Morreu Florian Schneider, um dos fundadores dos Kraftwerk

Considerado um dos pais da música eletrónica, o músico alemão faleceu aos 73 anos, na sequência de um cancro.

Morreu Florian Schneider, um dos fundadores da banda Kraftwerk. Foi o profeta de um futuro entretanto já chegado, feito de cruzamentos multimédias entre a música as mais variadas artes, mas que no dealbar na década de 70 do século passado apenas era uma ideia próxima de um imaginário de ficção científica.

Mal surgiram, os Kraftwerk assumiram-se desde logo como um caso à parte, no seio da então muito ativa vanguarda experimentalista alemã, pelo modo pioneiro como recorriam às máquinas para criar uma nova sonoridade.

Em conjunto com outros coletivos alemães, como Can, Neu! ou Tangerine Dream, utilizaram a música para cortar com o conturbado passado do pós-guerra alemão, tanto com a memória dos nazis como também com a influência dos ocupantes americanos. O krautrock, como viria a ficar conhecido esse movimento, misturava rock psicadélico e free-jazz com eletrónica experimental, mas os seus objetivos (artísticos e sociais) iam muito além da música e os Krafwerk foram quem melhor simbolizou esse anseio.

Tudo começou no final dos anos 60, quando Florian Schneider se cruzou com Ralf Hütter na Universidade Robert Schumann, em Dusseldorf, onde ambos estudavam música. Pouco tempo depois, ingressaram no quinteto Organisation, no qual Florian, que inicialmente apenas tocava flauta, se começou a interessar por sintetizadores. Reza a lenda que a ideia de formarem os Krafwerk surgiu após a dupla ter visitado uma exposição dos artistas visuais Gilbert and George, para tal como eles, trazerem a vida do dia-a-dia para a arte - neste caso para a música.

Durante os primeiros anos, Florian e Ralf mantiveram-se como os únicos membros efetivos do projeto, que se deu a conhecer ao mundo com o um álbum homónimo em 1970. O mundo, no entanto, só os reconheceria realmente um pouco mais tarde, com a edição de Autobahn (1974), a primeira de três obras-primas, a par de Radio Activity (1975) e Trans-Europe Express (1977), que lhes haviam de garantir um lugar de destaque na história da música popular.

Seguir-se-iam ainda os não menos essenciais The Man Machine (1978) e Computer World (1981), que ajudaram a criar o mito de uma banda que não só estava a mudar o curso da história dessa mesma música popular, antecipando a chegada da eletrónica que é hoje norma, mas também a projetar uma sociedade robotizada e consumista, em tudo idêntica à de hoje. A validação para os tornar em algo mais que um obscuro fenómeno de culto chegou também através de David Bowie, que quando se mudou para Berlim, em meados de 70, se inspirou naquela estranha música mecânica para fazer a sua aclamada "trilogia de Berlim", composta pelos discos Low, Heroes e Lodger - o título do tema V-2 Schneider é um reconhecimento dessa influência de Florian Schneider na música de Bowie.

Com o passar do tempo, Florian foi no entanto alargando o seu vocabulário musical muito além da flauta. Segundo o próprio, começou a achar o instrumento "aborrecido e limitador", o que o levou a adaptar-lhe diversos efeitos sonoros, que lhe permitiram usar a flauta como uma "espécie de baixo". Nos primeiros álbuns do grupo tocou também violino, saxofone, guitarra e, claro, sintetizadores, aos quais, a partir do lançamento de Autobahn se rendeu por completo, quase deixando de usar instrumentos acústicos até que um dia, como recordou mais tarde, no início dos anos 90, acabou por deitar fora a flauta.

O músico permaneceria nos Krafwerk até 2008, quando, após quase quatro décadas, se afastou do grupo, alegadamente, segundo Ralf Hütter, "para trabalhar noutros projetos". Já não estava, portanto, quando os Krafwerk receberam um Grammy de carreira, em 2014, quando Autobahn entrou para o hall of fame desses mesmos Grammy, no ano seguinte, ou quando o álbum ao vivo 3-D The Catalogue, venceu o Grammy de melhor álbum eletrónico, em 2018.

Nem tão pouco nas últimas visitas do grupo alemão a Portugal, em 2015, no Coliseu de Lisboa e na Casa da Música, no Porto, e nos festivais Neopop, em Viana do Castelo, em 2017, e CoolJazz, em 2019, em Cascais, para apresentar o espetáculo em três dimensões criado por ocasião da retrospetiva que o MoMA de Nova Iorque lhes dedicou.

Nem voltará a estar, apesar da vasta legião de fãs, em especial os mais novos, que ainda mantinha a esperança de um dia voltar a ver juntos num palco os dois membros fundadores dos Kraftwerk. Pelo contrário, o seu pioneirismo permanece hoje mais vivos que nunca, tanto pelo legado que deixou em todo o espetro da música popular, do hip-hop ao rock, como pelas profecias passadas de um futuro que já há muito se transformou em presente.

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