o seu primeiro álbum, Estamos Juntos, no Brasil, em 1983, contando com convidados como Chico Buarque, João do Vale, Dorival Caimmy, Martinho da Villa e Novelli. De volta a Portugal, gravou em 1990 o segundo disco, Angola, Minha Namorada.

"Nós temos a pátria da língua portuguesa de que falava Fernando Pessoa. Eu assumo a minha mestiçagem, tenho a cultura portuguesa, paterna, e a africana, materna", dizia nessa mesma entrevista em que assumia: "A minha alma é atlântica." Apresentando-se com uma sonoridade que o próprio definia como "afro-luso-atlântica", Waldemar Bastos foi também o único não fadista a cantar na cerimónia de trasladação, no Panteão Nacional, em Lisboa, do corpo de Amália Rodrigues, de quem era amigo.

Em 1995, a editora Luaka Bop, de David Byrne, lançou no mercado o disco Afropea - Telling Stories to the Sea, uma antologia de artistas lusófonos na qual apareciam, entre outros, Waldemar Bastos, Bonga, Cesária Évora, Dany Silva, Vum-Vum e André Mingas.

Foi também a Luaka Bop que editou o disco Pretaluz/Blacklight, em 1997, gravado em Nova Iorque e produzido por Arto Lindsay. O álbum teve excelentes críticas da imprensa internacional. O The New York Times considerou-o como "um dos melhores discos de world music da década". Já em 2010, Classics of My Soul foi eleito um dos álbuns do ano na categoria de world music para o jornal francês Libération.

Colaborou com grandes músicos, como Ryuichi Sakamoto ou Dulce Pontes, gravou com a Orquestra Gulbenkian, com a London Symphony Orchestra e com outras orquestras, atuou nas mais importantes salas de espetáculos em todo o mundo.

Em 2018, o músico foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes, a mais importante distinção do Estado angolano nesta área. No ano anterior, tinha sido considerado Músico e Cantor Internacional de 2017 no X Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, em Lisboa, e em 1999 recebera o prémio New Artist of the Year nos World Music Awards, promovidos pelo príncipe do Mónaco.

Músico respeitado, nunca foi tão conhecido do público quanto merecia. "Não alinho muito no fast food, nem na comida nem na música", dizia. "Nunca me meti na música pelo lado comercial, entrego-me, dando o melhor de mim, preocupando-me em apresentar as coisas com detalhe. Isso é anticomercial, não é fazer as coisas a correr para aparecer, neste mundo em que tem de se aparecer a toda a hora."

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