Pianista Nelson Freire 'reencontra' Olga Cadaval

O mais antigo festival de música português arranca esta noite no Centro Cultural Olga Cadaval com um concerto sinfónico protagonizado pela Orquestra Gulbenkian. No total, serão 16 concertos até dia 1 de outubro.

É sob o mote "Da corte às ruas" que esta sexta-feira começa o Festival de Música de Sintra, com direção artística de Gabriela Canavilhas. E o concerto de abertura (21:30) não poderia ser mais simbólico de uma ligação às raízes deste evento: o grande pianista brasileiro Nelson Freire (n. 1944) teve em Sintra a sua primeira "morada" na Europa, quando, ainda adolescente, habitou por um período em casa da marquesa Olga Cadaval (1900-96), grande mecenas da arte e figura decisiva para a criação, em 1957, das Jornadas Musicais de Sintra, nome primitivo do Festival. Nelson Freire toca esta noite o popular Concerto de Grieg com a Orquestra Gulbenkian, sob a direção de Raphael Oleg.

A preeminência tradicional do piano em Sintra mantém-se ainda: além de Freire, atuam nesta edição outros nomes sonantes do circuito internacional, como Anna Fedorova ou Cédric Tiberghien, que protagonizam ambos recitais a solo no Palácio de Queluz, respetivamente nos dias 20 e 29; assim como nomes em ascensão, tais como a germano-russa Kristina Miller (atua com a Orquestra Académica Filarmónica Portuguesa de Osvaldo Ferreira, no dia 8) ou o chinês Xinyuan Wang, que toca a solo em Queluz a 24.

Também solista, mas no violino, a sul-coreana Soyoung Yoon, que toca o famoso Concerto de Mendelssohn no dia 21, no Olga Cadaval, com a Filarmónica Portuguesa e maestro Osvaldo Ferreira.

Estreias em vários formatos

Um destaque particular merece o concerto da Orquestra Sinfónica Portuguesa (dia 12, CC Olga Cadaval), no qual se fará a estreia moderna da obra Mattutino de morti, de João Domingos Bomtempo (1775-1842), composta e estreada por ocasião da deposição dos restos mortais de D. Maria I na Basílica da Estrela, em 1822. Trata-se de um projeto que terá continuidade em 2020 e que prevê a gravação para futura edição discográfica. Participam ainda o Coro do São Carlos e seis solistas vocais. Dirige Graeme Jenkins.

Também em estreia, mas portuguesa, a da obra O despertar de Élpis, de Anne Victorino d"Almeida (n. 1978). Uma obra cujo curso foi marcado pela Marcha das mulheres em Washington, coincidindo com a tomada de posse de Donald Trump, em Janeiro de 2017 e que a autora dedica a todas as mulheres que lutaram e lutam ativamente pelos seus direitos. A obra estreou em Brasília, em setembro de 2017.

Estreias, também, mas de conceitos, são o recital de Ana Quintans com Filipe Raposo e o espetáculo Verlaine e os músicos, idealizado por João Paulo Santos. O primeiro é a resposta da cantora à "carta branca" que lhe deu Gabriela Canavilhas: sob o título Women under the Influence (glosando o famoso filme de Cassavetes, com Gena Rowlands), Ana propõe uma viagem pelos recessos da psique feminina que nos leva num vaivém entre os séculos XVII e XX, entre a Europa e a América do Norte, entre a ópera e a canção de filme e entre o inglês, o francês e o italiano. Companheiro de viagens será Filipe Raposo, autor dos arranjos que também pontuará o recital com várias improvisações (dia 15, Palácio de Queluz). Já João Paulo Santos pôs de pé um programa que ilustra a repercussão musical que tem tido a poesia de Paul Verlaine (1844-96) nos últimos 150 anos, aí se incluindo os compositores portugueses Alfredo Keil e António Fragoso. Voz para essa viagem será a do tenor Marco Alves dos Santos (dia 25, Palácio da Vila).

Descentralizações e músicos locais

Referência ainda para o esforço de levar concertos de música clássica a locais, no concelho de Sintra, onde eles são muito raros, como Assafora/São João das Lampas ou as igrejas de Belas e de Montelavar. Na primeira localidade, realiza-se no dia 8 um concerto sinfónico (v. acima Kristina Miller) com obras de Chopin, Stravinsky e Anne Victorino d"Almeida, ao passo que nas igrejas irá atuar um trio de cordas de "ADN" russo, com Tatiana Samuil, Natalia Tchitch e Pavel Gomziakov, interpretando as célebres "Variações Goldberg", de Bach.

Músicos locais, concretamente dois coros, ver-se-ão envolvidos, no dia 28, na obra cénica Summer Sunday (de 1975), definida como uma "pastoral tragicómico-ecológica", da autoria de Joseph Horovitz (n. 1926). Será no Centro Olga Cadaval, numa noite que abre com o Mário Laginha Trio (o pianista tocará também na obra de Horovitz). Antes, no dia 15, a Orquestra de Sopros de Sintra, com o soprano Sandra Medeiros, apresenta também no Olga Cadaval os resultados de um estágio de formação para os jovens das bandas filarmónicas do concelho, num espetáculo intitulado From the World.

Música antigas

Duas propostas neste domínio, ambas marcadas para o Palácio de Queluz: Le Poème harmonique, de Vincent Dumestre (dia 18), e os Músicos do Tejo, de Marcos Magalhães e Marta Araújo (dia 27). Os primeiros levam-nos ao reinado de Luís XIII e à figura do emigrado galego(?) Luís de Briceño, pioneiro da introdução da "guitarra espanhola" (guitarra clássica) em França e das formas de dança espanholas que nela soavam. Já os segundos trazem o programa "Da corte às ruas", com árias, modinhas e aberturas portuguesas dos séculos XVIII e XIX, tendo por solistas o soprano Joana Seara e o baixo João Fernandes.

O Festival encerra no dia 1, com um concerto da Orquestra Chinesa de Macau no Olga Cadaval, no qual se assinala a dupla efeméride dos 40 anos de relações diplomáticas Portugal-China e dos 20 anos da transferência de Macau para a soberania chinesa.

54.º Festival de Música de Sintra
de 6 de setembro a 1 de outubro
em vários espaços do concelho
Bilhetes de 10 a 15 euros
Mais informação em festivaldesintra.pt