Morreu Miúcha, grande voz feminina da Bossa Nova

Aos 81 anos, desaparece, vítima de cancro, uma das vozes mais importantes da Bossa Nova, Heloísa Maria Buarque de Holanda - por todos conhecida por Miúcha

Irmã de Chico Buarque, ex-mulher de João Gilberto, Miúcha afirmou-se no entanto como uma voz própria das mais importantes na revolução musical que foi a Bossa Nova, o género que levou ao mundo inteiro a música popular brasileira.

Heloísa Maria Buarque de Hollanda morreu esta quinta-feira no Rio de Janeiro, na sequência de uma paragem respiratória ocorrida durante um tratamento a um cancro do pulmão - que há seis meses parecia resolvido mas entretanto voltou.

A informação foi avançada pela Folha de S. Paulo, depois de confirmada por amigos da família. O funeral deverá ser hoje, no cemitério S. João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

A cantora e compositora nasceu no Rio de Janeiro em 30 de novembro de 1937 e já em criança formava conjuntos vocais com o seu irmão, Chico Buarque. Contudo, só aos 40 anos, em 1977, lançou o seu primeiro de treze discos, Miúcha & António Carlos Jobim. Do seu casamento com João Gilberto - o "pai" da Bossa Nova - nasceria uma filha, Bebel Gilberto, que também é cantora. A sua primeira gravação ocorrera em 1975, num disco em parceria com João Gilberto e Stan Getz, The best of two worlds.

Miúcha fez inúmeras parcerias com Jobim, mas também com Vinicius de Moraes e Toquinho e outros protagonistas de primeira linha da Bossa Nova. Tom, Vinícius, Toquinho e Miúcha - gravado ao vivo no Canecão é porventura o seu disco mais conhecido.

Nele se ouvem sucessos eternos da Bossa Nova, como Pela luz dos olhos teus

[...] Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus
Já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus
Sem mais la ra ra ra [...]

ou Minha Namorada

[...] Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha, essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser...
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer...
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porquê..
.[...]

ou ainda o hino fundador deste estilo musical, Chega de Saudade

[...] Mas se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei
Na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim [...]

Em outubro, numa conversa com a Folha de S. Paulo, Miúcha explicaria a sua resistência inicial (e a do seu irmão Chico) aos palcos recordando a sombra poderosa da mãe de ambos, Maria Amélia Césario Alvim, pintora e pianista. "Ela não queria que eu cantasse, achava que cantora era Edith Piaf. Aprendi todo o cancioneiro de Piaf para que ela me aceitasse. Até hoje sei."

Por outro lado, quando se casou, em 1965, com João Gilberto, "não era para ser cantora mas para conviver com a música". "Era tanta a música em casa que a minha necessidade musical estava preenchida. Só gravei mais tarde."

Em 2015 - ano do seu último álbum, Miúcha ao vivo no Paço Imperial - participou no Festival Internacional Literário de Óbidos, que homenageou Vinicius de Moraes. Os seus últimos espetáculos deu-os, já muito debilitada, em 18 e 19 de outubro, numa sala de espetáculos de São Paulo, o SESC Pompeia.

Exclusivos