O Variações primitivo cantado como deve ter sido

Em simultâneo ao filme Variações é lançada a banda sonora com o mesmo nome, de autoria de Armando Teixeira que, com os Balla e o ator Sérgio Praia, recria a música de António Variações exatamente como ela foi no início.

Quando Armando Teixeira, 51 anos, foi desafiado a criar a banda sonora de Variações, o filme que conta a história de António Ribeiro antes de se transformar num dos maiores ícones pop nacionais, o músico começou por imaginar um trabalho mais próximo dos cânones cinematográficos. No entanto, o realizador João Maia pretendia algo diferente. O objetivo era que a música não só ajudasse a contar a história, mas também fizesse parte dela, dando-a conhecer exatamente como terá sido pela primeira vez tocada.

Para isso, Armando Teixeira, mergulhou nas famosas cassetes de António Variações, gravadas em casa ou na garagem, com os músicos amadores com que tocava. Mais do que canções, o que ali está são esboços, ideias e pequenos excertos, que Armando, na companhia dos Balla, recriou, mantendo-se o mais fiel possível ao original - ou ao "que poderá ter sido a música do António, na primeira vez que foi tocada".

O resultado disto tudo pode ser visto no grande ecrã, no filme que estreou esta semana, mas também ouvido no disco que hoje é lançado e no qual o ator Sérgio Praia também assume o papel de vocalista. Um ator que aprendeu a cantar o que já pôde ser ouvido e visto quando em julho subiu ao palco do Nos Alive para dar voz às palavras de António Variações.

O ator Sérgio Praia ainda não estava bem a acreditar no que lhe estava acontecer. "Nunca acreditei que conseguisse sequer cantar, mas com o trabalho desenvolvido fomo-nos apercebendo que o próprio filme poderia evoluir através desta dinâmica de tentativa e erro. De errar e de desafinar, do fazer e continuar a tentar, tal como António fazia", afirma Sérgio Praia ao DN.

No início, confessa, era apenas "um trabalho de ator", nunca pensou atuar um dia no Alive e "muito menos gravar um disco", mas com o passar do tempo, apercebeu-se que tinha "evoluído bastante", conseguindo criar uma voz própria, a partir da qual criou um paralelismo com o próprio António Variações.

"Este filme mostra uma fase da vida do António, a sua construção enquanto artista, num processo de autodescoberta, enquanto ensaia sozinho em casa e muitas vezes foi assim que eu próprio me senti", conta. Além de aulas com o cantor lírico Rui Baeta, o ator passou também a ensaiar quase diariamente com os Balla, "para sentir na pele o que o António terá sentido nesses primeiros tempos". Hoje, assume que tem "um compromisso com António Variações", que entretanto saltou do grande ecrã para este disco e se prolonga agora também para os palcos, com alguns concertos já marcados.

Como se refez a música de Variações

Por seu lado, Armando Teixeira mergulhou nas cassetes originais e ouviu-as até poder reconstituir o universo musical de António Variações. Em entrevista, explica como foi todo este processo de que acabou por resultar o disco com a voz do ator que personifica Variações nas telas do cinema.

Este é um disco que poderá estranhar a quem conheça as músicas de António Variações: Como é que chegaram a estas versões?

A partir das gravações originais do António Variações, as das famosas cassetes que o João Maia me fez chegar. Aquilo que existe, na maior parte das vezes, não passam de esboços de canções. Tivemos de ir buscar bocados de diversas gravações, porque o António gravava bastantes vezes a mesma canção, para construir a estrutura de cada tema como se de um puzzle se tratasse.

O que é que sentiu ao ouvir essas gravações?

Parece que a banda não está muito preocupada em fazer estruturas, imagino que fosse mais uma situação de ensaio, em que estavam todos para ali a tocar até sair qualquer coisa. Tivemos de pegar nisso e recriar as canções. Foi quase um trabalho de arqueologia, em que se parte do pedaço de um osso para se reconstruir o esqueleto completo. A partir desses excertos imaginámos o que os músicos gostavam e ouviam naquela altura, como tocavam e que caminho a canção poderia tomar. No caso do Perdi a Memória, por exemplo, só existia o início, não havia sequer um refrão. Construímos o resto a partir daquilo que conhecemos, algures entre a versão do disco, gravado anos mais tarde, já com os Heróis do Mar, pouco tempo antes de o António morrer, e aquele pequeno excerto gravado nas cassetes.

Como é que perceberam que este projeto poderia ter uma vida para além do filme?

Foi à medida que o trabalho foi avançando. Quando o João me convidou para fazer a banda sonora, pensei que seria um trabalho mais cinematográfico, com a música a servir para criar ambientes, mas o João pediu-me algo diferente. E a dada altura dei por mim a dar corpo às ideias que o António gravara na garagem, com músicos amadores, no final dos anos 70. Foi aí que percebemos a possibilidade de fazermos este projeto. Não queríamos, no entanto, ser uma simples banda de versões e por isso estas músicas são muito fiéis àquilo que poderá ter sido a música do António, na primeira vez que foi tocada.

Entretanto já atuaram ao vivo, no Nos Alive, e já têm mais datas marcadas. Como foi transpor estas músicas, criadas num contexto cinematográfico para um palco?

O que me guiou desde o início não foi fazer um concerto de best of, mas sim recriar o primeiro espetáculo do António Variações, no Trumps. Foi esse o mote que nos guiou. Foi um momento único, que apenas algumas pessoas souberam como foi. Não há qualquer gravação ou imagem desse momento. Foram aquelas músicas com aqueles arranjos e depois acabou, porque a seguir o António foi logo gravar o primeiro disco. O objetivo deste projeto é mostrar precisamente isso. O disco é a banda sonora do filme e pretende mostrar esse primeiro concerto.

Já conhecia a obra do António Variações?

Já conhecia tudo dele e isso ajudou-me imenso neste trabalho. O primeiro disco dele, Anjo da Guarda, foi muito importante para mim, mas curiosamente o Dar e Receber, que foi editado pouco tempo depois dele morrer, passou-me completamente ao lado, como aliás a toda a gente. Só anos mais tarde é que foi recuperado e foi nessa altura que também o ouvi. Mas o que estamos atentar mostrar neste disco é uma maneira completamente diferente do António cantar, muito mais direta, que depois, nos discos, acaba por ser mais polida.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.