Morreu Larry Kramer, pioneiro na luta contra a sida

Personalidade fundamental na história dos direitos LGBT, Larry Kramer faleceu aos 84 anos de idade: a sua peça "Um Coração Normal" é um clássico sobre a luta contra a sida nos primeiros anos da década de 1980.

Pioneiro na luta contra a sida, ativista dos direitos LGBT, dramaturgo e argumentista, o americano Larry Kramer faleceu no dia 27 de maio, em Nova Iorque - contava 84 anos. Segundo informação prestada pelo seu marido, o arquitecto e designer David Webster, ao jornal "The New York Times", a morte foi provocada por uma pneumonia, não relacionada com a covid-19.

No começo da década de 1980, Kramer esteve ligado à organização Gay Men"s Health Crisis e, mais tarde, ao movimento ACT UP, tornando-se uma das personalidades dos movimentos de defesa dos direitos dos homossexuais com maior visibilidade mediática. A sua ação desempenhou um papel especialmente importante numa altura em que a burocracia das autoridades dos EUA ia contornando a urgência de tratamento da sida, sem que isso o impedisse de chamar a atenção para o que considerava uma perigosa apatia, perante a doença, de alguns setores da comunidade gay.

Refletindo tanto a sua militância como o seu desencanto, escreveu a peça Um Coração Normal (The Normal Heart), emprestando ao seu protagonista, o ativista Ned Weeks, algumas componentes inequivocamente autobiográficas. A estreia ocorreu em Nova Iorque, em 1985, desde então impondo-se como um texto clássico sobre a luta contra a sida nos primeiros anos da década de 1980.

Na segunda metade dos anos 90, Um Coração Normal esteve para ser transformado num filme realizado por Barbra Streisand. O certo é que, depois de ter dirigido As Duas Faces do Espelho (1996), projeto de produção especialmente agitada, Streisand decidiu suspender o seu trabalho como realizadora, criando uma situação de impasse que se arrastou durante vários anos. Um Coração Normal foi, finalmente, rodado, em 2014, com chancela da HBO. O próprio Kramer adaptou a sua peça e Ryan Murphy assinou a realização; com Mark Ruffalo e Matt Bomer nos papéis principais, arrebataria várias distinções, incluindo um Emmy de melhor telefilme e um prémio de interpretação para Ruffalo, atribuído pela Guild (sindicato) dos atores americanos [trailer].

Kramer não era um estreante na escrita de argumentos, tendo sido responsável pelos diálogos de Here We Go Round the Mulberry Bush (1968), comédia sobre a sexualidade adolescente dirigida por Clive Donner. Depois, assinou a adaptação da obra de D. H. Lawrence na base de Mulheres Apaixonadas (1969), de Ken Russell - o seu trabalho valeu-lhe, aliás, uma nomeação para o Óscar de melhor argumento adaptado (no ano em que o vencedor dessa categoria foi Ring Lardner Jr., por MASH). Em 1973, escreveu também o argumento de Horizonte Perdido, de Charles Jarrott, remake do clássico de 1937 de Frank Capra, tendo por base o romance de James Hilton.

Os temas LGBT e a análise histórica e ética das vivências em torno da sida marcam toda a sua obra escrita, nomeadamente as peças Just Say No (1988) e The Destiny of Me (1992), esta retomando a personagem de Ned Weeks. Em 2013, foi distinguido com o Prémio PEN/Laura Pels, atribuído anualmente pelo PEN America a dois dramaturgos (neste caso, a par de Kirsten Greenidge). Antes da identificação da sida, destaca-se o seu polémico romance Faggots (1978), retratando em tom crítico e satírico as vivências da comunidade gay de Nova Iorque. Em 1989, publicou uma antologia dos seus escritos sobre a sida e o ativismo pelos direitos LGBT, com o título Reports from the Holocaust: The Making of an AIDS Activist.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG