The Gift na Aula Magna: "Há 20 anos, a esta hora, estávamos a ficar cheios de nervos"

Horas antes do concerto desta quinta-feira na Aula Magna, Nuno Gonçalves recorda o espetáculo "mítico" de há 20 anos e antecipa o que podem esperar todos aqueles que vão hoje à mesma sala, em Lisboa.

Há 20 anos, os Gift subiram ao palco da Aula Magna, em Lisboa, para um concerto que ficaria registado no imaginário da banda - e do público que ali foi e da comunicação social da época - como "mítico". Seis, sete meses antes, com Vinyl o álbum de estreia de 1998, a banda de Alcobaça tinha tido uma estreia menos apoteótica em Lisboa.

Agora, 20 anos depois, Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro regressam a uma sala onde voltaram outras vezes para apresentar o novo disco Verão, acompanhado de uma revisitação de Primavera. Apesar do tempo, esta quinta-feira à noite é do Verão que vamos ter notícias.

Horas antes do concerto desta quinta-feira na Aula Magna, Nuno Gonçalves recorda ao DN que "há 20 anos, a esta hora, estávamos a ficar cheios de nervos". Hoje em dia, olhando para esses dias, o músico explica, numa breve conversa com o DN, o que mudou desde então - e o que se pode esperar hoje. (E nos próximos dias 12, na Casa da Música, no Porto, e 17, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.)

Vinte anos depois, este regresso à Aula Magna é um marco?

Sim, é um marco importante. É a uma sala a que já voltámos outras vezes, ao longo destes 20 anos, não é um regresso em primeira mão. Pontualmente visitámo-la, na altura do Film (2001) e do AM-FM (2004), e deu-se o acaso deste disco, deste Verão, ser 20 anos depois dessa mítica noite, que para muitos foi o espoletar dos Gift. Há 20 anos estávamos a esta hora a ficar cheios de nervos.

Para quem não esteve, como é que descreveria o concerto?

Ainda ontem, a Sónia partilhou uma reportagem desse espetáculo e vi o alinhamento que tínhamos tocado. Tínhamos dez canções de alinhamento, mais cinco de encore e no final repetimos o single da altura, o OK! Do You Want Something Simple? - e houve uma explosão de alegria com uma invasão do palco. O concerto ficou marcado por esse momento final, por essa explosão e por esse público.

Na altura era um espetáculo bastante ambicioso. Era uma banda que, na última vez que tinha tocado em Lisboa, tinha sido no São Luiz seis ou sete meses antes, e não tinha esgotado, tinha sido um concerto cheio, mas não tinha sido apoteótico. Foi o lançamento do Vinyl. E seis meses mais tarde esgota uma sala grande em Lisboa, sem nenhuma máquina por trás, sem nenhuma editora, sem nenhuma produtora, e foi sobretudo com isso, com a música dos Gift, e acho que isso é que é notável nesta história!

Uma banda que não era de Lisboa - e isto hoje é muito importante de focar, porque vivemos outra vez muito o que vivíamos nos anos 90: ou vens de Lisboa ou não prestas para nada, ou pelo menos como não te conheço muito bem não sei até que ponto é que vales assim tanto, o que ainda é pior. Esta banda esgota uma sala mítica em Lisboa - e a partir daí as dúvidas ficaram dissipadas. Os Gift marcaram muito mais concertos, tiveram muito melhores críticas, tocaram muito mais na rádio, em seis meses foi uma ascensão apoteótica.

O alinhamento ainda não está definido. Até que ponto se podem esperar por surpresas?!

Gosto muito deste espetáculo porque estamos a fazer uma coisa que quase nunca fizemos. Nós nunca preparamos o alinhamento, o alinhamento é feito entre o ensaio do som e o espetáculo, é feito por mim e é decidido quase de forma impulsiva, consoante o que acho que vão ser os momentos altos e baixos do espetáculo.

Desta vez como também temos esta missão de tocar em revisão o álbum Primavera e o álbum Verão, temos um conjunto de canções forte e intocável destes dois discos. Por um lado, estamos muito excitados por tocar as coisas novas, por outro lado, muito excitados também e motivados por conseguirmos voltar a este disco [Primavera, 2012], que infelizmente não teve espaço no alinhamento ao longo destes anos, porque é um disco bastante solene, feito para teatros, não é para praças ao ar livre, com 10 mil ou 15 mil pessoas a ver. É mais calmo, mais sereno, este é o mote forte do espetáculo.

Uma banda como os Gift já não tem muito a provar, mesmo a nós próprios, interessa-nos essa ideia calma e serena de apresentar as canções. É um espetáculo muito bonito, muito belo, com uma interação muito frágil entre o vídeo e a música que fazemos, com um convite para respirar, numa altura em que tudo é rápido, tudo tem que ser dançável e imediato. Agrada-me imenso. Há uma eletrónica muito mais pausada, relaxada.

Também é um concerto tecnicamente difícil para todos os músicos. Não é fácil juntar todas estas coisas em palco, temos vibrafones, um órgão de fole, o piano sempre presente, muitas vozes, uma bateria muito pouco convencional, que tem muitos samples a disparar, uma guitarra clássica...

Há um trabalho só vosso ou contam com a colaboração de outros?

Contamos com a colaboração de mais três músicos, o Mário Barreiros, o Paulo Praça e o Israel Pereira na guitarra clássica. Acho que o sucesso de uma banda hoje em dia é não haver uma especialização de cada músico: não podes tocar numa banda e ser só baixista ou só guitarrista. Esta ideia de circular por vários instrumentos acaba por ser interessante e estimulante.

E contam revisitar Vinyl, à passagem dos 20 anos?

Não creio, os Gift nunca foram uma banda a olhar para trás, nunca na vida olhámos para trás. Inclusive nesse concerto há 20 anos estreámos uma música, que faria parte do Film em 2001. Gostamos mais de olhar para a frente, não temos essa paixão de nostalgia de revisitar muita coisa, mas não sei ainda. Estamos muito contentes com este disco, por isso não faz sentido roubar tempo ao alinhamento. Na Aula Magna, é preferível apostar em coisas novas, como Vulcão, Lowland ou até Sol.

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