Quando Bob Dylan deu música ao western

O clássico Pat Garrett & Billy the Kid: Duelo na Poeira é exibido neste domingo, no CCB. O último western assinado por Sam Peckinpah, com James Coburn, Kris Kristofferson, e o toque musical de Bob Dylan.

Há quanto tempo não se ouvia falar de um filme de Sam Peckinpah? O regresso de Pat Garrett & Billy the Kid: Duelo na Poeira (1973) ao grande ecrã vem recordar-nos, em boa altura, que a história do cinema americano não se faz só de glórias e estatuetas douradas, mas também de obras inicialmente mal-amadas, nascidas de contextos conturbados, cuja grandeza artística o tempo laborou no reconhecimento geral.

No caso, atribulações foi mesmo o que não faltou à volta deste assombroso último título da trilogia informal revisionista do western de Peckinpah (ao lado de Os Pistoleiros da Noite e A Quadrilha Selvagem), a provar que Hollywood não se revelou propriamente a terra dos sonhos para muitos realizadores.

A lendária amizade de Pat Garrett e Billy the Kid - o primeiro, um antigo criminoso feito xerife, o segundo, um jovem pistoleiro -, ameaçada por um país dominado por barões ladrões, faz parte de um forte imaginário americano que tocou Peckinpah de modo particular. Fascinado como era pelos seres humanos derrotados, aqueles que passam a vida a destruir-se, o cineasta andou quinze anos a idealizar um filme que retratasse esse seu fora-da-lei predileto, Billy the Kid. Entenda-se: não por puro romantismo cinematográfico, mas porque a condição do fora-da-lei era qualquer coisa que assumia para si como filosofia de vida, entre o alcoolismo severo e o consumo de drogas que tornaram algumas rodagens verdadeiras experiências radicais para os atores e equipa técnica. A deste filme conta-se entre as mais marcantes, com um travo de decadência que se refletiu brilhantemente no próprio tecido dramático.

Ora pode dizer-se que o profundo tom elegíaco de Pat Garret e Billy the Kid deve bastante ao que se passou nos bastidores. A começar, Sam Peckinpah travou uma luta séria com a MGM, que fez de tudo para o impedir de realizar o filme que tinha na ideia, cortando orçamento, tempo de rodagem e, por fim, contrariando a sua edição original. O próprio ambiente no set tornou-se complexo, com o realizador sob efeito constante de várias garrafas de whisky, a dificuldade de se trabalhar com câmaras defeituosas e, qual cereja em cima do bolo, uma contratação inesperada... Bob Dylan é aqui o nome que surge não só responsável pela banda sonora (tirando o lugar ao colaborador frequente de Peckinpah, Jerry Fielding, que se mostrou ofendido) como integra o elenco numa espécie de simbolismo abstrato: "Quem és tu?", lança-lhe o Pat Garrett de James Coburn, "Boa pergunta", responde. Assim se apresenta Dylan no filme em que, literalmente, não sabe muito bem o que está ali a fazer. E no entanto, a combinação dessa presença com as melancólicas notas musicais que revestem a obra faz todo o sentido - se dúvidas houver, ouça-se e veja-se Knockin" on Heaven"s Door a amparar a morte à beira do rio Pecos:

Para que conste, até a circunstância em que Dylan e Peckinpah se conheceram é um insólito fragmento do melhor cinema, relatado pelo argumentista Rudy Wurlitzer. Foi ele quem levou o jovem músico ao quarto do cineasta numa noite em que ali o encontraram nu em frente a um espelho completamente estilhaçado pela bala do revólver que tinha na mão... Este mesmo episódio real foi transposto para o filme, na cena em que Pat Garrett atira uma bala ao espelho do quarto de Billy, porque não suporta a imagem do homem em que se tornou. Vejamos: tanto a personagem de Garrett como Peckinpah, não queriam matar Billy - o realizador chegou inclusive a pedir para se alterar o argumento -, e toda a balada dolorosa que é a progressão do filme, culmina nesse gesto de abater o próprio reflexo.

Acabou por ser um pouco de toda esta loucura atrás das câmaras que adensou a fibra do magnífico western de "Bloody" Sam (famosa alcunha de Peckinpah). Magnífico porque se constrói como um lamento moderno dentro das linhas clássicas do género, onde tudo o que mexe morre, com manchas de sangue de um vermelho garrido a mostrar a devastação como vibrante quadro humano. Duelo na Poeira, o título português, sublinha essa jornada de violência da caça ao homem, intercalada pelos momentos de protagonismo suave de Kris Kristofferson como Billy the Kid, e a expressão dura do veterano James Coburn, a deixar-se carregar aos poucos pela angústia magistral que toma conta da derradeira sequência, debaixo de um céu noturno enevoado. É como se essa última noite romântica de Billy, passada na cama com a mulher que ama (interpretada pela própria esposa Rita Coolidge) pudesse redimir todas as mortes acumuladas até ali, de ambas as partes. E Pat Garrett espera à porta do quarto, com um respeito simultaneamente dorido e frio.

Tudo isto é de uma beleza embriagante. Um comovente adeus ao western por Sam Peckinpah, para (re)descobrir no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, na sua versão digital restaurada - aquela que respeita as indicações iniciais do cineasta, e que, em 1988, fez redescobrir esta obra à luz do seu autor.

Pat Garrett & Billy the Kid: Duelo na Poeira

Sam Peckinpah

Centro Cultural de Belém

Domingo, 16.00

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ferreira Fernandes

Conhecem a última anedota do Brexit?

Quando uma anedota é uma anedota merece ser tratada como piada. E se a tal anedota ocupa um importante cargo histórico não pode ser levada a sério lá porque anda com sapatos de tigresa. Então, se a sua morada oficial é em Downing Street, o nome da rua - "Downing", que traduzido diz "cai, desaba, vai para o galheiro..." - vale como atual e certeira análise política. Tal endereço, tal país. Também o número da porta de Downing Street, o "10", serve hoje para fazer interpretações políticas. Se o algarismo 1 é pela função, mora lá a primeira-ministra, o algarismo 0 qualifica a atual inquilina. Para ser mais exato: apesar de ela ser conservadora, trata-se de um zero à esquerda. Resumindo, o que dizer de uma poderosa governante que se expõe ao desprezo quotidiano do carteiro?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A escolha de uma liberdade

A projeção pública da nossa atividade, sobretudo quando, como é o caso da política profissional, essa atividade é, ela própria, pública e publicamente financiada, envolve uma certa perda de liberdade com que nunca me senti confortável. Não se trata apenas da exposição, que o tempo mediático, por ser mais veloz do que o tempo real das horas e dos dias, alargou para além da justíssima sindicância. E a velocidade desse tempo, que chega a substituir o tempo real porque respondemos e reagimos ao que se diz que é, e não ao que é, não vai abrandar, como também se não vai atenuar a inversão do ónus da prova em que a política vive.

Premium

Marisa Matias

Penalizações antecipadas

Um estudo da OCDE publicado nesta semana mostra que Portugal é dos países que mais penalizam quem se reforma antecipadamente e menos beneficia quem trabalha mais anos do que deve. A atual idade de reforma é de 66 anos e cinco meses. Se se sair do mercado de trabalho antes do previsto, o corte é de 36% se for um ano e de 45%, se forem três anos. Ou seja, em três anos é possível perder quase metade do rendimento para o qual se trabalhou uma vida. As penalizações são injustas para quem passou, literalmente, a vida toda a trabalhar e não tem como vislumbrar a possibilidade de deixar de fazê-lo.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

O planeta dos sustentáveis 

Ao ambiente e ao planeta já não basta a simples manifestação da amizade e da esperança. Devemos-lhes a prática do respeito. Esta é, basicamente, a mensagem da jovem e global ativista Greta Thunberg. É uma mensagem positiva e inesperada. Positiva, porque em matéria de respeito pelo ambiente, demonstra que já chegámos à consciencialização urgente de que a ação já está atrasada em relação à emergência de catástrofes como a de Moçambique. Inesperada (ao ponto do embaraço para todos), pela constatação de que foi a nossa juventude, de facto e pela onda da sua ação, a globalizar a oportunidade para operacionalizar a esperança.