Milana Aguzarova, a notável protagonista de 'Unclenching the Fists'

Unclenching the Fists, da russa Kira Kovalenko, foi uma das grandes descobertas deste festival, acabando mesmo por vencer a secção Un Certain Regard.

Revelações de Cannes? Várias, por certo. Na certeza de que o acompanhamento da secção competitiva (24 filmes em 11 dias, um recorde) torna impossível a descoberta de dezenas de títulos potencialmente interessantes... Não é uma lamentação. Apenas a certeza de que o festival continua a ser uma montra grandiosa de todas as geografias e culturas cinematográficas.

Seja como for, justifica-se que identifiquemos a cineasta russa Kira Kovalenko (31 anos) como uma das figuras em evidência neste "renascimento" de Cannes, ainda em tempo de pandemia... O seu filme Unclenching the Fists (qualquer coisa como: "abrindo os punhos") acabou por vencer a secção "Un Certain Regard", zona que também integra a seleção oficial, este ano com um júri presidido pela realizadora inglesa Andrea Arnold.

Centrado na vibrante composição da estreante Milana Aguzarova, Unclenching the Fists envolve assumidas componentes autobiográficas. Kovalenko regressa à zona onde cresceu (Ossétia, no Cáucaso) para fazer o retrato de uma jovem a viver entre um emprego precário e a frieza autoritária do pai, tudo enquadrado pelo cinzentismo de um lugar com carências sociais e económicas muito transparentes.

Kovalenko é uma criadora que sabe o valor das imagens e dos sons - a agilidade da sua câmara é motivada e consistente, nada tendo a ver com a agitação "visual" de muitos filmes contemporâneos. Faz sentido, por isso, voltar a falar de valores realistas a propósito do seu trabalho, até porque tais valores marcaram alguns dos melhores filmes vistos em Cannes.

Três dos títulos maiores da seleção oficial podem ajudar a sublinhar essa "tendência": Tre Piani, retrato paradoxal, contido e convulsivo, dos habitantes de um prédio de Roma, por Nanni Moretti; Un Héros, com Asghar Farhadi a redobrar o assombramento da sua visão do sistema legal do Irão; e Les Olympiades, teia de personagens de uma zona de Paris que Jacques Audiard filma com depuração e ternura.

Destacar estes filmes está longe de ser uma mera questão de "gosto". Na verdade, sabemos que o imaginário mercantil do cinema, sustentado pelo marketing dos super-heróis (por vezes reforçado pelo jornalismo que reduz a vida dos filmes aos números do box office), promove, sobretudo junto dos espectadores mais jovens, uma visão que se esgota na adoração beata da "tecnologia". O que encontramos nos títulos citados - ou ainda em La Fracture, de Catherine Corsini, e De Son Vivant, de Emmanuelle Bercot (competição e extra-competição, respetivamente) - é uma exigência de observação das relações humanas que supere a sua codificação informativa ou mediática. Com um saldo que merece ser sublinhado: a revalorização do trabalho dos atores.

Nada disto é contrário à celebração dos belos filmes "artificiosos" que passaram por Cannes (incluindo o musical Annette e o inclassificável Titane). Trata-se apenas de reconhecer o valor primitivo do realismo como arte de discutir o nosso lugar no mundo. Sem esquecer, em paralelo, a paixão documental que também marcou Cannes, a começar por uma obra-prima do género: The Velvet Underground, de Todd Haynes, memórias calorosas de Lou Reed, Andy Warhol & etc.

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