Tarantino espanta Cannes e pode sonhar com a Palma

Era uma Vez...em Hollywood confirma-se como filme-evento desta 72ª edição do festival. Um Tarantino em estado de graça. Chega a Portugal em agosto.

Antes do visionamento de imprensa do aguardado Era uma Vez em...Hollywood, Quentin Tarantino pediu ao festival para informar a imprensa que ele e a Sony ficariam felizes se nos textos não fossem revelados alguns dos elementos chave do filme. Tarantino tem razão: o espetador que entrar nesta epopeia sobre Hollywood em 1969 sem "spoilers" sairá feliz.

O que se pode para já dizer é que este é o seu filme mais desconcertante, uma estonteante mistura de géneros, evocações, colagens e homenagens que tomam o pulso ao fim de uma era em Hollywood ao mesmo tempo que joga com a ideia de juntar o imaginário da seita de Charles Manson e a presença de Sharon Tate no cinema americano.

Uma crónica violenta e iconográfica que relata o percurso de uma estrela de westerns televisivos, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio de novo perto da mais absoluta perfeição) e do seu duplo, Cliff Booth (Brad Pitt sublime numa certa encarnação de um figura de masculinidade americana), ambos a tentar a ascensão na sua carreira. Acima de tudo, sem revelar muito, pode-se dizer que Era uma Vez em...Hollywood é de um engenho narrativo tão imaculado que dentro da própria obra de Tarantino faz figura de experiência no limite, brincando com linhas de fuga da sua marca de diálogos.

Violento, iconográfico e sempre com inflexões estilísticas capazes de deixar qualquer um perplexo, Era uma Vez...em Hollywood só é previsível numa coisa: ser a carta de amor do seu realizador a uma era em Los Angeles. A dada altura, estamos perante cinema reinventado e ficção televisiva "pulp" reencenada, com direito à habitual banda-sonora "vintage", desta vez com permissão de "jukebox" através sequências de estrada-fora para rimar com um certo imaginário californiano.

Mais do que nunca, é Tarantino a fazer cinema para amantes da cultura pop e do seu próprio cinema. Mas é tudo feito a partir de uma cerimónia tão evocativa que se torna comovente e chocante. Once Upon a Time in Hollywood talvez esteja ainda à frente do seu tempo - aqui em Cannes os aplausos da imprensa foram tímidos. É objeto para digerir...

25 anos depois de Pulp Fiction, está aqui uma bela Palma de Ouro (mesmo apesar do colossal Dor e Glória, de Pedro Almodóvar). Haja coragem para premiar aquele que é talvez o seu filme mais radical!

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