"Não há nada assim." Concurso de Plácido Domingo muda hoje a vida de alguém

Operalia, o concurso mundial de ópera criado há 25 anos pelo tenor espanhol, está em Lisboa. Amanhã a gala final acontece no Teatro São Carlos, e há um português entre os finalistas: Luís Gomes

Os seus ténis pretos vão por vezes batendo no chão, mas são as mãos que mais mexem, muitas vezes usando o lápis como batuta, como que dirigindo a música que vem do palco. Sentado na plateia, Plácido Domingo, 77 anos, não é só um dos maiores cantores da história da ópera, é também maestro, além de diretor-geral da Ópera de Los Angeles, e mais: é o nome por detrás do Operalia, o concurso mundial de ópera que criou há 25 anos e que neste ano acontece em Lisboa.

Estávamos na semifinal e, à frente do palco, as cadeiras estavam vazias até à fila onde se sentavam os 13 elementos do júri (14 se contarmos com Domingo, que a ele preside embora não vote). A sessão decorria à porta fechada. À esquerda do tenor espanhol (que depois se fez barítono), sentava-se a sua mulher, a soprano e encenadora Marta Domingo.

De cada vez que um dos 26 semifinalistas entrava em palco, Plácido Domingo cumprimentava-o pelo nome e, no caso daqueles que concorriam tanto na categoria principal, de ópera, como na de zarzuela (género tão caro ao tenor, desde logo pelos seus pais, Pepita Embil de Domingo e Don Plácido Domingo), convidava-os sempre a beber um pouco de água entre uma e outra ária. No final agradecia-lhes, sempre.

Há qualquer coisa estranha em ouvir alguns dos melhores jovens cantores líricos do mundo - são aceites na competição entre os 18 e os 32 anos - cantarem árias Rossini, Mozart ou Donizetti sem que se oiça qualquer aplauso no fim. Neste domingo será diferente, quando o São Carlos se encher para a gala final onde os jovens finalistas serão acompanhados pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida por Plácido Domingo. A partir das 18.00, esta será transmitida na RTP 2 e na Antena 2.

"Senão morrer agora de ataque de coração de certeza que ele vai ficar muito mais fortalecido"

Mas naquela quinta-feira ainda estávamos longe da gala, e Luís Gomes, o tenor português que está entre os 12 finalistas na categoria de ópera e também entre os cinco na de zarzuela, cantava Tombe degli avi miei, de Donizetti, e Bella enamorada, de Soutullo y Vert, sem saber se aquela seria a sua última atuação no concurso. Antes de entrar em palco, recordaria depois ao DN, pensou "em estar calmo, em tentar visualizar aquilo que é a cena da ópera [Lucia di Lammermoor] que ia cantar e tentar incluir as pessoas na cena".

Luís Gomes, que se estreou a cantar na igreja de Sarilhos Grandes, Montijo, de onde é natural, graceja: "Senão morrer agora de ataque de coração de certeza que isto [põe a mão no peito], vai ficar muito mais fortalecido. Isto é o top do top dos jovens cantores que existe no mundo neste momento". Ao mesmo tempo, admite o tenor que recentemente foi Alfredo em La Traviata ali mesmo no São Carlos (sucedendo, entre outros, a Alfredo Kraus, que ali cantou a mesma ópera com Maria Callas em 1958), esta é uma "situação muito stressante".

Confissão improvável para quem ainda neste ano cantou o Requiem de Mozart, conduzido por Itzhak Perlman, no Royal Festival Hall, em Londres? Nem tanto, se pensarmos que, como afirmou um dos elementos do júri, F. Paul Driscoll, ao DN, "não há nada assim no mundo. Por isso nunca se sabe o que vamos encontrar quando chegamos aqui, vêm cantores de todo o mundo."

O editor-coordenador da revista americana Opera News lembra que ganhar esta competição "muda absolutamente a vida. As pessoas que vêm a este concurso são vistas por diretores de teatros e diretores artísticos de todo o mundo, têm a atenção de Plácido Domingo, que que é uma das grandes figuras da história da ópera - recuando centenas de anos não há quem iguale os seus feitos -, pelo facto de estarem aqui eles já são vencedores".

A primeira pergunta é óbvia: o que procuram nestes jovens cantores? "Procuramos um sentido de integridade e compromisso em relação ao que está a cantar. Não é apenas a voz, o tipo de voz que tem, é o tipo de pessoa que tem essa voz. Nós queremos saber que ideias tem sobre aquilo, porque tem de ser alguém de opiniões fortes e de forte caráter para sobreviver neste mundo e ser notado. Cada ano seleção de cantores é tão notável. Este é o meu quinto e cada ano fico mais impressionado." Como é que se intui essas "opiniões fortes"? Ouvindo-os cantar, responde.

Ajudaria muito a minha carreira: fazer com que o mundo saiba que eu sou uma cantora de ópera e que isto é o que faço

"Com exceção da zarzuela, que não conheço tão bem como conheço a ópera normal, eu conheço as frases, as partituras, por isso consigo dizer se alguém está a imitar outro cantor ou se ele ou ela não percebe o que está a dizer ou não está comprometido [com isso]. Quando falamos, falamos com intenção, não paramos depois de cada palavra, e por vezes os cantores que não têm uma noção clara de aonde o pensamento da personagem está a ir, param e respiram, e depois retomam. É como conduzir no trânsito da cidade. E o que queremos é que agarrem no carro e vão", explica Driscoll.

"Tem sido um sonho meu, ganhar o Operalia"

A esperança de Samantha Hankey, meio-soprana americana, é mostrar no domingo que sabe fazer isso mesmo. "Tem sido um sonho meu, ganhar o Operalia. Ajudaria muito a minha carreira: fazer com que o mundo saiba que eu sou uma cantora de ópera e que isto é o que faço, e partilhar o meu amor pela música com toda a gente", conta a cantora ao DN depois de ter tido a sua primeira sessão de coaching com Plácido Domingo, nessa mesma tarde, experiência comum a todos os finalistas.

"Entrar na competição é um pouco intimidante, porque o maestro Plácido Domingo é uma espécie de lenda viva e a oportunidade de cantar para ele, e agora de trabalhar com ele, é um dos pontos altos da minha carreira, de longe. Ele entende onde estamos nas nossas carreiras e aquilo de que precisamos como jovens cantores", diz a jovem meio-soprano que em 2017 foi vencedora das audições da Metropolitan Opera (Met) National Council, de Nova Iorque, e que se estreará nesta temporada nesse que é um dos mais importantes palcos.

Luís Gomes descreve Plácido Domingo como "uma daquelas pessoas mesmo grandes, que são aquilo que são pelo trabalho que fizeram, e não pela forma de estar". O tenor é, aliás, a par de Pavarotti e José Carreras, a grande referência para o português, adianta.

"Ele torna isto muito fácil para eles. Acho que lhes fala como colega, esse é o seu dom. Eles sentem-se como um cantor de ópera quando falam com ele." Assim descreve Driscoll a presença de Domingo entre os jovens cantores.

Esta é a segunda vez que Carolin Wielpütz é um dos elementos do júri do Operalia. A diretora da administração artística do Teatro de Bona, na Alemanha, estivera na noite passada na Parreirinha de Alfama, a ouvir os fados ali sempre marcados por Argentina Santos. O que ouve no São Carlos é bem diferente e não o ouve apenas como mera jurada, mas também como interessada através da instituição que representa.

Nem todos os cantores têm de ter o potencial para irem diretos para o maior palco

"A competição é perfeita para nós", afirma, explicando que o Teatro de Bona é de "média-dimensão" e, por isso, ideal para jovens cantores, antes de chegarem aos grandes palcos da música clássica. "Diria que nem todos os cantores têm de ter o potencial para irem diretos para o maior palco, mas temos de pressentir o potencial que têm para desenvolver, e isso é muito entusiasmante" remata.

Amanhã além do primeiro prémio para voz feminina e voz masculina, de 30 mil dólares cada, e dos segundo e terceiro lugares, serão ainda entregues os prémios Birgit Nilsson (voz feminina e voz masculina no repertório de Richard Strauss e Richard Wagner), o Zarzuela Pepita Embil de Domingo, para melhor voz feminina, e o Zarzuela Don Plácido Domingo, além do prémio do Público Rolex e o CulturArte.

Driscoll não esconde o entusiasmo ao falar desta competição, e enumera algumas capas da sua revista protagonizadas por vencedores do Operalia. E depois, ao falar da importância de uma experiência como esta para um jovem cantor de ópera, recorda um episódio passado em 2013 na cidade italiana de Verona. "Lembro-me de sair e ver um jovem da Rússia, creio, que estava no meio da Piazza Bra, sem se mexer, ouvindo as pessoas. Percebeu que era a primeira vez que ouvia italiano de pessoas que estavam a ter uma conversa: o ar de deleite na sua cara a ouvir aquela língua que tinha estudado durante toda a sua vida de cantor como língua viva..."

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