Exclusivo Juho Kuosmanen e 'Compartimento n.º 6': "Uma comédia romântica finlandesa que não é bem romântica nem cómica"

Vencedor do Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes, Compartimento n.º 6 é a segunda longa-metragem de Juho Kuosmanen, o finlandês que sabe auscultar a sintonia humana num comboio em paisagem russa. O DN conversou com o realizador na sua vinda a Lisboa para apresentar o filme no LEFFEST. Chega nesta quinta-feira às salas.

Chamam-lhe o Antes do Amanhecer finlandês, porque retrata o encontro num comboio entre um rapaz e uma rapariga de diferentes nacionalidades. Mas as semelhanças com o filme de Richard Linklater ficam-se por aí. Compartimento nº 6, título que se segue a O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki (2016), é a prova de que na Finlândia ainda há realizadores capazes de evocar um humanismo à Aki Kaurismäki. Algo que não tem que ver com a superfície visual dos filmes mas com uma atenção às personagens. No caso, uma jovem finlandesa, Laura (Seidi Haarla), estudante de Arqueologia, e um jovem russo, Ljoha (Yuriy Borisov), que parece ter um mestrado em bebidas alcoólicas... Os dois partilham o minúsculo compartimento de um comboio que segue de Moscovo para Murmansk, e o que entre eles começa com o pé errado acaba por se ir configurando numa relação, digamos, não propriamente romântica. A Juho Kuosmanen interessa o vínculo entre dois seres que está para além da conquista amorosa. É um lugar melancólico bem lá no fundo, envolto de um longo inverno e filmado com uma ternura discreta. Um filme que assume a simplicidade e a suspensão temporal como vias para aceder àquele "sentimento de revisitar velhos diários", como nos disse o realizador.

O comboio é o lugar certo para contemplar a solidão?
É. Porque, no fundo, é um não-lugar. Não se compara a um autocarro, a um automóvel ou a um avião, onde as pessoas se sentam só à espera de chegar ao destino. Nestes comboios de longo curso, mais lentos, as pessoas estão a passar o seu tempo, o que implica que já seja uma espécie de lugar, mas não pertence a ninguém. E penso que é um espaço muito propício a este tipo de encontros porque toda a gente está na mesma situação... no mesmo comboio. Depois, quando estamos num comboio como passageiros isolados, estamos a enfrentar a solidão, estamos desligados do nosso meio - e é também por isso que não quis situar o filme no presente, mas sim algures no passado, quando não havia as facilidades de comunicação que hoje existem. De resto, a solidão é uma parte importante do filme, representa aquilo que de alguma forma liga as duas personagens... Há aquela famosa frase do início de Anna Karenina, que diz "todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira", e acho que no caso de Ljoha e Laura, contradizendo Tolstoi, eles estão infelizes de um modo muito idêntico.

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