O sexto livro da saga de Stieg Larsson pode ser o último... ou talvez não

Em vida, Stieg Larsson afirmou que o seu plano para a Saga Millennium teria um total de dez volumes. O próximo livro, A Rapariga Que Viveu Duas Vezes, está ser anunciado como o último. Golpe publicitário?

É desta vez que o fenómeno mundial que Stieg Larsson criou pode mesmo estar no fim. A saga Millennium sobreviveu à morte do autor ainda antes de a trilogia ser lançada e foi continuada por David Lagercrantz em igual número de volumes. Mas o anúncio de que este sexto livro vai ser o último da saga está a usado como frase de promoção daquela que foi uma das maiores apostas da editora sueca que ficou com o espólio do jornalista sueco, bem como de todas as que habitualmente publicam a saga em quase todo o mundo.

Em Portugal, o sexto volume chega às livrarias na próxima quinta-feira. Já tem título: A Rapariga Que Viveu Duas Vezes. Segundo as poucas informações libertadas, o sexto e último volume é uma "narrativa atual, que combina escândalos políticos e jogos de poder com novas tecnologias ligadas à genética, expedições dramáticas ao cume do Evereste, e "fábricas" de trolls que criam e difundem notícias falsas, responsáveis por influenciar resultados de eleições ou denegrir a imagem de proeminentes figuras públicas".

Adianta a editora que A Rapariga Que Viveu Duas Vezes terá um final épico, em que não faltam o humor e situações levadas ao extremo por Lisbeth Salander que, como sempre, na defesa dos seus princípios, não olha a meios nem recorre a métodos convencionais.

A protagonista deste sexto livro é, como o próprio título confirma, Lisbeth Salander. Mas, Mikael Blomkvist não desaparece apesar da rivalidade em protagonismo que tanto Stieg Larsson como o seu sucessor, David Lagercrantz, nunca conseguiram retirar à figura feminina que se tornou um elemento principal em toda a saga.

Os primeiros capítulos que o DN publica apontam a orientação da intriga deste livro. Tudo começa quando é encontrado o corpo sem vida de um sem-abrigo num dos principais jardins de Estocolmo. "Nada deixava adivinhar que se pudesse estar perante algo mais do que a trágica morte de um pobre homem mas, apesar de o corpo apresentar algumas características diferenciadoras, não foi possível confirmar a sua identidade", diz-se no início, mas a médica legista Fredrika Nyman suspeita que algo não está certo naquela morte.

É aí que Blomkvist surge, apesar de não se mostrar interessado no assunto. No entanto, há uma particularidade no passado deste sem-abrigo e quem o conhecia sabe que era alguém que tinha um tema frequente nas suas conversas, o ministro da Defesa sueco, situação que leva à desconfiança sobre as verdadeiras razões da sua morte.

Quanto a Lisbeth Salander, ausente das primeiras páginas, a sua presença é o desejo de Mikael Blomkvist. O jornalista tenta falar com ela mas ninguém sabe do seu paradeiro. "Sem ter dado satisfações a ninguém, Lisbeth ausentou-se de Estocolmo e viajou para Moscovo onde, de uma vez por todas, está determinada a ajustar contas com a irmã Camilla: desta vez será o caçador e não a presa, será o gato e não o rato", avança o resumo até agora revelado de A Rapariga Que Viveu Duas Vezes.

O último da série ou talvez não?

Quanto à restante narrativa deste alegado último livro da saga de Stieg Larsson, ela pode ser lida dentro de cinco dias em todo o mundo. Mas a grande questão é a de será A Rapariga Que Viveu Duas Vezeso sexto e último volume da série Millennium como avançou a editora sueca e a portuguesa, a D. Quixote, replica?

A primeira razão para duvidar do fim definitivo deste filão policial que abriu a porta a inúmeros escritores nórdicos para serem lidos além dos seus países é que os planos de Stieg Larsson eram de escrever dez volumes. Diz-se que ele deixou a estrutura pronta e que a sua companheira teria conhecimento - ou posse - desse esboço. Como ela foi excluída da herança, recusa-se a falar.

A segunda deve-se ao próprio autor que continuou a saga. David Lagercrantz anunciara aquando do lançamento do volume 5 que este seria o último de facto. No entanto, recentemente confessou que "nunca se pode dizer nunca", repetindo um título dos filmes de James Bond.

O que Lagercrantz disse por altura do lançamento do quinto volume foi isto: "Toda a gente sabe agora que os meus livros prolongam a obra de Stieg Larsson, o seu universo e as suas personagens. Tanto que uma nova geração de leitores descobriu com eles a obra de Larsson. No entanto, vou parar a seguir ao volume seis. O sexto já está bem avançado mas, aviso, não escreverei o sétimo."

Uma conclusão pode-se tirar das palavras de Lagercrantz: de que ter igualado o número de livros escritos por Stieg Larsson é suficiente e que quer seguir a sua carreira por outro caminho. Mas ao referir que não escreverá um sétimo, não quer dizer que daqui a uns meses a editora não revele, num ótimo golpe publicitário que faça reavivar a aura da série Millennium, a contratação de outro autor para dar vida até perfazer dez livros - como Stieg Larsson ambicionava em vida.

Pré-publicação

A Rapariga Que Viveu Duas Vezes

Por David Lagercrantz


PRÓLOGO

Naquele verão, aparecera mais um mendigo No bairro. Ninguém sabia o nome dele e, em boa verdade, ninguém se importava com isso. Um jovem casal, que passava por ele todas as manhãs, dera -lhe a alcunha de o anão maluco, o que só em parte era injusto. Não era realmente baixo em termos clínicos. Media um metro e cinquenta e quatro centímetros e era bem proporcionado. Mas parecia realmente louco e acontecia muitas vezes levantar -se e agarrar as pessoas, falando de forma incoerente.

Normalmente, sentava -se num pedaço de cartão, na praça Mariatorget, encostado ao fontanário e à estátua do deus Tor e, por vezes, as pessoas até o olhavam com respeito. A cabeça erguida e as costas direitas davam -lhe um ar de chefe índio decadente e, realmente, era o último vestígio de civilidade e a razão pela qual as pessoas ainda lhe davam moedas ou até notas. Imaginavam ver nele uma grandeza perdida e não deixavam de ter alguma razão. Houve um tempo em que as pessoas se inclinavam quando o viam.

Mas há muito que lhe haviam tirado tudo. E a mancha negra, com aspeto maligno, que tinha na cara, não melhorava a situação. A única coisa que o distinguia dos outros infelizes era a sua parka de penas, azul e cara, da marca Marmot.

Mas nem isso conseguia dar -lhe um aspeto normal, e não era só por causa da imundície que o cobria. Tinha um aspeto polar, mas em Estocolmo era verão. O calor pesava sobre a cidade, e o suor que escorria pela cara do homem incomodava os transeuntes, que ficavam a olhar para a parka como se fosse essa a razão de se sentirem incomodados pelo calor. Mas ele nunca a tirava.

O mendigo já não era deste mundo, estava perdido e não parecia constituir uma ameaça para ninguém. Mas no princípio de agosto começou a notar -se um brilho determinado nos seus olhos e, no dia 11, durante a tarde, começou a escrever com bastante dificuldade uma história intrincada em folhas A4 pautadas. Mais tarde, já de noite, colou -as, como um jornal de parede, na paragem de autocarros de Södra Station.

O conto era uma descrição alucinada de uma terrível tempestade. Ainda assim, a jovem médica estagiária Else Sandberg, que estava à espera do autocarro n.º 4, conseguira decifrar partes da introdução e reparara na menção ao nome de um membro do governo. Mas estava mais interessada em tentar fazer um diagnóstico. Talvez se tratasse de uma esquizofrenia paranoide.

Dez minutos mais tarde, já no autocarro, esquecera -se de tudo, mas ficara com uma sensação desagradável. A maldição de Cassandra. Ninguém acreditava no que o homem escrevera porque se embrulhara tanto na sua loucura, que era difícil decifrar fosse o que fosse.

Apesar disso, a mensagem deve ter passado porque, logo na manhã seguinte, um rapaz de camisa branca saiu do seu Audi azul e arrancou o jornal afixado na paragem de autocarros. Na sexta -feira, à noite, dia 15 de agosto, o mendigo foi à praça Norra Bantorget para comprar uma bebida alcoólica ilegal, e encontrou -se com outro bêbedo, o antigo trabalhador industrial Heikki Järvinen, da província nortenha de Österbotten.

- Olá irmão. Estás a precisar muito? - perguntou Järvinen.

Não obteve resposta, mas depois o outro vomitou uma longa litania que Heikki considerou ser mentira e pura gabarolice, e disse-lhe entredentes: «seu grande mentiroso de merda!», e acrescentou (mais tarde viria a admitir que não havia necessidade) que o homem mais parecia um «chinoca».

- Me Khamba ‑chen, I hate China! - gritou o mendigo numa explosão de fúria.

Com a mão sem dedos deu um soco a Heikki. Não parecia um movimento tecnicamente perfeito nem profissional, mas a violência exercida denotava uma grande autoridade. Heikki, com a boca a sangrar e a praguejar em finlandês, cambaleou na direção da estação de metro T -Centralen.

Quando o mendigo voltou a ser avistado, estava sentado no lugar do costume, muito embriagado e maldisposto. A saliva escorria -lhe da boca, e com a mão na garganta murmurava: Very tired. Must find a Dharamsala, and an Ihawa, very good Ihawa. Do you know?

Não esperou pela resposta e atravessou a Ringvägen sem olhar para os lados e logo a seguir lançou para o chão uma pequena garrafa de aguardente sem rótulo e desapareceu no meio dos arbustos e das árvores no parque Tantolunden. Ninguém chegou a saber o que se passou a seguir, apenas que chuviscara de manhã e que o vento soprava de norte. Às oito, o vento parara, as nuvens dispersaram -se e o homem encontrava -se de joelhos, encostado a uma bétula.

Nas ruas preparava -se a Corrida da Meia -Noite. No bairro havia um ar festivo. O mendigo morreu no meio de um ambiente de alegria renovada, e ninguém lhe prestou atenção nem manifestou interesse em saber que tivera uma existência cheia de aventuras incríveis, plena de atos de heroísmo e, ainda menos, que amara uma única mulher na vida e que também ela morrera numa solidão abjeta.

1.ª PARTE - OS DESCONHECIDOS

MUITOS MORRERAM SEM NOME E ALGUNS NEM TÚMULO TIVERAM.
MUITOS JAZEM DEBAIXO DE CRUZES BRANCAS, ENTRE MILHARES DE OUTROS, COMO NO CEMITÉRIO MILITAR AMERICANO NA NORMANDIA.
ALGUNS, POUCOS, TÊM DIREITO A UM GRANDE MONUMENTO, COMO O ARCO DO TRIUNFO, EM PARIS, OU O TÚMULO DO SOLDADO DESCONHECIDO NOS JARDINS DE ALEXANDRE, EM MOSCOVO.

CAPÍTULO 1
15 DE AGOSTO

a escritora iNgela dufva foi a primeira pessoa que se atreveu a aproximar -se da árvore e a aperceber -se de que o homem estava morto. Eram mais ou menos onze e meia da manhã. Moscas e mosquitos zumbiam à sua volta e o ar era fétido. Ingela Dufva não foi totalmente sincera quando, mais tarde, relatou que achara o indivíduo algo comovente.

O homem tinha vomitado e defecado. O que Ingela sentira, mais do que respeito, fora uma enorme náusea, ou talvez até receio da sua própria morte.

Os agentes Sandra Lindevall e Samir Eman também consideraram um castigo a tarefa que lhes fora atribuída.

Fotografaram o homem e examinaram a área circundante, e nem se deram ao trabalho de procurar um pouco mais longe, na encosta que dava para o caminho Zinkens Väg, para onde a pequena garrafa de aguardente, com algo que parecia ser areia no fundo, rolara. Mesmo que nenhum deles achasse que aquilo cheirava a crime, examinaram cuidadosamente a cabeça e o tórax do cadáver. Para além de uma baba espessa que lhe escorrera da boca, não viram sinais de violência nem outras causas possíveis para a morte e, depois de consultarem os seus superiores, decidiram que não era necessário isolar o local.

Enquanto esperavam a ambulância que vinha buscar o corpo, examinaram os bolsos da volumosa parka. Encontraram algumas folhas pequenas de papel vegetal, provenientes do quiosque que vendia cachorros -quentes, algumas moedas, uma nota de vinte coroas suecas, um recibo de uma loja de material de escritório na Hornsgatan, mas nenhum documento de identificação.

Mesmo assim consideraram que não seria difícil identificá -lo. Não havia falta de pormenores diferenciadores. Mas esta era, como tantas outras, uma conclusão errada. No Instituto de Medicina Legal, no subúrbio de Solna, onde o corpo foi autopsiado, fizeram -lhe raio -X aos dentes. Não encontraram correspondência nos registos, nem dos dentes nem das impressões digitais. Depois de ter enviado os vários exames para o NFC2, o Centro Nacional Forense da Suécia, a médica -legista, Fredrika Nyman - apesar de isso não fazer parte das suas funções -, resolveu que mais tarde tentaria ligar para alguns dos números de telefone rabiscados no pedaço de papel amarrotado que encontrara num dos bolsos das calças do homem.

Um daqueles números era de Mikael Blomkvist, jornalista da revista Millennium. Depois, durante algumas horas, não ligou mais ao assunto. Mas mais tarde, após uma violenta discussão com uma das filhas adolescentes, lembrara -se de que nesse ano já autopsiara três cadáveres que haviam sido sepultados sem identificação, e começou a pensar e a remoer sobre este facto e sobre a merda da vida em geral.

Tinha quarenta e nove anos, era mãe solteira de duas filhas, tinha dores nas costas, dormia mal, não via grandes razões para viver, e, sem realmente saber porquê, resolvera ligar para Mikael Blomkvist.

O telefone vibrou. Era um número desconhecido e Mikael ignorou -o. Acabara de deixar o seu apartamento, e caminhava pela Hornsgatan em direção a Slussen e à cidade velha de Gamla Stan. Não fazia ideia de onde iria parar. Vestia calças de linho cinzentas e uma camisa de ganga por passar.

Deambulou assim, sem destino, pelas ruelas até encontrar uma esplanada na Österlånggatan onde se sentou e pediu uma Guinness. Eram sete da noite, mas ainda estava calor, e ao longe ouviam -se aplausos e risos vindos da ilha de Skeppsholmen. Olhou o céu azul, sentiu a brisa leve e suave que afagava a água e tentou convencer-se de que a vida afinal não era assim tão má. Mas não teve grande sucesso, nem com a ajuda de algumas cervejas. Acabou por pedir a conta, levantar -se e, resmungando baixinho, dirigiu -se de novo a casa para continuar a trabalhar ou deixar -se perder numa série de televisão ou na leitura de um policial.

Mas pouco depois mudou de ideias, e começou a encaminhar -se para a praça Mosebacke e para a Fiskargatan, a rua onde mora Lisbeth Salander, mas não tinha grande esperança de a encontrar em casa. Depois do funeral do seu velho amigo e tutor Holger Palmgren, Lisbeth fizera uma viajem pela Europa e era raro responder às sms e e ‑mails de Mikael. Mas resolveu tentar a sorte e subiu as escadas desde a praça. Ao levantar a cabeça reparou com surpresa que a parede da casa em frente estava coberta por um enorme grafíti. Mas não quis perder tempo e não o observou com cuidado, embora fosse um daqueles desenhos que atraía as pessoas, cheio de pormenores surrealistas, entre outros a imagem de um pequeno homem divertido, de calças escocesas e pés descalços, em cima de uma carruagem verde de metro.

Portanto digitou o código da porta de entrada e entrou no elevador onde foi forçado a enfrentar a sua imagem no grande espelho pendurado num dos lados. A sua cor não era testemunho do sol e do calor do verão. Estava pálido, com olheiras e lembrou -se da grande queda na bolsa, em que trabalhara durante todo o mês de julho. Tratava -se sem dúvida de uma história importante, uma enorme queda do mercado de ações, que fora causada não só por sobreavaliações e expectativas exageradas, mas também por ataques de hackers e campanhas de desinformação. Mas hoje em dia não havia jornalista de investigação digno desse nome que não se tivesse dedicado ao assunto. Ele tinha de facto descoberto algumas coisas interessantes - entre outras, qual a fábrica de notícias falsas, na Rússia, que espalhara os piores embustes -, mas sentira que o mundo passava muito bem sem os seus esforços. Devia mas era tirar umas férias, fazer desporto como toda a gente e tratar um pouco melhor de Erika, que estava a divorciar -se do seu Greger.

O velho elevador parou no piso do apartamento e Mikael abriu a porta retrátil de ferro e saiu, ficando ainda mais convencido de que a visita não teria sucesso. Estava certo de que Lisbeth continuava de viagem e de que não queria saber dele. Depois viu que a porta do apartamento estava completamente aberta, ficou atento e apercebeu -se de repente como andara preocupado durante todo o verão. Teve medo de que os inimigos de Lisbeth a tivessem atacado e precipitou -se para o interior, gritando «Estás aí? Estás aí?», mas tudo o que encontrou foi um cheiro a tinta e a produtos de limpeza.

De repente, ouviu passos e ficou paralisado. Alguém respirava como um touro furioso nas suas costas e quando se virou deparou -se com o olhar de dois homens musculados, vestidos com fatos -macaco azuis. Carregavam um grande volume. Mikael estava tão sobressaltado que não conseguiu interpretar a cena como uma ação normal do quotidiano.

- Mas o que andam vocês a fazer? - perguntou. -

O que lhe parece?

Pareciam ser homens das mudanças, e carregavam um grande sofá azul, um móvel novo e elegante, de design, que Lisbeth nunca na vida compraria. Ela não tinha o mínimo interesse por decoração de interiores e objetos de design, Mikael não tinha a mínima dúvida disso, e estava prestes a acrescentar alguma coisa quando ouviu uma voz vinda do interior do apartamento. Por momentos pensou ser a voz de Lisbeth e começou a sorrir. Mas fora uma ilusão. A voz não se parecia nada com a de Lisbeth.

- Mas que visita inesperada. A que devo a honra?

Mikael virou -se e deu de caras com uma mulher de cor, dos seus quarenta anos, que o olhava, divertida. Vestia calças de ganga e uma elegante blusa cinzenta. Tinha tranças nos cabelos e um certo brilho nos olhos que o fez sentir -se ainda mais confuso. Não lhe era desconhecida, pensou.

- Não, não - murmurou. - Só queria...

- Só queria...

- Piso errado.

- Ou, possivelmente, não sabia que a jovem que morava aqui tinha vendido a casa...

Pois, não sabia, e sentia -se incomodado, sobretudo porque a mulher continuava a sorrir. Ficou aliviado quando ela se dirigiu aos homens das mudanças e lhes disse para terem cuidado ao passar pela porta e não estragar nada, encaminhando -se de novo para o interior do apartamento. Só lhe apetecia pôr -se a andar dali para digerir a notícia com calma e beber mais algumas Guinness. Mas deixou -se ficar, como que paralisado. Deitou um olhar à caixa de correio. Já lá não estava escrito V ‑kulla mas Linder. E quem é a porra da Linder? Procurou o nome na Net e viu -a no ecrã do telemóvel.

Era Kadi Linder, psicóloga e integrava muitos conselhos de administração. Ficou a pensar nela - e no pouco que sabia -, mas sobretudo em Lisbeth. Conseguiu, apesar de tudo, recompor -se antes de Kadi Linder reaparecer no vão da porta, agora não só com um sorriso irónico mas também inquiridor. Olhava -o de soslaio. Tinha um cheiro discreto a perfume, era esguia, os pulsos finos e as clavículas salientes.

- Agora tem mesmo de me contar. É verdade que se enganou no andar?

- Eu passo - respondeu, e soube de imediato que não fora uma boa resposta.

Percebeu pelo sorriso que ela o tinha reconhecido e que compreendera que ele queria escapar da maneira mais fácil possível. Mas nada o forçaria a revelar que Lisbeth morara ali sob uma falsa identidade, independentemente de Kadi Linder ter ou não conhecimento disso.

- Isso faz-me ficar ainda mais curiosa - disse ela. Mikael riu -se, como se tudo não passasse de um assunto sem importância. - Quer dizer que não está aqui para me investigar - continuou a mulher. - Isto custou uma pipa de massa.

- Enquanto não me vierem dizer que pôs a cabeça de um cavalo degolada na cama de alguém, não terei razões para a incomodar.

- Devo dizer que não me lembro de todos os pormenores das negociações, mas não me parece que tenha havido algo desse género.
- Ainda bem. Então só me resta desejar -lhe boa sorte - disse com leveza fingida, preparando -se para se retirar acompanhando os homens das mudanças que saíam do apartamento.

Mas aparentemente Kadi Linder queria mais conversa. Mexia na blusa e nas tranças com gestos nervosos e de repente Mikael ficou com a ideia de que aquilo que ele tinha interpretado como um excesso de autoconfiança, afinal escondia outra coisa.

- Sabe quem é ela? - perguntou Kadi.

- Quem? - A que morava aqui. Ele devolveu -lhe a pergunta.

- E você sabe? - Não - respondeu.

- Nem faço ideia de como se chama. Mas mesmo assim, gosto dela. - E continuou: - Porque na altura de negociar o preço do apartamento, eu estava tão embrulhada no caos da bolsa que deixei de poder acompanhar as ofertas e desisti. Mas foi a mim que ela o vendeu, porque «a jovem» (foi assim que o advogado lhe chamou) quis que ficasse para mim.

- Estranho.

- Pois é.

- Será que fez alguma coisa que agradasse à tal jovem?

- Nos meios de comunicação social sou mais conhecida por chatear os velhotes dos conselhos de administração.

- Pode ser que ela goste disso.

- Eu penso que não. Aceita tomar uma cerveja pela inauguração do apartamento? Assim também poderá contar alguma coisa. Devo dizer... - Kadi voltou a hesitar - ... que adorei a sua reportagem sobre os gémeos. Emocionou -me imenso.

- Obrigado, é muito amável, mas tenho de ir.

Kadi acenou um OK e ele conseguiu balbuciar um «Até outro dia». Nem se lembrava de como tinha saído do prédio. Só que de repente se encontrava a respirar o ar tépido da noite de verão. Também não reparou que em frente da porta haviam sido instaladas duas novas câmaras de vigilância, ou que um balão de ar quente pairava no céu mesmo por cima da sua cabeça.


Atravessou a praça Mosebacke, continuou pela rua Ovädersgränd e só quando chegou à Götgatan é que abrandou o passo, apercebendo -se de que estava completamente estafado, e tudo porque Lisbeth mudara de casa, algo que em princípio lhe deveria agradar. Ela estava certamente em segurança agora, mas em vez de sentir alegria e alívio, era como se tivesse levado uma bofetada, algo realmente idiota.

Era a Lisbeth Salander. Era como era. Mas mesmo assim, Mikael sentia -se magoado. Custaria assim tanto fazer -lhe um telefonema ou pelo menos enviar uma mensagem? Pensou e teclou outra vez no telemóvel para lhe enviar uma sms, uma pergunta, mas não, fica quieto, pensou. Foi descendo a Hornsgatan e reparou, quase sem ver, que os mais novos já tinham começado a Corrida da Meia -Noite.

Os pais encontravam -se aos gritos nos passeios para os encorajar, mas para ele aquela alegria era incompreensível e teve de fazer um grande esforço para atravessar a rua por entre os participantes da corrida.

Já na Bellmansgatan os pensamentos continuavam num rodopio e veio -lhe à memória a última vez que vira Lisbeth.

Fora no restaurante Kvarnen, na noite a seguir ao funeral de Holger e nenhum deles se sentira à vontade, o que não era de estranhar, e a única coisa que memorizara fora a resposta à sua pergunta «O que vais fazer agora?», «Vou ser o gato, e não o rato.»

O gato, e não o rato.

Tentou obter uma explicação, mas não conseguiu. A imagem dela a afastar -se pela praça Medborgarplatsen, com um fato preto feito por medida que lhe dava um ar de rapazinho furioso que fora obrigado a vestir -se para uma cerimónia, ficara -lhe na mente. Isto não acontecera há muito. Fora em princípios de julho. Mas já lhe parecia longínquo e continuou com o pensamento a vaguear até chegar a casa, e quando por fim se encontrava confortavelmente sentado no sofá com uma cerveja Urquell, o telefone voltou a tocar.

Era uma médica -legista de nome Fredrika Nyman.

CAPÍTULO 2
15 DE AGOSTO

Lisbeth Salander estava sentada num quarto de hotel na praça Manege, em Moscovo, a olhar para o seu computador portátil.

Viu Mikael sair a porta do edifício na Fiskargatan. Não exibia o seu habitual ar desenvolto, mais parecia um tanto perdido e Lisbeth sentiu algo estranho no coração, como uma picada; algo que para ela era incompreensível e que nem se deu ao trabalho de analisar. Contentou -se em levantar o olhar do ecrã e contemplar por um momento a cúpula de vidro a brilhar, lá fora, refletindo todas as cores.

A cidade que até há pouco lhe era indiferente começava a exercer uma certa atração sobre ela, e equacionou abandonar tudo, desaparecer, embebedar -se. Mas que estupidez! Tinha de manter a disciplina. Nos últimos tempos quase não pregara olho, estivera sempre à frente do computador. Apesar disso, paradoxalmente, tinha um aspeto mais cuidado do que há algum tempo. Acabara de cortar o cabelo bastante curto. Eliminara os piercings, vestia uma camisa branca e o fato preto, como no funeral, não especialmente em honra de Holger, mas porque se tornara um hábito e porque queria passar mais despercebida.

Tomara a decisão de ser ela a atacar em vez de ficar à espera num canto, como uma presa acossada, e era essa a razão por que se encontrava em Moscovo. E fora também por essa razão que mandara instalar câmaras de vigilância na Fiskargatan, em Estocolmo. Mas o preço a pagar era mais alto do que poderia ter imaginado. Não só por trazer o seu passado constantemente à tona, impedindo -a de dormir descansada,