Prémios BAFTA: com Hollywood, na defesa do cinema britânico

A 72ª edição dos prémios britânicos de cinema realiza-se este domingo em Londres: entre os homenageados vai estar Thelma Schoonmaker, montadora de quase todos os filmes de Martin Scorsese.

Como sabem todos aqueles que acompanham o mundo do cinema, os Óscares de Hollywood escolhem, entre outras distinções, o melhor filme do ano e o melhor filme estrangeiro do mesmo ano. Assim acontece também nos prémios do cinema britânico, os BAFTA (sigla da entidade organizadora, British Academy of Film and Television Arts), cuja 72.ª edição terá lugar hoje, em Londres, ao fim da tarde. Se compararmos as listas de prémios, encontramos em ambos os casos as mesmas categorias principais, incluindo as quatro de interpretação (atores e atrizes, principais e secundários), a realização e o melhor filme de animação.

Poderemos, então, dizer que os BAFTA "antecipam" os Óscares? Muitas coincidências haverá, quanto mais não seja porque este ano, como é habitual, há vários nomeados presentes em ambas as listas de nomeações (com destaque para A Favorita, Assim Nasce uma Estrela, Bohemian Rhapsody e Roma). Em todo o caso, vale a pena destacar uma categoria que, obviamente, não teria sentido nos prémios da Academia de Hollywood: a de melhor filme britânico.

Dir-se-á que se trata de uma categoria criada para valorizar a produção interna. Assim é, sem dúvida. Mas com uma nuance que importa sublinhar: desse modo, o cinema britânico valoriza também o seu envolvimento em muitos títulos da produção mais poderosa em língua inglesa - entenda-se: Hollywood. De tal modo que este ano Bohemian Rhapsody e A Favorita surgem também nessa categoria.

Deparamos, assim, com as marcas muito sensíveis de um envolvimento (industrial, antes do mais) que pontua toda a história cinematográfica de Grã-Bretanha e EUA. Muito para além de qualquer noção de rivalidade, inerente a uma cultura de colaboração económica deste género, trata-se de celebrar uma velha e frutuosa dinâmica de produção. São às centenas, porventura milhares, os sinais dessa dinâmica. Afinal de contas, onde é que o nova-iorquino Stanley Kubrick concretizou a maior parte dos seus filmes? Em estúdios britânicos - por exemplo, o essencial da rodagem do 2001: Odisseia no Espaço
(1968) decorreu nos Shepperton Studios, a cerca de 30 km do centro de Londres. E O Regresso de Mary Poppins, um dos trunfos da produção Disney de 2018, onde foi filmado? Também em Shepperton.

Em boa verdade, os BAFTA, mesmo quando se confundem com um "jogo de preparação" para os Óscares, são sustentados, desde a sua criação (a primeira edição ocorreu a 29 de Maio de 1949), por um discurso de exaltação e defesa da produção audiovisual britânica, nas vertentes cinematográfica e televisiva. Este ano, a cerimónia terá como cenário o Royal Albert Hall, estando a apresentação, pelo segundo ano consecutivo, a cargo da veterana Joanna Lumley (célebre pela série de comédia Absolutamente Fabulosas).

Curiosamente, a prestigiada distinção honorária destes prémios, BAFTA Fellowship, irá ser entregue a Thelma Schoonmaker, figura cuja excecional carreira envolve a produção de Hollywood e algumas memórias especificamente britânicas. Primeiro, porque Schoonmaker é responsável pela montagem de todos os filmes de Martin Scorsese desde O Touro Enraivecido (1980); segundo, porque foi casada com Michael Powell, um dos mestres absolutos do classicismo britânico. Depois da morte de Powell, em 1990, desempenhou, juntamente com Scorsese, um papel fundamental na divulgação da sua obra, na altura quase ignorada pelas novas gerações de cinéfilos. O seu nome será citado, por certo, na noite do Royal Albert Hall.

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