'O Rei Leão' recupera o sabor primitivo da fábula

Foi em 1994 que surgiu o desenho animado O Rei Leão: um quarto de século depois, os estúdios Disney refazem o seu clássico através dos recursos altamente sofisticados da animação computorizada - um triunfo da tradição.

Com chancela dos poderosos estúdios Disney, aí está uma das grandes "máquinas" de produção e promoção do verão cinematográfico: O Rei Leão, desta vez em imagem real, 25 anos passados sobre o original em desenhos animados.

Imagem real? Vale a pena começar por discutir a classificação consagrada no espaço mediático, quanto mais não seja porque a sua aplicação se tornou completamente enganadora. E nem se trata de entrarmos pelo labirinto de uma discussão filosófica (interessantíssima, sem dúvida) sobre o que é ou não é "real" numa imagem.

Acontece que a expressão "imagem real" tem sido aplicada como designação de um modelo de cinema em que aquilo que vemos no ecrã foi filmado como tal - diretamente, realmente. Neste caso, nada mais equívoco. Embora partindo do tratamento de muitas imagens obtidas diretamente com animais ou paisagens (veja-se no genérico final uma referência à equipa que filmou no Quénia), O Rei Leão resulta de um labor hipersofisticado de animação computorizada, preservando e, de alguma maneira, potenciando uma paradoxal impressão de realismo.

A realização de Jon Favreau surge, aliás, como um novo capítulo numa tendência da produção Disney já exemplarmente concretizada em O Livro da Selva (2016), título também dirigido por Favreau. E não deixa de ser curioso referir que, sobretudo em alguma imprensa dos EUA, O Rei Leão tenha sido classificado como "fotorrealista", termo algo bizarro neste contexto porque mais ligado à história da pintura das décadas de 1960-1970 e a nomes emblemáticos como o americano Ralph Goings ou o alemão Gerhard Richter.

Quer isto dizer que a estratégia de animação da Disney está a passar pela revitalização dos seus clássicos através de duas vias complementares, embora claramente diferenciadas. O Livro da Selva e O Rei Leão refletem esse desafio de refazer, agora com figuras "realistas", algumas das mais célebres fábulas do património do estúdio. Ao mesmo tempo, produções como Maléfica (2014), com Angelina Jolie, distinguem-se pelo seu assumido artificialismo figurativo, sendo também revisões de histórias clássicas (A Bela Adormecida, neste caso, aliás já com uma sequela a estrear em outubro).

Todas estas convulsões técnicas estão longe de ser meros pormenores de produção. Nada a ver, entenda-se, com essa admiração beata dos "efeitos especiais" que tem servido para (des)educar várias gerações de espectadores, sobretudo jovens, regularmente bombardeados pelas atuais rotinas dos filmes de super-heróis (muitos deles, é verdade, também gerados no interior do império Disney).

Na atual versão original de O Rei Leão houve a preocupação de apresentar um renovado leque de vozes: o veterano James Earl Jones (88 anos) é o único a retomar a sua personagem, Mufasa, pai do pequeno Simba, sendo este interpretado nas sequências de infância por JD McCrary (12 anos, feitos hoje mesmo, 18 de julho) e, mais tarde, por Donald Glover; Beyoncé dá voz à leoa Nala, com Chiwetel Ejiofor a assumir o malvado tio Scar.

O certo é que para lá de tudo isso, através do requinte tecnológico que sustenta todos os elementos da produção, O Rei Leão de 2019 apresenta-se como um objeto deliciosamente primitivo. Podemos, aliás, comparar a sua conceção à do recente Toy Story 4, dos estúdios Pixar (que, como é sabido, foram adquiridos pela Disney em 2006 pela módica quantia de 7,4 mil milhões de dólares). O que mais conta é a preservação do espírito de fábula inerente à odisseia de Simba, afinal a aprender a noção de pertença a um espaço familiar (e, por extensão, a uma nação), ao mesmo tempo que se inicia nas atribulações práticas e simbólicas do exercício do poder (de que o seu tio Scar, convencendo-o de que ele é o responsável pela morte do pai, surge como a mais perversa encarnação).

Algumas abordagens americanas do novo filme de Favreau têm desvalorizado os resultados por causa da sua "colagem" ao desenho animado, desde logo na conceção visual de muitas cenas (a começar pelo emblemático despertar de Simba, no regaço da mãe, logo na abertura do filme). Será uma visão legítima. Seja como for, tal cumplicidade com o original não é um acidente: faz parte do novo projeto, não por banal "imitação", antes porque tudo passa pela revalorização de um modo de contar histórias em que a saga emocional das personagens não é um pormenor secundário, antes a matéria central dos acontecimentos.

O Rei Leão surge, assim, no interior da avalancha de marketing que marca a chamada temporada de verão. E não há dúvida de que tal avalancha - comandada por opções comerciais cada vez menos diversificadas, alheias a qualquer gosto de diversificação dos públicos - vai castigando títulos extraordinários como o israelita Foxtrot ou o espanhol Petra, mas também alguns notáveis exemplos da produção dos EUA (penso, em particular, em Her Smell - A Música nas Veias, com Elisabeth Moss no papel de uma trágica cantora punk).

Em qualquer caso, não creio que esses problemas estruturais do mercado justifiquem a indiferença cinéfila. É mesmo caso para repetir o aforismo segundo o qual a tradição ainda é o que era. O Rei Leão surge como um exemplo modelar de relançamento de um sentido de espetáculo cujas raízes estão na herança artística de alguém com um apelido conhecido: Walt Disney.

Classificação: * * * * [muito bom]