Mallu Magalhães. À descoberta de um ritmo mais orgânico

Em conversa, a cantora Mallu Magalhães fala da sua vida lisboeta o seu olhar para o Brasil da atualidade e do novo álbum com muita, muita esperança.

É no seu estúdio de gravação, em Lisboa, numa rua entalada entre o bairro da Estrela e o da Lapa, que a cantora brasileira recebe o DN. O espaço acolhedor, pejado de instrumentos e muitos tapetes no chão, é onde Mallu compõe e ensaia e onde nos explica como está a ser o regresso a uma espécie de realidade num presente imprevisível dirigido ao gosto da pandemia. Apesar disso nem tudo é mau para a cantora brasileira, conta. O encontro dá-se dias depois do seu concerto no Campo Pequeno (3 de dezembro), diz que esteve quase três anos sem fazer concertos, primeiro a compor e a gravar o seu mais recente trabalho, Esperança, e depois afastada pela pandemia. Tanto tempo que nem se lembrava das saudades que tinha do palco. "Confesso que só quando pisei o palco novamente [em Guimarães], quase três anos depois, é que reparei que sentia muita falta . Esse primeiro show foi dos mais bonitos e senti-me muito realizada".

O regresso aos poucos passou já por Guimarães, Ílhavo, Setúbal e Castelo Branco e mais recentemente por Lisboa. Para os próximos meses o plano, dentro da indefinição, é continuar a turné do novo disco em Portugal e no Brasil. "Como se diz no Brasil é ir dançando conforme a música", explica resignada.

O novo álbum foi feito em 2019 e era para ser lançado no início de 2020, chamava-se Felicidade mas com o surgimento da pandemia decidiu esperar e pensar e mudar o nome. Passou a chamar-se Esperança, como quem reafirma que a felicidade necessita de esperança.

Outra das mudanças trazidas pelo vírus foi a relação da cantora com as redes sociais. "Já tinha uma rede de pessoas, mas passei a trabalhar mais as redes sociais e isso trouxe-me uma visão mais orgânica da música, menos atrelada à indústria e sem a parte das métricas do sucesso". E acrescenta, "acho que é um ritmo mais humano, e de estarmos no "agora" porque o futuro é completamente incerto é uma novidade e algo muito difícil para quem vive da música, mas ao mesmo tempo tenho achado muito bom. Hoje em dia tocamos todos os concertos como se fosse o último, não sabemos quando vamos parar novamente e por quanto tempo. Talvez tenha descoberto um modelo de trabalho que tenha mais a ver com a forma de sentir as coisas".

O método de criar

Sendo o seu novo trabalho anterior ao covid, a pergunta, quase óbvia é saber o que vai levar deste tempo para uma nova criação musical? "Tudo isto faz-nos lembrar como somos frágeis, mas ao mesmo tempo forte, essas vivências dão uma grande fonte de criatividade. Acho que o próximo trabalho vai refletir essa espécie de celebração e gratidão, e acho que foi bom para resinificar os problemas, o que já tinha tentado com o Esperança, mas nos próximos talvez se veja um menor apego aos pequenos obstáculos e com uma intenção maior de tranquilidade, de realização e prosperidade". Não sabendo de certeza se o assunto covid irá viralizar as criações artísticas de Mallu, pergunta-se pelo seu processo de criação. "A natureza da minha profissão não tem rotina, mas sei que a minha criatividade acontece mais quando estou em movimento, quando estou a andar, no carro, no avião. Aproveito e gravo umas coisas e tenho ideias. Se me lembrar dela mais tarde é já sinal que é boa, e daí sim começo a passar para os acordes e só depois a letra, aí entra o método. Raramente a letra vem primeiro e acontece que, muitas vezes as últimas palavras surgem já na gravação do trabalho". Mallu é casada com o músico Marcelo Camelo (ambos fizeram parte da Banda do Mar) mas o processo criativo é individual. "No outro dia comentámos que tínhamos de compor mais juntos, eu acabo por compor muito fora de casa, e ele dentro de casa. E mesmo quando está a compor em casa, não interrompo, porque respeitamos o espaço um do outro. Criar é um processo muito íntimo. Aliás, quando um compõe, o outro distrai a nossa filha Luísa, para poder ter uma produtividade em casa", explica divertida.

A vivência alfacinha

Ambos vivem em Lisboa há quase nove anos, e Portugal vai-se notando já em algumas músicas, como em Deixa Menina (deste novo trabalho). O título da música é uma expressão "bem portuguesa" que a filha usa. "Acho que as referências já fazem parte da minha vida e do meu dia-a-dia, desde o uso da palavra à forma como uso a língua. Lisboa, e sobretudo o centro, é uma cidade com muitas referências, entro em contacto com uma série de culturas e acho isso muito interessante e muito vivo que acaba por influenciar a minha música".

Explica que antes da pandemia tinha muitos espetáculos no Brasil - o que espera voltar a acontecer - , e isso colmatava a distância do resto da família e amigos. "Geralmente vou muito ao Brasil em trabalho e para estar com a família, por isso não sofro muito de saudades".

Porém, as diferenças entre a vida que tinha lá e aqui são muitas. "É tudo muito diferente. Quando morava em São Paulo andava de automóvel para todo o lado e as distâncias eram maiores, aqui faço uma vida mais a pé e gosto muito da liberdade e independência que tenho em Lisboa. Moro no mesmo local desde que viemos para cá. Já temos a senhora do café, a senhora da lavandaria e já tenho amigos no bairro, e como nem todos acompanham a minha carreira, falo com muita gente que não sabe o que faço. Tenho apreço por essa chance de existir do zero, é mais simples para refazer certos vícios de vida".

Recorda ainda como Portugal mudou nos últimos 10 anos e como o conhecimento dos brasileiros de Portugal também mudou. "Quando viemos, em 2013, era meio exótico no Brasil dizer que vivíamos em Portugal, hoje é diferente. Há um maior conhecimento e uma maior ligação com o país". E, de certa forma, o mesmo acontece em lado contrário, explica. "Gosto que cada vez mais existam brasileiros a morar em Lisboa. Consigo encontrar um amigo brasileiro por dia na rua. E isso é bom. E já tem onde dançar forró, o samba, comer a feijoada, há todo um roteiro brasileiro em Lisboa".

Atenta ao Brasil

Com o Brasil na conversa, comenta-se a atual situação do país natal de Mallu Magalhães: "Acho que é natural qualquer brasileiro olhara para a situação atual do Brasil com tristeza. A desigualdade está a crescer, a pandemia não ajudou, os problemas políticos que tem. E fico preocupada, é o meu país e ficou muito preocupada e apreensiva. Mas também toda essa nova realidade, aqui em Portugal, fez-me estar mais atenta à política porque não dava muita atenção, e para mim foi uma aprendizagem. Mas o Brasil agora está a passar por uma situação muito complexa". "Tentar perceber e entender e votar com consciência, essa seriedade na hora do voto é muito importante, é o nosso maior recurso", diz.

Regressando à arte e à música. Mallu explica que consome bastante música portuguesa, "não só pelas amizades" que foi fazendo com artista daqui como projetos e parcerias que tem, mas também pelos projetos. Na sua lista de preferência destaca, entre outros, Branko, a Capicua, os Orelha Negra, Os Quais". A finalizar a conversa, uma transação artística: pedimos dicas do que aconselha ouvir do que se está a fazer de novo no outro lado do Atlântico. Mallu sorri e enumera o rol de dicas (para apontar), "os Gilson, uma dupla que é Outro Eu, o Leo Middeia, artista brasileiro que também vive em Lisboa, Liniker, que é fenomenal, e Bruno Capinan, que é amigo e faz uma música brasileira muito bonita".

filipe.gil@dn.pt

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