"Por muito que D. Maria odeie o marquês de Pombal, não o pode odiar"

Entrevista a Isabel Stilwell, autora de uma biografia romanceada de D. Maria I, também conhecida como a rainha louca. Fala do casamento com o tio, da aversão ao marquês de Pombal, da religiosidade, da fuga para o Brasil.

D. Maria I é a primeira mulher a reinar em Portugal. Isto é visto com normalidade no processo da sua educação, quando se percebe que ela terá de subir ao trono, ou é algo que é aceite porque tem mesmo de ser, por falta de herdeiro masculino de D. José?

O seu confessor e educador acreditou sempre que D. Maria I ia ser rainha, mas a verdade é que a sua mãe, que tem quatro raparigas, continua até aos 42,43 anos a fazer promessas para nascer um rapaz. Acho que nem os pais nem ninguém na corte pretendia ter uma primeira rainha de Portugal.

A mentalidade portuguesa de meados do século XVIII não estava preparada para ter uma mulher a reinar?

Não. Não estava. E de tal maneira que há um sério problema, porque as cortes de Lamego dizem que se uma mulher casar com um príncipe ou um rei estrangeiro perde o direito ao trono. Houve ali uma questão jurídica por resolver. O que explica que, embora se tenha falado nalguns casamentos fora de Portugal, se começasse à procura de um marido dentro da própria família. Ou seja, casa-se com o irmão do pai, o tio, o futuro rei D. Pedro III.

Que era um tio 15 ou 20 anos mais velho...

Sim, sim. Nasceu em 1734 e ele era 17 anos mais velho. Mas era, de certa maneira, uma forma de não tornar possível a contestação por outros ramos que se achariam com direito também ao trono, como o duque de Lafões.

Ou seja, já estamos habituados a que nas casas reais os casamentos sejam combinados. Mas este é especialmente combinado.

Embora D. Maria tivesse uma adoração absoluta por este tio, a nós faz-nos pele de galinha, até ao fim da vida, nas cartas continua a dizer "meu tio e marido", portanto não tenta apagar o seu estatuto. Ou seja, encara isso com alguma normalidade, e o mais estranho é que vai casar o próprio filho, o filho mais velho, D. José, com uma irmã dela. A consanguinidade ali é de facto problemática. E se em Portugal não parece haver uma reação muito grande a isso, nos circuitos diplomáticos que aqui estavam era considerado um escândalo. Um escândalo que se continuasse a fazer casamentos tão consanguíneos. Tinham de ter autorização de Roma, mas Roma acabava sempre por a dar.

D. Maria nasce naquela opulência da corte do avô, D. João V, mas depois também apanha com o terramoto de 1755. O seu mundo, ainda muito jovem, muda. O próprio casamento é na Real Barraca, que significa que não foi o fausto que seria normal.

Não, não foi. Até porque o pai, o rei D. José, achava que nem se podia pedir à corte, devido aos prejuízos com o terramoto, que gastasse dinheiro em roupa e com esta festa. Depois de tragédia tão grande tudo tinha de ser o mais discreto possível.

A aversão que D. Maria I tem ao marquês de Pombal quando sobe ao trono, na chamada "viradeira", é sobretudo pela forma horrorizada como ficou com o processo dos Távoras, executados por suspeitas de conspiração, ou tem razões mais profundas, religiosas, por exemplo?

Tem causas mais profundas. Ela tem uma relação um bocadinho ambígua com o marquês. As cartas da priora da Estrela, Teresa de Melo, foram para mim a grande diferença para se conseguir olhar para D. Maria de maneira diferente da habitual. Mesmo a maioria dos seus biógrafos ainda nunca as viu ou não as cita. E o que acontece é que nós percebemos o que D. Maria pretende. Acredita que é, de certa forma, escolhida pelo Sagrado Coração de Jesus para ser rainha de Portugal. E esta força leva-a a conseguir enfrentar as suas próprias fragilidades, mas implica um programa de governo, por assim dizer, que assina com a própria Teresa de Melo. E esse programa de governo pretende tornar Portugal o reino do amor. Tem dentro dela um conflito muito grande, mesmo em relação ao marquês de Pombal - por muito que ela o odeie, não o pode odiar. E vive nesta divisão. Ela aceita a demissão do marquês de Pombal mas antes a mãe diz-lhe, com sabedoria, "não converses com ele mais do que cinco minutos, senão ele dá-te a volta". Basicamente é isto. E vai ficando aliviada por ele acabar por se afastar para Pombal. Não o desterra, é ele quem se desterra. E à medida que o processo vai avançando ela vai percebendo, e acho que ela começa a "odiá-lo" quando ele começa a dizer que não tem responsabilidade nenhuma no que aconteceu e que, desde a expulsão dos jesuítas à morte dos Távoras, todas as crueldades feitas durante o regime de Pombal, era apenas um criado que estava a servir o seu senhor.

O D. Pedro III, o marido, sabe-se que não governava de facto, mas havia gente à volta dela que a influenciava.

Havia. O marido representava, foi quase exilado pelo próprio irmão, a oposição da velha nobreza à nova nobreza de Pombal. Porque Pombal acaba por casar os seus filhos com a nobreza. Cria uns "novos-ricos" da altura contra a velha nobreza. E o marido influencia-a no sentido de lhe pedir constantemente que decida a favor dos Távoras, que os considere inocentes e que lhes restitua os bens e as honras. E portanto ela está sempre muito dividida. Mas, apesar de tudo, ele é um homem que tem uma enorme admiração por ela, não tem qualquer ambição de poder. E isso, para D. Maria, é extremamente descansativo.

Nós temos dois reis deste género, consortes, mas D. Fernando, o alemão marido de D. Maria II, todos conhecem por ter feito o Palácio da Pena e por ser um homem das artes, mas este outro rei, que é português, é muito apagado na história.

É muito apagado porque não tenta concorrer com a mulher. O que não devia ser nada fácil, arranjar um homem que não quisesse concorrer com ela. E embora queira sempre que assinem os dois: por exemplo, quando há o casamento de D. João, futuro D. João VI, com Carlota Joaquina, o embaixador espanhol tem uma birra porque assina ela, D. Pedro e depois ele. Ele em nome do rei de Espanha. E o embaixador tem uma birra no momento. E a rainha diz "não, o meu marido assina ao pé de mim". Mas assinava abaixo, e é engraçado, se reparar nos quadros em que surgem ambos, D. Maria toca na coroa - os reis portugueses desde D. João IV não usam a coroa, tocam a coroa - e D. Pedro, na pintura, tem a mão quase a chegar à coroa mas não toca. Portanto, D. Maria assume-se não como uma rainha com um rei, assume-se sim como uma rainha.

O início da loucura de D. Maria pode datar-se desde os desgostos sucessivos da morte do marido e depois do filho?

Não. Isso é que é o fascinante destas cartas de Teresa de Melo. E que a mim, como escritora, me deram uma paz de espírito muito maior. É que as pessoas falam muito da sua loucura como se fosse uma virose ou uma consequência dos desgostos. E o que nós percebemos nestas cartas, que datam de antes da aclamação, é que a rainha já está a escrever a esta amiga, confidente, carmelita - ainda não é priora da Estrela porque a Estrela só se vai fazer depois - a dizer-lhe que tem medo de ensandecer. Que tem imaginações tristes, que não tem capacidade para ser rainha. Ou seja, percebemos que esta depressão/fragilidade mental é muito anterior, o que torna ainda mais extraordinário o esforço brutal que ela vai fazendo para vencer a sua fragilidade, as angústias, como diz, a ansiedade. Percebemos agora os desgostos que tem num único ano - morre o filho herdeiro, morre a filha, morre o genro, morrem dois netos e o confessor (o marido tinha morrido dois anos antes) - mas, de qualquer maneira, isto tudo num ano, às vezes temos de dizer que tinha muita saúde mental para só endoidecer muito depois disto.

A outra tese de que ela foi completamente perturbada pelas notícias da Revolução Francesa e as decapitações de Luís XVI e de Maria Antonieta em 1793.

Não. As decapitações acontecem depois de já estar louca.

1792 é quando ela passa o governo a D. João. E as decapitações são em 1793, mas ela tem conhecimento das decapitações certamente.

Tem conhecimento de todos os alvores da Revolução Francesa, todas as notícias de França são extremamente perturbadoras. A prisão dos reis era uma coisa absolutamente...

Isso abalou as casas reais todas da Europa, não só os Braganças.

Abalou, obviamente. A própria Declaração dos Direitos do Homem, que Roma não assina e que lhe tira poderes, e depois todo o retirar de poder à Igreja, que passa a pagar impostos e que, se não faz aquilo que eles querem, é destituída das suas paróquias. D. Maria viveu isto tudo como um acelerador, com certeza, da doença mental. Perde a cabeça antes de Maria Antonieta, que era afilhada dos seus pais. Era não só próxima, via Casa de Áustria, os seus pais eram padrinhos de Maria Antonieta.

Como era a relação dela com o futuro D. João VI? Ele não era o filho criado para ser rei.

Mas é, de longe, o filho favorito. Ela tem o primeiro varão, o primeiro Bragança em 40 anos. Faz uma promessa ao Sagrado Coração de Jesus que se tiver um filho varão constrói a Basílica da Estrela. E dez meses depois dá à luz o príncipe D. José. O reino inteiro vê nascer o primeiro Bragança em décadas e não é da linha dela, feminina, é deles todos. Portanto, é um momento extraordinário. E ela vê o pequeno D. José como o Messias, o Prometido. O resultado da promessa que vai continuar o trabalho que ela vai começar.

Como é que o amor de mãe acaba por se virar para o segundo filho?

O que acontece é que D. José, o rei, e o marquês de Pombal tiraram-lhe o filho aos 7 anos e educam-no com mestres contra os jesuítas, contra a Igreja, como ela a via, com ideias que não são as suas, põem-lhe o confessor e o mestre, que era o Manuel do Cenáculo, que parece que era um homem brilhante mas de que ela não gostava e, na sua opinião, envenenam D. José. De repente tem esta contradição. Como é que tem o filho prometido pelo Sagrado Coração de Jesus e ao mesmo tempo este filho prometido, no dia em que chegar ao trono, vai voltar atrás com todo o trabalho que está a fazer.

Pelo contrário, D. João VI é muito piedoso.

Quando se lê as cartas de D. João VI para a irmã, percebe-se que ele não tem, de facto, uma educação ao nível do português, que D. José, o irmão, o mano príncipe, como lhe chamam, teve uma educação muito mais esmerada. O mano mais novo e a Mariana, que são quase gémeos, porque estão muito próximos, são o consolo da rainha. E ele vai ser um filho absolutamente exemplar. Vai herdar a indecisão dela. Vai herdar os escrúpulos. E as cartas dele são de facto de um homem bom.

E a relação com a mãe vai ser sempre de um filho que cuida da mãe até à sua morte no Brasil.

Até ao fim. E quando a mãe morre no Brasil, eu fiquei muito chocada por perceber que ele mesmo assim consultou vários padres para saber se a alma da mãe sempre estava no inferno ou não.

Aquele episódio, aquando da saída da família real para o Brasil, em 1807, em que ela diz para não irem muito depressa, para não parecer que fogem das tropas francesas...

Parece a mais lúcida deles todos.

Isso é mito ou tem alguma base real?

Não encontrei em citação nenhuma, mesmo dos embaixadores da época, não encontrei a frase. Encontrei-a sucessivamente repetida como sendo-lhe atribuída.

É credível, para si?

No epílogo conto que a Laura Junot, que é uma mulher venenosa e detestável, descreve, no diário dela, um suposto passeio que fez pela zona de Colares, pelo que se percebe, em que viu de repente uma mulher de cabelos soltos, brancos, rodeada por soldados e com uma dama. E disseram-lhe que era D. Maria. Isto foi antes antes das invasões, quando Junot era cá embaixador de França. E o que ela diz é que percebeu que alguém das damas tinha dito que era Laura Junot e que a rainha, numa fúria, cerra os dois punhos e vira-se para ela, à distância, mas com fúria. Ou seja, obviamente tinha alguns momentos de lucidez

A travessia do Atlântico com mais de 70 anos impressiona. É a primeira vez que um monarca cruza o Atlântico.

E a sua chegada ao Brasil mete dó porque ela vai nesses barcos superlotados...

E cheio de piolhos... às tantas apanham todos piolhos em alto-mar.

E com a loucura que os ingleses, que protegem a esquadra real, comentam, de se ter posto no mesmo barco não só D. Maria como D. João, que não se queria separar dela, como D. Pedro e D. Miguel. Ou seja, se aquele barco tinha ido ao fundo, tinha ido ao fundo tanto esforço para salvar a Casa Real de Bragança. Há descrições da chegada dela, primeiro à Bahia, onde é muito difícil tirá-la do barco, mas conseguem. E depois a chegada ao Rio de Janeiro, onde com o barulho dos foguetes e dos tiros de artilharia das fortalezas entra em completo e absoluto pânico e recusa-se a sair. Ainda a deixam dois dias no barco e depois voltam para a ir buscar, numa cerimónia, levam-na para a tal casa, que era o Convento do Carmo. E tem de tal forma uma crise de terror que tapava a cabeça e dizia "parem, parem, parem". D. João consegue mandar um recado e parar os foguetes e os tiros.

A vida dela no Rio até à morte, em 1816, é de uma normalidade absoluta?

A vida no Rio é basicamente confinada a estar ali com as suas damas, recebe todos os dias a visita de D. João VI. Sai para uns passeios de liteira ou com as damas...

Ela não tem também noção nenhuma de que 1815 o título dela muda, quando o D. João ainda príncipe regente cria o Reino Unido de Portugal e do Brasil?

Há várias frases em que diz "sempre rainha, Maria sempre rainha", ou "sou rainha". Ela nunca perde a ideia de rainha. Agora há uma citação de um contemporâneo que diz "a pessoa da rainha estava no Brasil, mas a cabeça dela ficou em Lisboa". Provavelmente tinha momentos de lucidez. Achei graça encontrar a expressão "Maria vai com as outras", vem do Brasil e era D. Maria que ia com as mãos das damas... coitadinha estava tonta... Maria vai com as outras.

Isabel, só para terminar, das rainhas que escreveu...

Esta foi a oitava.

Mas reinantes foi a D. Maria II e esta sua bisavó. É uma grande diferença ser consorte e ser reinante? Podem chamar-se as outras de rainhas também, mas não são a mesma coisa.

Não sei. Acho que de facto D. Maria I e D. Maria II estão noutra época diferente, mas se olharmos para a força de Isabel de Aragão, não estou a falar dos milagres, mas sim da força como rainha, a capacidade que teve de tornar D. Dinis árbitro internacional, ibérico, das contendas ibéricas, não sei se estas mulheres, mais lá para trás, não tinham um poder muito grande. Mas sim, ser rainha é ser rainha, como é óbvio. Para o bem e para o mal. Coitada desta nossa rainha.

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