Russell Crowe engorda e levanta a voz para ser o magnata da Fox News

Estreia esta quarta-feira na HBO a minissérie "The Loudest Voice". Um retrato do polémico fundador da Fox News, Roger Ailes.

"As pessoas não querem ser informadas, querem sentir-se informadas." Palavras do empresário guru dos media Roger Ailes (1940-2017), perante uma audiência muda de colaboradores, quando a existência da Fox News no panorama americano era apenas uma questão de meses. Palavras, claro, com ressonância, que fazem chamada direta para a cultura das notícias falsas em voga no nosso tempo: não terá sido esta figura incontornável da indústria mediática um dos pioneiros dessa perversa lógica jornalística? A série The Loudest Voice, enquanto olhar detalhado sobre a estratégia de Ailes, responde de modo afirmativo.

Ao longo de sete episódios, cada um aglomerando eventos relativos a um único ano, a minissérie realizada por Kari Skogland, e escrita por Tom McCarthy (autor e realizador de O Caso Spotlight, que ganhou o Óscar de Melhor Filme) e Alex Metcalf - a partir da biografia assinada por Gabriel Sherman -, encontra o seu peso pesado (literalmente) em Russell Crowe, cujos arregalados olhos azuis distinguimos debaixo de látex e uns quilos a mais, à imagem maciça de Ailes. Ele é o epicentro de tudo, o cão raivoso com a "voz mais alta", como diz o título, que aproveita qualquer momento para se impor através desse volume.

Foi também assim, ao jeito do golpe de personalidade do seu fundador, que o jornalismo venenoso da Fox News se tornou uma arma poderosa por detrás do partido republicano. Essa tomada de posição política está, de resto, patente logo no primeiro episódio - que faz a crónica de 1995, o ano em que se preparava o lançamento do canal - quando Ailes afirma a necessidade de se contrariar o dominante jornalismo de esquerda com algo que dê às pessoas "o que elas querem, mesmo que elas não saibam o que querem" (outro dos seus vários ensinamentos de pacotilha).

Assim nasceu um canal televisivo de orientação conservadora, regido com paranoia e mão de ferro por Ailes, que mais tarde viu no trágico 11 de setembro - abordado pela Fox News com visceralidade macabra - uma oportunidade política para cimentar a relação com o partido, enquanto veículo ideológico. E nesse instante entra no jogo outra figura corpulenta: o então vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney, personalidade retratada no último filme de Adam McKay, que levou Christian Bale a uma das suas mais radicais transfigurações para um papel. De facto, é impossível olhar para este Roger Ailes de Crowe sem pensar automaticamente na interpretação recente de Bale. Não apenas pela óbvia proeza de ambos os "bonecos" humanos, inchados e bem maquilhados, mas porque os dois representam o génio maligno que se infiltrou no sistema, tirando dividendos dele.

Quem é, em suma, Roger Ailes? Um homem de brilhantismo sombrio que foi capaz de erguer uma forte rede manipuladora, ficando também conhecido - para além da agressividade e pressão psicológica que colocava sobre os seus colaboradores - por casos de assédio sexual, cujo estalar do escândalo, em 2016 (antes do de Harvey Weinstein), levou à sua queda do lugar de CEO da Fox News. Morreu um ano depois.

Pela sugestão dos primeiros episódios, pode dizer-se que The Loudest Voice oferece uma perspetiva mais concentrada nos pormenores históricos da ascensão de Ailes, na aplicação do seu sistema de princípios e ideias, do que propriamente numa substancial linha dramática. Daí que algumas personagens possam surgir meio apagadas neste processo, como é o caso da mulher do magnata, interpretada por uma discreta Sienna Miller. Já os momentos que refletem a dinâmica no interior da redação, ou mesmo no gabinete, são aqueles que dão conta do melhor da escrita de Tom McCarthy. A saber, o modo como o realizador e argumentista de Spotlight vê o trabalho em equipa (neste caso tomado por uma liderança obstinada) e procura na atmosfera jornalística a energia própria do retrato.

À parte disso, e no fim de contas, é Russell Crowe quem dita as regras sobre a sua própria personagem. Ainda que o fardo de produção e maquilhagem lhe estreite bastante os movimentos, há uma expressividade que vem de dentro e tenta falar "mais alto" do que a imagem apertada do boneco, claramente a piscar o olho aos prémios...

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