Morreu José Maria Ribeirinho, antigo diretor de arte do DN

Diretor de arte do DN entre 1992 e 2004, José Maria Ribeirinho foi responsável pela renovação da imagem do jornal na direção de Mário Bettencourt Resendes.

José Maria Ribeirinho, que foi diretor de arte do DN entre 1992 e 2004, sendo o responsável pela renovação da imagem do jornal durante esse período, morreu esta quarta-feira aos 68 anos.

"José Maria Ribeirinho orgulhou-se até ao fim da sua vida do período em que, com o antigo diretor do DN, Mário Bettencourt Resendes, refez o visual do jornal", recorda o jornalista João Céu e Silva. O então diretor "confiava no seu rasgo gráfico na inovação necessária para rejuvenescer a imagem de uma publicação com mais de 125 anos e fizeram uma dupla imprescindível durante essa longa direção de 12 anos".

Nascido em agosto de 1952, José Maria Roumier Ribeirinho Pereira - conhecido como José Maria Ribeirinho no mundo do design - recebeu em 2012 recebeu o Prémio de Carreira do IADE - Instituto de Design, Tecnologia e Comunicação, onde fez a sua formação inicial ainda nos anos de 1970. Chegou ali com vontade de ser arquiteto mas acabou por se render ao design gráfico. "Um jornal é visto para ser lido e visto", dizia.

Este vídeo, realizado por ocasião dessa homenagem, resume parte do seu trabalho:

"Era um tempo em que o DN ainda dava os primeiros passos na informatização e os maquetistas, que durante décadas desenhavam as páginas a régua e esquadro, começavam a ser substituídos pelas novidades tecnológicas e o recurso às imagens digitais, que poderiam ser mais facilmente manipuladas e gerarem um apelo gráfico contemporâneo, que também obrigavam à atualização do gabinete fotográfico e beneficiavam-se do recurso a bancos de imagens que até aí pouco contavam no elaborar da paginação", lembra Céu e Silva. Havia outra particularidade na estratégia gráfica de José Maria Ribeirinho, diz o jornalista, "a de não esquecer um passado muito rico da presença da ilustração no DN e, na linha de Bordallo ou Stuart, voltou a introduzir essa forma de preencher a página, encontrando - e fazendo famosos - novos ilustradores."

Sob a direção de Ribeirinho, o DN ganhou vários prémios de design, quer para as primeiras páginas, quer para o design de algumas páginas e infografias.

"O José Maria Ribeirinho é um nome fortemente ligado à história do DN, sobretudo na época do Mário Bettencourt Resendes como diretor, e sem qualquer esforço recordo primeiras páginas por ele idealizadas que foram extraordinárias, como a de homenagem a Timor, a dedicada ao Nobel para Saramago ou a do 11 de Setembro", recorda o atual diretor interino do DN, Leonídio Paulo Ferreira. "No caso da de Timor, que, como outras, tínhamos afixadas em tamanho gigante na parede da redação ainda no edifício da avenida da Liberdade, era tão simbólica que quando o Paulo Baldaia era diretor do jornal e aconteceu a tragédia de Pedrógão serviu-nos de inspiração a uma primeira página em branco com um título mínimo a preto."

Também a jornalista Maria de Lurdes Vale, que foi editora-executiva do DN, lembra Ribeirinho como "uma pessoa extraordinária, muito sereno e um artista, um criativo de mão cheia. Trabalhamos muito lado a lado no desenho de primeiras páginas e de temas especiais. Estava ainda a transmitir-lhe a ideia e ele já a estava a desenhar no papel. Magia pura."

Em 2005, José Maria Ribeirinho foi o comissário para as comemorações dos 140 anos do Diário de Notícias, tendo comissariado uma exposição na Cordoaria Nacional, em Lisboa, que contava a história do jornal. Como pintor e ilustrador, José Maria Roumier Ribeirinho mostrou também várias vezes o seu trabalho em livros e exposições, a última das quais, "Ladrilhas no Tempo", esteve patente em outubro do ano passado, na Galeria do Hospital de Santa Maria.

"Alto, via-se bem o Ribeirinho a circular pela redação entre os jornalistas sentados. Quase sempre com umas páginas impressas com alguma invenção que estivera a fazer e queria saber o que se achava. Na mão, uma caneta para fazer alterações durante esses debates e, nem sempre comum nesses artistas - ele também era pintor -, aceitava as sugestões se considerasse que um retoque deixava aquela página efémera melhor", conta João Céu e Silva.

"Só não gostava quando martelávamos as páginas para caber mais texto, com a conivência de um maquetista, e a fotografia ia ocupando cada vez menos espaço. Obstinadamente, conseguia estipular regras escritas sucessivas para a dimensão da imagem, que teimávamos em contornar mal passassem uns dias da ordem mais recente. E nós dizíamos "É só desta vez..." Na maioria das vezes, chegávamos a um acordo e é essa imagem que muitos dos que trabalharam com ele ficaram sempre. Até porque os nossos textos só tinham a ganhar com o seu risco, tínhamos bem consciência disso."

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG