Morreu Paula Rego, a pintora das histórias contra a opressão

A pintora morreu em casa, em Londres. Foi uma das mais premiadas artistas portuguesas. Marcelo fala de "uma perda nacional". Governo vai decretar luto nacional.

A pintora Paula Rego, uma das mais aclamadas e premiadas artistas portuguesas a nível internacional, morreu na manhã desta quarta-feira em Londres, aos 87 anos, disse à agência Lusa fonte próxima da família. De acordo com o galerista Rui Brito, a artista "morreu calmamente em casa, junto dos filhos".

O Governo vai decretar, em articulação com o Presidente da República, luto nacional pela morte da pintora Paula Rego, indicou à agência Lusa fonte do Ministério da Cultura.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, já reagiu à morte da pintora Paula Rego, notícia que tomou conhecimento em Braga, onde este ano decorrem as comemorações do 10 de junho, Dia de Portugal.

"Eu tinha estado muito recentemente com o filho na inauguração da exposição em Londres [Galeria Tate Britain], depois em Haia [Países Baixos] e em Málaga, Espanha. Era uma homenagem numa altura em que se sabia que Paula Rego estava já doente, bastante doente", começou por dizer aos jornalistas.

Recordou uma "artista plástica muito completa, com maior projeção no mundo, certamente desde que nos deixou Vieira da Silva".

"Há muitas décadas que Paula Rego não é só muito importante em Portugal, em Inglaterra, onde viveu e onde a visitei no seu estúdio, em 2016, mas por todo o mundo. É uma perda nacional", sublinha Marcelo Rebelo de Sousa.

O chefe de Estado disse que iria certamente falar com o primeiro-ministro, António Costa, para "ponderar como assinalar, em termos de luto nacional, essa perda, porque tem uma projeção que é muito longa, muito rica e muito prestigiante para Portugal".

O Presidente da República recordou "que o Presidente Jorge Sampaio tomou a iniciativa única de a convidar para fazer uma coleção de representações para a capela do Palácio de Belém que foram na época revolucionárias, vendo Maria, mãe de Cristo, de uma perspetiva no papel da mulher. É um caso único na própria sede da Presidência da República ter uma artista contemporânea com uma coleção notável de retratos".

"Transmito à família, que conheço, os sentimentos de todo o povo português", referiu ainda Marcelo Rebelo de Sousa.

Paula Rego estudou nos anos 1960 na Slade School of Art, em Londres, onde se radicou definitivamente a partir da década de 1970, mas com visitas regulares a Portugal, onde, em 2009, foi inaugurado um museu que acolhe parte da sua obra, a Casa das Histórias, em Cascais.

Nascida a 26 de janeiro de 1935, em Lisboa, foi galardoada, entre outros, com o Prémio Turner em 1989, e o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso em 2013, além de ter sido distinguida com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada em 2004. Em 2010, recebeu da Rainha Isabel II a Ordem do Império Britânico com o grau de Oficial, pela sua contribuição para as artes.

Em 2019, recebeu a Medalha de Mérito Cultural do Governo de Portugal.

A pintora das histórias contra a opressão

As histórias, reais ou imaginadas, acompanharam a vida da pintora Paula Rego, um fascínio que começou na infância, quando a tia lhas contava, e inspirou os seus quadros, reconhecidos a nível mundial.

Sempre que surgia em cerimónias públicas, a artista portuguesa, radicada no Reino Unido desde o início da década de 1970, reiterava a importância das histórias para as pessoas se compreenderem a si próprias e ao mundo.

"[Com as histórias] pode-se castigar quem não se gosta e elogiar quem se gosta. E depois inventa-se uma história para explicar tudo", comentou, um dia, na inauguração de uma das suas exposições, no seu museu, em Cascais, ao que chamou exatamente Casa das Histórias.

A obra da pintora raras vezes deixa um espectador indiferente, apreciadores ou não da estética do seu trabalho, marcado pela realidade da condição feminina, pelas injustiças sociais e pela recusa da opressão em todas as suas formas.

O valor internacional da sua obra evidenciou-se sobretudo em 2015 com a venda, num leilão, em Londres, da obra "The Cadet and his Sister" (1988) ("O cadete e a sua irmã", em tradução do inglês), por 1,6 milhões de euros, tornando-se um novo recorde da artista portuguesa.

A data da obra assinala um importante acontecimento na vida pessoal da pintora na década de 1980, pela morte do marido, o também artista Victor Willing (1928-1988), de esclerose múltipla.

Esse ano foi igualmente importante na carreira de Paula Rego, pois passou a ser representada pela galeria Marlborough Fine Art, em Londres, e distinguida com uma grande retrospetiva do seu trabalho pela Serpentine Gallery, na capital britânica.

Em 2021, conseguiu tornar real um dos seus maiores sonhos como artista: expor no museu Tate Britain, em Londres, uma casa de exposições que sempre viu como um baluarte masculino.

Ali apresentou uma exposição retrospetiva - com mais de 100 obras dos seus 60 anos de carreira - um feito simbólico que Paula Rego conquistou, já que sempre se tinha sentido discriminada por não poder ali levar a sua obra, sendo mulher e estrangeira.

Acabou por ser a maior a mais completa exposição de Paula Rego no Reino Unido, incluindo, além da pintura, esculturas, colagens e desenhos, desde os anos 1950, até aos mais recentes, incluindo a série "Mulher Cão", dos anos 1990, e "Aborto", uma das que mais impacto político e social tiveram em Portugal, produzida durante a campanha pela despenalização do procedimento no país.

O Presidente da República, Marcelo rebelo de Sousa, visitou a exposição, na altura, e considerou-a "única e irrepetível".

Já este ano, a sua obra foi alvo de outro reconhecimento por parte da curadoria-geral de um dos certames mais importantes de arte contemporânea do mundo: A Bienal de Arte de Veneza, com o tema "The Milk of Dreams", que privilegiou o trabalho de artistas mulheres.

Cecilia Alemani, curadora geral da 59.ª Exposição Internacional de Arte Bienal de Veneza, escolheu a pintora portuguesa Paula Rego como uma das âncoras da exposição-geral, reunindo numa sala azul do Pavilhão Central, nos Giardini, obras em pintura, gravuras e esculturas.

Em entrevista à agência Lusa uma semana antes da inauguração, em abril, a curadora considerou Paula Rego uma "artista completa" que "só agora está a ter o devido reconhecimento".

Paula Rego "é alguém que, ao longo de cinco décadas, tem dedicado o seu trabalho a temas e ideias muito fortes, a aspetos das nossas sociedades que foram obscurecidos e ignorados, cancelados, censurados, desde questões políticas, de género, liberdade de expressão, direitos das mulheres. São temas que aborda de forma muito direta e original", salientou Cecilia Alemani sobre a artista de 87 anos.

Em 2020, o Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém, em Lisboa, assinalou o 85.º aniversário de Paula Rego com uma exposição de obras da pintora, com os trabalhos criados pela artista para o Palácio de Belém, a pedido do antigo Presidente da República Jorge Sampaio.

Maria Paula Figueiroa Rego, nascida em Lisboa a 26 de janeiro de 1935, numa família de tradição republicana e liberal, começou a desenhar ainda criança, um talento que lhe foi reconhecido pelos professores da St. Julian´s School, em Carcavelos, e partiu para a capital britânica com 17 anos, para estudar na Slade School of Fine Art.

Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian para fazer pesquisa sobre contos infantis, em 1975, e em Londres viria a conhecer o futuro marido, o artista inglês Victor Willing, cuja obra Paula Rego exibiu por várias vezes na Casa das Histórias, em Cascais.

A Casa das Histórias, que abriu em Cascais em 2009, num projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura, detém um acervo significativo de obras da autora, e tem vindo a apresentar exposições sobre o seu trabalho ou de outros, sobretudo portugueses, com quem tem afinidades.

Na pintura de Paula Rego surgem diversas imagens típicas da infância, por vezes fetichistas e até traumáticas, relacionadas com a violência, e os animais são frequentemente os protagonistas da sua linguagem pictórica.

Nas últimas décadas, a pintora abordou temas políticos, como o abuso de poder, e sociais, como o aborto - entre outros, do universo feminino, e o seu trabalho foi influenciado pelos contos populares, e também pela literatura, nomeadamente a escrita de Eça de Queirós, que a levou a pintar quadros inspirados em livros como "A Relíquia" e "O Primo Basílio".

Em 2010, foi ordenada Dama Oficial da Ordem do Império Britânico pela rainha Isabel II e, em Lisboa, recebeu o Prémio Personalidade Portuguesa do Ano atribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

Para incentivar os jovens estudantes a desenhar, em 2016 foi criado o Prémio Paula Rego, galardão anual para atribuir a estudantes da Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Paula Rego recebeu, em 1995, as insígnias de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, em 2004 a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada, e em 2011 o doutoramento 'honoris causa' da Universidade de Lisboa, título que possui de várias universidades no Reino Unido, como as de Oxford e Roehampton.

Em 2019, foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura.

A sua obra está representada em múltiplas coleções públicas, a nível nacional e internacional.

O documentário "Paula Rego: Secrets and Stories", do realizador Nick Willing, filho da pintora e de Victor Willing, estreou-se a 25 de março de 2017, pela BBC, no Reino Unido, e depois em Portugal, em abril do mesmo ano.

Neste filme, Willing relata a vida da mãe de forma intimista, como mulher e artista, o relacionamento com o pai, a grande dedicação à arte e as fases de dificuldades sofridas, por falta de meios financeiros para cuidar da família, até ao progressivo reconhecimento em Portugal e no Reino Unido.

Em novembro de 2021, também a Galeria 111, que representou a pintora em Portugal desde o início da carreira, organizou uma exposição em sua homenagem, e da "relação de amizade e cumplicidade", que titulou "Saudades", com 27 obras que revisitam o seu percurso artístico desde os anos 1980 até trabalhos mais recentes, provenientes do atelier da pintora, em Londres.

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