Viagem à adolescência de Djodje, o príncipe da música caboverdiana

Dois anos depois de ter esgotado o Coliseu dos Recreios, o cantor cabo-verdiano Djodje esgota o Campo Pequeno.

Antes de protagonizar mais um concerto de consagração na cidade onde reside desde a adolescência, Lisboa, acompanhamos o cantor Djodje à Cidade da Praia, a terra natal à qual regressa sempre que pode e onde mostrou ao DN como tudo começou na sua carreira.

Mal o vê aproximar-se do portão, Manuel Teixeira, o porteiro do Liceu Domingos Ramos, abre os braços com um enorme sorriso, para receber um dos mais ilustres alunos que passaram pela principal escola da capital cabo-verdiana. É que apesar do sucesso, dos concertos esgotados em Portugal e Angola, das mais de cem milhões de visualizações no Youtube e dos milhares de discos vendidos, por aqui, Djodje, 30 anos e uma das maiores estrelas da afro-pop lusófona, continua a ser o mesmo rapaz de sempre, "bom aluno e muito educado", como o lembra Manuel. "O Pai foi aqui professor de ciências e a tia era diretora da escola, pelo que também não podia portar-se muito mal", diz com humor o porteiro, que ainda se lembra de o ver cantar no recreio, para os colegas. "Começou muito cedo, percebia-se que tinha jeito para a música".

No quadro de honra da escola, logo à entrada, está a fotografia da irmã mais nova de Djodje, que devia ter mais ou menos a mesma idade, quando, aos 12 anos, gravou o primeiro single, Voltar. "Esse tema foi a minha rampa de lançamento", recorda o cantor, que de um momento para o outro se viu transformado em ídolo pop entre os colegas de escola. Alguns deles esperam-no no pavilhão da escola, onde, sempre que regressa a Cabo Verde, não dispensa um jogo de vólei com os amigos e antigos colegas de equipa, no ABC, clube pelo qual chegou a ser campeão nacional. "Sou viciado em vólei", confessa.

No campo já o espera Paulo Baka Nelo, o antigo treinador, que é hoje um dos road-manager de Djodje. "Foi dos melhores jogadores de Cabo Verde, cada dia queria ser melhor e treinava muito para isso, o que era um problema para os colegas (risos), mas ao mesmo tempo já se percebia que a vida dele ia ser a música", lembra. Chegam entretanto mais amigos, que, entre fortes abraços e gargalhadas, recordam histórias desses velhos tempos. "No desporto aprendi o valor do sacrifício e do trabalho de equipa, que muito me ajudaram na minha carreira musical", afirma Dojdje, que à saída do pavilhão tinha à espera um grupo de raparigas, a dançar uma muito bem ensaiada coreografia, ao som de uma das suas músicas.

Príncipe da música cabo-verdiana

O passeio continua depois pelas Rua 5 de Julho, uma das principais artérias do Plateau, no centro histórico da Cidade da Praia. Imediatamente reconhecido, formam-se filas à volta do cantor para tirar fotos, dar um abraço ou um beijo. De vez em quando, no meio da multidão, Djodje avista uma ou outra cara conhecida, com quem troca algumas palavras mais cúmplices, em crioulo. Como acontece quando encontra o tio Jorge e a tia Gá, envolvendo-os num forte abraço. "Devo-lhes muito daquilo que sou", justifica, comovido. "Sou uma espécie de madrinha do sucesso dele, porque a primeira música que o Djodje escreveu, ainda em criança, foi para mim", diz orgulhosa. Ao lado, o tio, não se fica atrás: "Chama-se Jorge por minha causa. É como um filho para nós e não é pela música, é pela pessoa que é".

O tio Jorge é Jorge Lima, percussionista de Os Tubarões, uma das mais míticas bandas cabo-verdianas, na qual o pai de Djodje, Totó Silva, é guitarrista. A música, bem como o sangue azul da nobreza musical cabo-verdiana corre-lhe portanto nas veias, mas Djodje nunca se valeu disso e fez questão de trilhar o seu próprio caminho.

Tudo começou no bairro da Fazenda, onde vivia com os pais, no segundo andar de um pequeno prédio, com vista para um pequeno pátio. "Foi ali, naquela varanda, que nasceram os TC", aponta. Os TC - ou Tudo Cool - foram uma boys band formada em 2001 por Djodje, o irmão mais velho, Peps, o primo Ricky Boy e o amigo Dany, que à época até atingiu algum sucesso. Joshua e Edson, dois miúdos das redondezas, aproximam-se timidamente. Tal como Djodje, também eles sonham um dia em cantar para uma multidão, mas, para já, poderem fazê-lo para o seu ídolo, que lhes apareceu ali, à porta de casa, já como o realizar de um sonho.

No caso de Djodje, esse mesmo sonho começou a tomar forma ali bem perto, no Parque 5 de Julho, um enorme jardim paredes meias com o popular mercado de Sucupira, onde com aos 12 anos venceu um concurso de talentos. No júri estava Kady, a menina que no ano anterior conquistara esse mesmo prémio, hoje companheira de Djodje e mãe de Santiago, o filho de sete meses. "Percebia-se perfeitamente que ela ia ganhar, porque já tinha uma claque enorme", recorda a também cantora.

"Hoje parece mais pequeno", diz Djodje, ao olhar para o anfiteatro onde se estreou a cantar em público. O que não diminuiu são os nervos, antes de subir ao palco. "É do que mais me lembro dessa noite, porque ainda hoje sinto o mesmo, antes de começar a cantar. Mas gosto disso, é sinal que é algo importante para mim", sustenta. O pensamento é repentinamente interrompido por um coro de crianças de uma escola vizinha, rapazes e raparigas, que, ao reconhecerem Djodje, começam a cantar em coro um dos seus êxitos, com o artista a juntar-se também a eles. Horas mais tarde seriam muitos mais a fazê-lo, no Estádio da Várzea, onde atuou para cerca de 20 mil pessoas, como cabeça de cartaz de um festival que juntou alguns dos maiores nomes da música cabo-verdiana.

Lisboa, capital da afro-pop

Aos 17 anos, Djodje mudou-se para Lisboa, para estudar Tecnologia Audiovisual e Multimédia na Escola Superior de Comunicação Social. O curso, porém, não correspondeu às expetativas e mudou-se para a Restart, onde tirou um bacharelato em produção e marketing musical. Desde então que reside na capital portuguesa, uma cidade que também já considera a sua: "Adoro viver em Portugal, porque foi um país que me recebeu muito bem. Uma das coisas que mais gosto, quando viajo de avião, é aterrar em Lisboa. Sinto-me mesmo a chegar a casa".

Muitos dos seus fãs são também portugueses, como se comprovou há dois anos, quando esgotou o Coliseu dos Recreios. Tal como se prepara para fazer novamente já este sábado, em mais um espetáculo em Lisboa, desta vez no Campo Pequeno, onde contará com alguns convidados "e amigos", como o angolano Anselmo Ralph, os são-tomenses Calema ou o português Jimmy P, todos eles estrelas da afro-pop lusófona que nos últimos anos conquistou o público nacional. "Como canta o Dino Santiago, no tema Nova Lisboa, a cidade tornou-se num ponto de encontro para artistas de todo o mundo lusófono. Diria mesmo que é a nossa casa comum, pela ligação que todos temos a Portugal", defende Djodje, recordando uma conversa tida "há cerca de seis anos", com Dino Santiago, durante um voo entre a Cidade da Praia e Lisboa. "Ele não compreendia porque é que a Kizomba ainda não tinha conquistado as rádios e as televisões portuguesas, quando era óbvio que já era um dos estilos mais populares no país. Respondi-lhe que ia acontecer em breve e o tempo acabou por me dar razão".

Djodje deu-se a conhecer em 2006 e desde então já editou três álbuns, nos quais se incluem êxitos como Não Vai, Dói Demais, Vamos Fugir (em dueto com Cuca Roseta) ou A Fila Anda (com Jimmy P), que o transformaram numa das maiores estrelas da afro-pop lusófona.

Depois de esgotar mais uma das grandes salas de espetáculo da capital portuguesa, o céu parece ser o limite, mas Djodje prefere pensar de outra forma. "Atuei no Coliseu, agora vou ao Campo Pequeno e entretanto já há quem me fale da Altice Arena, mas cada coisa tem o seu tempo e agora apenas quero aproveitar ao máximo este concerto. Quando era mais novo sofria muito por antecipação, porque queria tudo no imediato, mas sempre tive pessoas com os pés bem assentes no chão à minha volta, que me deram bons conselhos. Estou muito orgulhoso do meu percurso e isso também me ajudou a tornar no homem que sou".

Djodje

Campo Pequeno, Lisboa

6 de abril, sábado 21.30. €15 a €40

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