M3GAN - Olha a robô!

Eis o único filme nas bilheteiras americanas que calcou Avatar - O Caminho da Água. M3GAN, obra de terror que pode ser também uma comédia musical, sai da visão de James Wan e Jason Blum e é executado por Gerard Johnstone, cineasta que integra na narrativa o perturbante realismo dos efeitos visuais. E assim nasce uma nova personagem clássica!

Não era preciso que no fim de semana passado nos EUA este M3GAN se tenha tornado um dos mais surpreendentes sucessos populares nas bilheteiras americanas pós-covid, nem que grande parte da imprensa americana esteja embeiçada por este conto de terror de inteligência artificial. Mesmo que esta ideia de James Wan tivesse fracassado, estava na cara que esta personagem, uma boneca robô de companhia para crianças, teria logo estatuto de culto. Daqueles cultos de cultura pop que raramente aparecem. E nem é a questão de o conceito ser melhor do que o resto - é quase evidente que mesmo que fracassasse, mais tarde ou mais cedo, seria recuperado. Com esta agitação de celebração será um franchise - a Universal já oficializou a sequela.

E para provar que um filme de terror pode ser simpático está um segredo nesta junção de James Wan (cada vez mais um mago dentro do género: o que ele evoluiu desde Saw e Maligno) e do produtor Jason Blum (já celebrado no prestigiado Festival de Locarno e responsável por algum do melhor cinema de género americano recente - descobriu Jordan Peele e insistiu em M. Night Shyamalan): dinamitar as próprias regras do género: conferindo humor e a possibilidade de musical à coisa. Isso e apostar numa argumentista afro-americana sem medo do espaço "camp", a saber: um delírio que atinge uma ideia de paródia-limite e tocar em assimetrias sociais dos novos tempos da globalização na sociedade americana. A senhora chama-se Akela Cooper e já tinha escrito para Wan em Maligno.

E ela canta...

A boneca em questão, M3GAN, é um brinquedo de preço exorbitante nascido do engenho de uma engenheira robótica que experimenta o seu primeiro modelo com a sobrinha, uma criança a contas com o trauma de ter perdido os pais num acidente. Depois de emparelhar com a menina, este robô de roupas impecáveis e cabelo longo fica programado para fazer companhia, entreter, educar e, sobretudo, proteger a sua dona. O problema é que este modelo parece querer ganhar vida própria e a sua programação de inteligência artificial dá-lhe um carácter que apresenta sinais de perturbante perigo. M3GAN vai querer lutar para ter liberdade de ações e pensamentos e é a própria que desenvolve ainda mais as suas aptidões físicas (uma flexibilização que a torna veloz e mortífera) e vocais (faz uma versão de Rhianna no mínimo delirante...). E quem se aproxima do seu caminho , seja um menino bully ou uma vizinha demasiado curiosa, pode ter um final macabro. Enquanto isso, na empresa onde trabalha a sua criadora, tudo está preparado para o lançamento deste modelo, deixando crianças de todo o mundo em ânsia e toda a indústria de brinquedos a suspirar por lucros de milhões...

Barbie infernal

Se há qualquer coisa que não atiça os alarmes da originalidade, a figura desta Barbie dos infernos vale precisamente por desafiar as convenções do cliché e de todos os lugares comuns. Parece quase um picardia incandescente esse ajuntamento de referências. Talvez antecipe a bizarria de Greta Gerwig em Barbie, talvez se concretize como boutade de A.I. - Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, mas como está do lado da pop culture mais explícita não deixa de ter o seu quê de Chucky, aquele boneco ruivo que era um ai jesus para o funcional modelo de família endinheirada americana. Nesse jogo de referências, pode ainda ser uma adenda ao último Kogonada, A Vida Depois de Yang, ou a O Canto do Cisne, de Benjamin Cleary, sem nunca esquecer uma brincadeira privada com Exterminador Implacável e toda uma fonte de inspiração a partir de Frankenstein. Seja como for, por muito absurdo e leve que seja, a robô humanóide que ganha consciência é sempre uma caução mais próxima da ficção-científica do que do terror normativo. E é aí que a comédia e a subversão ganham terreno, mesmo quando o cheiro a série B propositada está sempre no ar. M3GAN é pura diversão B, com personagens adoravelmente imbecis e reviravoltas narrativas sabiamente tolas. Pelo meio, há coragem de despachar uma senhora idosa inoportuna, um patrão mal formado e um cão barulhento.

Antes do seu lançamento, soube-se que a Universal preferiu fazer uns cortes na montagem para que a classificação etária não subisse do interdito a maiores de 13, o chamado PG12, por norma, mau sinal dentro do género do horror. Pois bem, há males que vêm por bem. Na verdade, não há aqui um grafismo acentuado de sangue e violência e tal faz com que a montagem apresente situações de síntese francamente interessantes. Isto é, no mostrar menos é que está o ganho. E, convenhamos, mais vale um close-up dos olhos desta boneca a olhar no vazio do que um banho de sangue. No geral, eis um filme que faz da sua limitação de baixa arte de entretenimento um trunfo e assume a sua faceta de engenhocas. A barbárie desta Barbie robô diz-nos muito da alienação sob a qual a educação das crianças, e o seu "tempo de ecrã", nestes dias é estabelecida. Por detrás de um mero filme de terror pode nascer uma fascinante reflexão lúdica sobre a inteligência artificial do novo século.

dnot@dn.pt

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