KINO: entre Berlim, o passado, o futuro e os novos olhares femininos

A Kino - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, organizada pelo Goethe-Institut Portugal, está de regresso ao Cinema São Jorge, em Lisboa, até 2 de fevereiro. O arranque, amanhã, faz-se com O Vizinho do Lado, a primeira realização de Daniel Brühl.

Uma versão narcisista do ator de Adeus, Lenine! a viver na gentrificada Berlim Oriental pós-reunificação. Eis o ponto de partida do filme de estreia de Daniel Brühl atrás da câmara - sendo também ele quem dá rosto ao protagonista deste O Vizinho do Lado. Sem sequer mascarar o nome próprio, Daniel surge como uma estrela de cinema com uma certa obsessão pela ordem quotidiana (veja-se como compartimenta a fruta numa tigela ao pequeno-almoço ou a impecável arrumação da sua mala de viagem), que num dia fatídico, quando se prepara para a audição de um filme de super-heróis, acaba com a vida de pernas para o ar num pub da esquina... E não, a razão não será uma bebedeira. Ele entrou nesse bar, que preserva uma certa aura antiga, apenas para passar o tempo antes do seu voo para Londres. Entre ensaios de linhas de diálogo e chamadas da produção, em que exibe o seu inglês perfeito, Daniel repara no olhar fixo de um cliente sentado ao balcão. Este começa por pedir-lhe um autógrafo para logo a seguir limpar a boca com o guardanapo assinado pelo ator cheio de si.

Não muito depois ficamos a saber que esse velho barrigudo, Bruno (Peter Kurth), é vizinho de Daniel: espreita-o de uma janela do outro lado do pátio e tem uma agenda negra. Como veterano da Berlim Oriental, ele vê na celebridade plantada à sua frente - alguém que até possui um elevador privado - a personificação dos investidores responsáveis pelo despejo de famílias da ex-RDA dos apartamentos que costumavam pertencer às associações estatais de habitação. Um tópico de desigualdade social que dá ao filme de Brühl o tempero necessário para uma comédia azeda, com laivos de thriller, a desenrolar-se quase somente dentro do dito bar, numa conversa que vai assumindo um certo cansaço na última hora, quando Daniel já caiu do seu poleiro.

O formato modesto e concentrado de O Vizinho do Lado (amanhã, 19h00) é uma escolha curiosa para primeira obra, funcionando sobretudo pelo meta-humor das referências à sua própria carreira, como um filme sobre a Stasi que corresponderá ao famoso Adeus, Lenine!, uma série de detetives que lembra O Alienista, ou mesmo a tal audição para uma grande produção de super-heróis, que em tudo se assemelha ao seu vilão Zemo de Capitão América: Guerra Civil. O germano-espanhol Daniel Brühl marca assim a abertura da 19.ª edição da KINO, no Cinema São Jorge, que até dia 2 de fevereiro apresenta 15 longa-metragens, divididas em secções temáticas, todas elas com uma qualquer visão de futuro.

O Vizinho do Lado está na secção Perspetivas, que contempla primeiras e segundas obras, onde se encontram títulos como Juventopia, de Dennis Stormer, basicamente uma distopia sobre jovens que procuram permanecer numa espécie de eternidade rebelde, Toubad, de Florian Dietrich, uma comédia que envolve um ex-recluso em vias de deportação para o Senegal, ou Ivie Mais Naomi, de Sarah Blaßkiewitz, centrado numa jovem afrodescendente a viver em Leipzig, que recebe a visita da meia-irmã, residente em Berlim, iniciando-se um labor de contrastes e descoberta entre pessoas moldadas pelas respetivas cidades.

Por sua vez, na secção Visões o enfoque é no diálogo entre o passado e o futuro, com destaque natural para Fabian, de Dominik Graf (que estreou por cá no último ano e merece um segundo olhar), retrato vívido ainda da capital alemã, nos anos 1930, a partir da personagem titular, um jovem sem horizontes profissionais, à procura do seu lugar numa sociedade marcada pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, e onde se sente a decadência da República de Weimar com o nazismo à espreita. Este filme de Graf é baseado no romance autobiográfico de Erich Kästner e usa do nervosismo dos movimentos de câmara para reproduzir o espírito da época, a inquietude e hedonismo de uma geração, com um pé na contemporaneidade.

Outros casos sérios são A Grande Liberdade, de Sebastian Meise, focado na repressão da homossexualidade na Alemanha pós-guerra, com a câmara apontada a Hans (Franz Rogowski, o brilhante ator dos últimos filmes de Christian Petzold), que desenvolve um relacionamento complexo com um condenado a prisão perpétua; Caro Thomas, de Andreas Kleinert, uma crónica ficcionada do poeta, escritor e realizador da RDA Thomas Brasch; e Jumbo, de Zoé Wittock, uma coprodução francesa, belga e luxemburguesa com Noémie Merlant no papel de uma jovem tímida que se apaixona, literalmente, pela nova atração de um parque de diversões.

Finalmente, na secção Realidades o género documental é rei, e lá encontramos The Case of You, de Alison Kuhn, Walchensee Para Sempre, de Janna Ji Wonders, e Girls|Museum, de Shelly Silver, três olhares femininos, respetivamente, sobre as marcas deixadas pelo abuso sexual, a herança afetiva entre gerações de mulheres e a interpretação da arte por meninas, adolescentes e jovens, dos 7 aos 19 anos, diante de obras históricas do Museu de Belas-Artes de Leipzig. Todo um ângulo de cinema que estará também disponível na plataforma de streaming Filmin, num canal intitulado "KINO no feminino", onde todos os filmes desta edição realizados por mulheres configuram um panorama à parte.

dnot@dn.pt

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