Tornar o rock progressivo de novo cool

Steven Wilson está de regresso para apresentar um ambicioso espetáculo visual e sonoro, baseado no último trabalho, o aclamado To The Bone, que se tornou no disco de maior sucesso deste músico, antigo líder dos Porcupine Tree.

Em tempos apresentado como "o artista britânico de maior sucesso de quem nunca se ouviu falar", Steven Wilson é uma estrela discreta, que nem as mais de três décadas de carreira conseguiram transformar num astro rock. E tinha tudo para o ser, quanto mais não fosse pelo seu trabalho nos Porcupine Tree, a banda que fundou em 1987 e na qual foi guitarrista, vocalista, principal compositor até 2010, conseguindo a proeza de tornar o rock progressivo em algo novamente cool.

O rótulo ficou-lhe desde então colado e muito embora o aceite, é demasiado redutor para resumir o trabalho deste multi-instrumentista, vocalista, produtor e compositor londrino, que aos 51 anos ostenta no currículo cerca de cinquentas discos editados, várias nomeações para os Grammy e colaborações com gente tão diferente como Anathema, Opeth, Roxy Music, Yoko Ono, Anja Garbarek ou Dream Theater, entre tantos outros.

É no entanto no seu trabalho a solo que mais se sente realizado, como revela nesta entrevista ao DN, na qual fala sobre a constante necessidade "de fazer coisas novas e diferentes", nem que para isso tenha de "perder alguns fãs mais antigos". Desde 1999 conta com cinco discos em nome próprio, nos quais vagueia por estilos tão diversos como o rock psicadélico, o heavy-metal, a eletrónica ou o jazz. No mais recente trabalho, To The Bone, editado em 2017, juntou a tudo isto também uns salpicos de pop, que alargaram a sua imensa base de fãs a territórios ainda mais mainstream. O álbum tornar-se-ia no mais vendido de sempre da sua carreira, alcançando o terceiro lugar na tabela de vendas do Reino Unido e Steven Wilson foi mesmo "obrigado" a prolongar a digressão de promoção do mesmo, que agora volta a passar por Portugal "com um espetáculo muito mais rodado".

Entre os Porcupine Tree, colaborações com outros artistas e a carreira a solo, já editou mais de 50 discos, mas nunca nenhum outro tinha atingido o sucesso de To The Bone, qual foi o segredo?

Não faço ideia porque é que, para o público, há discos que são melhores que outros. O que me preocupa, enquanto estou a compor, é tentar perceber se me sinto, ou não, orgulhoso com o meu trabalho. Aliás, esse deve ser sempre o único critério, para todos os artistas, seja de que áreas forem. Quando trabalhamos a pensar no que o público vai pensar, é meio caminho andado para tudo correr mal (risos). Este é de facto um álbum mais direto e acessível, em comparação com os meus primeiros trabalhos a solo e talvez por isso tenha chegado a mais gente.

E pelos vistos continua a chegar, pois foi obrigado a prolongar a digressão deste disco mais um ano...

Sim, é um disco que, ao contrário dos anteriores, continua a vender e a chegar a cada vez mais gente, até a pessoas que nunca antes tinham ouvido falar de mim.

Não temeu correr o risco de alienar a sua base inicial de fãs, que lhe é bastante fiel, ao fazer um álbum mais pop?

De certa forma sim, mas foi um risco calculado, porque apesar do choque inicial, se o álbum tiver qualidade, como creio que tem, eles acabam por chegar lá também, embora se calhar um pouco mais tarde (risos). Quando edito um disco espero sempre conseguir novos fãs e também já sei que vou perder alguns. Na verdade, gosto de incomodar os fãs mais antigos, porque é sinal que estou a fazer coisas novas e diferentes. Grandes artistas, como o David Bowie ou Neil Young, também nunca fizeram um disco igual. A mudança é o melhor da vida, porque é que não o haverá de ser também na música?

Essa capacidade de mudar está bem patente na sua música, que a cada disco vagueia sempre por novos territórios, do jazz ao heavy-metal. O que é o que inspira na hora de compor?

Toda a música que ouvi, todos os livros que li, todos os filmes que vi. Tudo isso faz parte do meu ADN enquanto artista. Não consigo ver a arte como algo estanque e portanto muito menos compreendo essa questão dos estilos musicais. Foi algo que aprendi logo em criança, com os meus pais, que tanto ouviam Frank Sinatra, Pink Floyd ou Donna Summer. E como músico também sou assim. O meu único objetivo é apenas fazer algo excitante e desafiante, de preferência sem me repetir.

Há no entanto um rótulo que lhe ficou para sempre colado, desde o tempo dos Porcupine Tree, o do rock progressivo. Como é que encara isso?

Percebo que isso aconteça, muito embora eu nunca tenha definido a minha música dessa forma. Acima de tudo porque é um rótulo que hoje já não faz muito sentido, uma vez que significa exatamente o contrário do que deveria, inicialmente.

Como assim?

Por exemplo, devido a essa colagem ao rock progressivo, acabo por receber muitas demos de bandas a tentar fazer exatamente o mesmo que os Genesis ou os Yes faziam nos anos 70. Ora para se ser progressivo é preciso fazer algo diferente, como esses grupos faziam na altura e não continuar a repetir o mesmo, passados mais de 40 anos. Hoje é no hip-hop e na música eletrónica que se estão a fazer as coisas mais interessantes, em termos de inovação musical. É a esses artistas que deve ser colado o rótulo de progressivos.

Foi eleito um dos melhores guitarristas rock do mundo, mas consta que nem gostava muito desse instrumento, é verdade?

Sim, quando era pequeno tive aulas de guitarra e odiava, só mais parte, no início da adolescência é que voltei a tocar. De qualquer forma, quando comecei a tocar mais a sério, nunca pensei em mim como um guitarrista. Ainda hoje não me vejo assim.

Como se vê então?

Como uma espécie de maestro, que é uma mistura de músico multi-instrumentista, produtor e compositor. É ambicioso, eu sei, mas foi por essa razão que aprendi a tocar um bocadinho de tudo. Mas guitarrista não sou, até porque não tenho essa relação íntima com o instrumento, que todos os guitarristas têm. Não ensaio muito, a não ser que seja necessário. E se tiver de passar um ano sem pegar numa guitarra fico muito feliz (risos).

Além de músico tem também um carreira paralela como produtor, que já o levou a trabalhar com gente tão diversa como Opeth, Roxy Music ,Yoko Ono, Anja Garbarek ou Anathema...

Sim, mas isso tem tudo a ver com o que disse anteriormente, de estar sempre a procurar por desafios diferentes. E, enquanto músico, também aprendo muito nesse processo, pois tento sempre trazer algo desses artistas para a minha música.

Demorou muito tempo para vir tocar a Portugal, mas agora tornou-se numa visita habitual. Ainda no ano passado cá esteve e agora está novamente de regresso.

As pessoas têm de perceber que, para irmos tocar a qualquer país, temos de ser convidados por um promotor local. Quando aí fomos pela primeira vez percebemos logo que tínhamos uma base de fãs muito forte, que conhecia muito bem as músicas, apesar de não vendermos muitos discos em Portugal (risos). Ainda recentemente estive a tocar na Índia, onde também não vendi qualquer disco, numa sala lotada com capacidade para 12 mil pessoas e toda a gente cantou as letras do princípio ao fim. Por vezes esquecemo-nos que a internet chega hoje a toda a gente.

E que diferença há entre este concerto e o de há um ano?

É o mesmo concerto, mas vai ser completamente diferente. Há um ano iniciámos em Lisboa a digressão europeia e tínhamos apenas três semanas de ensaio quando tocámos. Estava bastante nervoso na altura, embora as pessoas não tenham percebido (risos). Estou agora muito mais confiante e por isso vai ser bom reencontrar-me com os fãs portugueses, com o espetáculo muito mais rodado. Vai ser um concerto muito longo, com bastantes efeitos visuais e som quadrifónico, no qual, além de tocarmos os temas do último disco, vamos também fazer uma retrospetiva dos meus 20 anos de carreira.

​​​​​​​ Steven Wilson

Sala Tejo do Altice Arena, Lisboa. dia 15, terça-feira, 21.00. €24

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