Mapplethorpe: Grupo parlamentar do PS quer ir a Serralves à procura de respostas

O grupo parlamentar do PS vai propor à comissão de Cultura uma visita à exposição do fotógrafo norte-americano Robert Mapplethorpe, e uma reunião com a administração da Fundação de Serralves

O grupo parlamentar do PS entrega nesta terça-feira um requerimento à comissão de Cultura pedindo não só uma audição ao diretor demissionário do Museu de Serralves, João Ribas, e à administração da fundação, como o agendamento de uma visita por parte dos deputados da comissão à exposição que está no centro da polémica: Robert Mapplethorpe: Pictures.

"Parece-nos que nos cabe a nós não só dessacralizar a obra como perceber exatamente o que é que lá está. Existem 20 obras de Robert Mapplethorpe que estão resguardadas. Nós queremos vê-las", explica ao DN a deputada socialista Carla Sousa. Em causa estão 20 obras que inicialmente fariam parte da mostra antológica do artista americano (1946-1989), que incluía 179 obras. Todavia, Pictures acabou por abrir portas ao público na última sexta-feira com menos 20 obras, que ainda não foram vistas.

Em comunicado, a administração de Serralves afirmou que "não retirou nenhuma obra da exposição" e que as que a compõem foram "todas elas escolhidas pelo curador", João Ribas. O curador e também diretor artístico do museu, agora demissionário, anunciou ao Público a sua demissão depois da inauguração da mostra sem apresentar outra justificação além da ausência de condições para continuar a exercer as suas funções.

Segundo Isabel Pires de Lima, da administração, Serralves também não percebeu por que é João Ribas "excluiu 20 obras" da exposição. "Até nos preocupa um pouco porque pagámos o custo de mais 20 obras que não foram usadas", afirmou.

João Ribas deixa assim por responder se foi ou não o responsável pela ausência dessas obras. Outra das questões que o seu silêncio deixa em aberto, nota a deputada Carla Sousa, é a da sala com cerca de 30 obras de Mapplethorpe cuja entrada está reservada a maiores de 18 anos e só admite menores acompanhados por um adulto. João Ribas tinha dito anteriormente ao Público que nesta retrospetiva não haveria "censura, obras tapadas, salas especiais ou qualquer tipo de restrição a visitantes de acordo com a faixa etária". A administração, por sua vez, afirma que esta sala reservada sempre esteve prevista na exposição. Recorde-se ainda que João Ribas esteve presente na inauguração da exposição.

O presidente da Fundação Mapplethorpe, Michael Ward Stout, admitiu que as fotografias "mais desafiantes estão presentes" no museu e que João Ribas "apenas removeu duas". "Não sei porque é que o João retirou as fotografias, não faz sentido nenhum. Não sei porque o fez, e porque o fez desta forma", acrescentou, criticando a forma como Ribas se demitiu.

"Não concordamos com a proibição. Ponto. Nós somos contra qualquer forma de censura. [Mas] não sabemos se essa censura existiu. Depende se foi um ato de curadoria. No fundo é isso que estamos a discutir. É importante que o doutor João Ribas nos dê dados mais concretos. Um ato de curadoria implica que há uma responsabilidade do curador perante essa escolha. Outra coisa é se isto foi uma imposição. São coisas diferentes, pelo princípio. Nós não sabemos. Há muitas notícias sobre isso mas nós não temos informação vinda do João Ribas."

Carla Sousa congratula-se com o facto de a Fundação de Serralves ter alterado a proibição que impedia a entrada de menores de 18, ainda que acompanhados de um adulto, na sala reservada onde estão representadas, entre outros, práticas sadomasoquistas. Essa foi alterada para uma proibição que se estende apenas até aos menores não acompanhados. "As pessoas são cidadãos e têm de ser responsáveis. Caberá a cada um determinar se quer levar as suas crianças a esta ou àquela sala", defendeu ao DN.

"Acho que é melhor termos conhecimento da exposição", conclui a deputada socialista, acrescentando que "era ótimo que tivéssemos uma reunia com a administração lá."