Vinte anos de solidão no deserto de La Guajira

"Pássaros de Verão", o novo filme do colombiano Ciro Guerra, é um olhar sobre as tradições de uma família indígena Wayúu corrompida pelo narcotráfico nas décadas de 1970/80. Um épico, em estreia nas salas portuguesas, sobre os efeitos da modernidade numa cultura ancestral e supersticiosa.

Foi através d'O Abraço da Serpente, filme sobre a demanda por uma planta sagrada na Amazónia - nomeado para o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2016 -, que ficámos a conhecer o cinema do realizador colombiano Ciro Guerra (n. 1981). Nesse retrato, a preto e branco, de uma viagem alternada entre duas épocas e dois cientistas (figuras verídicas), um olhar de eminente expressão documental era atravessado por uma atmosfera onírica que provocava no espectador a sensação estranha, e pouco comum nos dias que correm, de imersão num mágico imaginário cultural e paisagístico.

Perante esta referência, não serão necessárias muitas pistas para perceber que reencontramos o mesmo tipo de entrosamento em Pássaros de Verão - título de autoria partilhada com a produtora dos trabalhos anteriores do realizador, Cristina Gallego -, em que se volta a representar uma história de base real pela via de uma linguagem híbrida, entre o gesto do documentário e uma vibração surreal do drama. Na sua génese está o boom do tráfico de marijuana, a chamada "Bonanza Marimbera" que, entre as décadas de 1970/80, arrasou as tradições e a honra de uma família indígena Wayúu (povo da região do deserto de La Guajira, no norte da Colômbia), mudando a face de um sistema de valores ancestrais. E é precisamente pela porta de entrada das práticas culturais deste clã que o filme "levanta voo" - numa das suas mais admiráveis cenas - mostrando o ritual de passagem de uma jovem, Zaida, que, depois de um período de isolamento, dança para a comunidade como sinal de que já está preparada para casar. Logo surge o homem, Rapayet, que se sente desafiado nessa dança e que acabará por trazer o veneno da modernidade para dentro da família.

Por modernidade entende-se aqui a influência da juventude norte-americana dos anos 1970, cujo apetite por narcóticos significou para indivíduos como Rapayet a oportunidade de fazer fortuna rápida, no seu caso, estabelecendo negócio com um primo, dono de uma plantação de marijuana. Isto sem saber que estava a seguir a estrada da ganância e da violência, com sentido único para a tragédia - ainda que debaixo do olho da matriarca Úrsula, a respeitada líder da família, orientadora dos destinos dos seus, através da supersticiosa interpretação de sonhos e prenúncios.

Este é então um épico moldado pelo semblante clássico da ascensão e queda, mas que no interior da sua estrutura narrativa de cinco "cantos" combina a dureza do filme de gangsters com a intensidade estética do realismo mágico. Não será por acaso que no desejo documental do olhar de Guerra e Gallego, sempre atento aos aspetos ritualísticos de uma cultura tribal, se insinua um arranjo de imagens profundamente ligadas à verve da literatura de Gabriel García Márquez (ele que evocou o folclore dos Wayúu, por exemplo, na obra Cem Anos de Solidão). E essa dimensão do poder das imagens é o que oferece a Pássaros de Verão uma especificidade garrida, para além de perfeitamente harmonizada com a banda sonora de batimento robusto assinada por Leonardo Heiblum.

Podia dar-se o caso de os referidos aspetos estilísticos do filme pesarem sobre o núcleo duro da sua matéria dramática, mas diga-se que a sensibilidade e interesse antropológico de Ciro Guerra e Cristina Gallego mantêm Pássaros de Verão sempre a meio caminho entre a carne das misérias humanas e um qualquer plano espiritual.

Classificação: *** Bom

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