Leonor Grácias: "Muitas vezes ficamos presos às personalidades das nossas personagens"

Leonor Grácias é uma das figuras do cosplay mais mediáticas do país, já representou Portugal por diversas vezes no estrangeiro e vai lançar o livro Manual de Cosplay esta sexta-feira no ComicCon, no Passeio Marítimo de Algés.

Chega com sacos e mais sacos, quase do seu tamanho, cheios de tule, veludos, galões, penas, acabados de comprar na Baixa lisboeta para fazer os fatos do musical Shrek, que vai estrear no final do ano no Casino do Estoril. Cosplay, de costume play, implica ser produtor dos fatos e ator das performances que recriam personagens do mundo da banda desenhada, cinema ou literatura.

Com 29 anos, Leonor Grácias é do Barreiro, fez o curso de design de moda na Lisbon School of Design, o curso de pós-produção de imagem no IADE e começou a fazer cosplay ainda adolescente. A sua pele, muito nívea, é a base perfeita para a plasticidade de qualquer personagem de banda desenhada ou desenho animado japoneses, os seus preferidos. Esta sexta-feira vai apresentar no ComicCon o seu Manual de Cosplay.

De onde surgiu o gosto pelo cosplay?
Acho que foi sorte ter nascido em 1990, quando começou o boom dos desenhos animados na televisão portuguesa: As Navegantes da Lua, Dragon Ball, Samurai X, Sakura - A Caçadora de Cartas. Eram muitos, nos nossos quatro canais. Eu conseguia distinguir os desenhos animados de que gostava mais, que eram os japoneses.

Porquê?
Devia ser por causa das histórias. Os outros eram muito lutas, robots, ninjas. Os desenhos animados japoneses têm um bocadinho de tudo, são para todos os géneros. Por exemplo, o Samurai X: tinha a parte dos samurais, dos ninjas, mas tinha também a parte do romance, era tudo muito bonito, tinha a parte engraçada. Acho que os desenhos animados japoneses conseguem cativar mais todos os géneros do que os americanos. E desde pequenina brincava com as minhas primas a ser uma Navegante da Lua. No Carnaval, tinha sempre o desejo de fazer de uma das minhas personagens favoritas, sem saber o que era o cosplay. Quando tinha 12, 13 anos, comecei a pesquisar na internet as minhas personagens favoritas e encontrei blogues, o fanfiction.net, onde fazia as ficções das minhas personagens favoritas, e houve uma amiga a dizer-me que ia haver um evento de cosplay em Portugal. E decidimos ir. Pedimos às nossas famílias que nos fizessem os fatos. O nosso primeiro evento foi na Casa da Juventude de Moscavide, feita pela Anipop.

Em que ano?
2005.

De que personagem fez cosplay?
Sakura Hime, de Tsubasa Chronicles.

Sim. Porque normalmente quando começamos a fazer cosplay é para fugirmos dos nossos problemas familiares, da escola.

Começou a fazer cosplay na adolescência. Fazer cosplay foi uma forma de evasão, de refúgio de si própria noutras personagens?
Sim. Porque normalmente quando começamos a fazer cosplay é para fugirmos dos nossos problemas familiares, da escola. Damos esse salto e muitas vezes ficamos presos às personalidades das nossas personagens. Comigo aconteceu isso, até porque comecei a fazer cosplay muito cedo. Apeguei-me muito cedo ao cosplay.

Alguma personagem em particular?
A Sheryl Nome, de Macross Frontier. É a personagem de quem tenho mais fatos. Tenho mais de 20. Ela tem mesmo muitos e continuam a sair. Como desde o início fiz do cosplay o meu hobby, foquei-me muito a aperfeiçoar as minhas personagens favoritas. A Sheryl era uma delas, ao ponto de eu deixar de sentir que tinha a minha própria personalidade. Só tinha a personalidade daquela personagem.

Em que é que a personalidade da Sheryl difere da sua?
Ela é muito mais extrovertida, espampanante, um bocadinho mais rude, mais egocêntrica, devido aos problemas de crescimento que teve. E depois, como se tornou numa cantora muito conhecida, tinha poder para ser arrogante. Naquele momento, eu estava a passar por uma fase em que estava a ganhar todos os concursos em que entrava. E não participava com a Sheryl, participava com outras personagens. Mas, como fazia muitas vezes de Sheryl, a minha personalidade estava a misturar-se muito com a dela. Estava a ganhar muitos concursos e, com a fama que estava a ter, vinham também os haters, as pessoas que me odiavam - a ver-me a ganhar sempre os concursos, a aparecer sempre na televisão, nas revistas, sempre a ser convidada. Por isso, refugiei-me muito na personalidade da Sheryl por não ter poder para encarar esses comentários tão negativos. Fiz da personalidade dela a minha de tal modo que quis sair e já não sabia qual era a minha e qual era a dela. Mas fui crescendo, fiz outros trabalhos, fui entretanto representar Portugal no Japão, fiz três de organização da Comic Con. Foi um processo de aceitar-me como sou. O que fez com que eu própria ganhasse força e não precisasse da força das minhas personagens.

Quando passou a profissional.
Exatamente.

Qual a dimensão do cosplay em Portugal?
Quando comecei o cosplay, éramos uns 200 em Portugal. Era naquela altura em que os eventos sabiam bem, eram pequeninos, toda a gente se conhecia, criava-se uma entreajuda entre todos, íamos de norte a sul do país. Ainda não havia esta crise, viajávamos todos juntos para todo o lado. Em 2010, deu-se um salto na comunidade, devemos ter passado para uns 1000 cosplayers.

Porquê esse salto?
Eu acho que teve a ver com o fácil acesso da internet e com a informação disponível na internet. Já era mais fácil comprarmos as coisas online. Até hoje, não há casas especializadas em cosplay cá. As perucas não se compram cá porque são caríssimas. E os pagamentos online também se tornaram mais seguros. O acesso ao YouTube fez com que as pessoas assistissem mais aos tutoriais. E depois deu-se a entrada do Iberanime, da Manz. São eles quem tem o monopólio dos eventos internacionais em Portugal. Começaram a publicitar nos meios normais, rádio, televisão, outdoors. Passámos para 2000 cosplayers. Entretanto, chegou a Comic Con. Já somos muitos. Cosplayers que façam mesmo os fatos devem ser uns 5000.

Em 2016 criei a Associação de Cosplay (...) Servimos de ponte entre as entidades e os cosplayers, entre o público e os cosplayers, entre a família e os cosplayers.

Criou uma associação de cosplayers?
Sim, em 2016 criei a Associação de Cosplay, porque, até 2014, 2015, fui vice-presidente de outra associação, a Associação Portuguesa de Cosplay. Como essa acabou, eu e o meu pai decidimos fundar a Associação de Cosplay e colmatar as falhas que a outra tinha. Servimos de ponte entre as entidades e os cosplayers, entre o público e os cosplayers, entre a família e os cosplayers. E criamos também condições para que os cosplayers não estejam nos eventos apenas por prazer, mas também em trabalho - e sejam remunerados por isso.

Que tipos de eventos existem?
Normalmente, aos eventos dedicados mesmo ao cosplay, aos concursos, vamos por prazer, pela comunidade. Agora, para eventos literários, para eventos como o Rock In Rio, já somos contratados.

Os prémios dos concursos são monetários?
Neste momento, há dois concursos em que o prémio é monetário. O resto é tudo material: máquina de costura, maquilhagem, esse tipo de coisas. Dos monetários, um deles é promovido pela associação e vai acontecer agora nos dias 28 e 29 de setembro, na Escola Superior de Tecnologia do Barreiro.

Como surgiu o convite para participar em eventos promovidos pela Embaixada do Japão em Portugal?
Desde que estive na APC, a associação antiga, já era convidada para estar presente na casa do embaixador.

A encarnar alguma personagem?
Sem fazer de personagem. Era mesmo na qualidade de representante da associação. Como toda a equipa da embaixada sabe quem eu sou, agora com esta nova associação continuaram a convidar-me. Sou basicamente a representante do cosplay português para a embaixada japonesa. Sou convidada para a Festa do Imperador, que é feita nas embaixadas de todo o mundo.

Como profissional de cosplay, consegue viver do cosplay?
Não totalmente. Tenho este trabalho como designer. A 100% não dá para viver.

Vive ainda na casa dos pais?
Não. Felizmente, não. Só não tenho é carro. Mas, pronto, em vez de escolher um carro, escolhi uma casa. Também porque já era muita tralha para ter em casa deles. E na minha casa tenho o meu próprio ateliê, com todos os meus fatos.

Quantos fatos tem?
Se calhar mais de 200.

Nunca recicla?
Sim, já reaproveitei fatos. Ou porque houve fatos que no início não ficaram assim tão bem, ou porque se estragaram e não me apeteceu refazê-los. Normalmente, acontece com os mais antigos. Com os novos, não. Preferimos melhorá-los aqui ou ali para voltarmos a usá-los.

Agora estou a fazer um dos fatos de Daenerys, de Game of Thrones.

Que fato está a fazer agora?
Agora estou a fazer um dos fatos de Daenerys, de Game of Thrones.

As dificuldades de fazer um fato e os tutoriais a explicar como ultrapassá-las estão especificadas no seu livro, que acaba de sair para as livrarias.
Sim. Este fato que estou a fazer tem uma textura de tecido que é tipo escamas de dragão, que se faz com seis pontos na parte de trás do tecido. Temos primeiro de estender o tecido e fazer linhas paralelas e perpendiculares e depois, através de seis pontinhos de agulha, puxamo-los e fazemos a escama do dragão. São centenas de escamas, feitas uma a uma, em 2,80 metros de tecido. Esse é um fato que vai dar muito trabalho. Vai parecer que não deu trabalho nenhum porque é um fato simples, não é volumoso. É um vestido justo ao corpo, com duas rachas e mangas até ao chão.

Onde encontrou essa ideia para fazer as escamas?
Online, no Pinterest. O Pinterest tem imensos tutoriais, com fotografias. Normalmente as pessoas fazem estas escamas para almofadas, porque fica muito bem, e eu decidi aproveitar para o vestido. E está a ficar igualzinho.

Vai fazer de Daenerys onde?
Eu queria tentar usar no meu evento, no Cosplay Art Festival, mas, com este projeto agora do musical Shrek, não sei se terei tempo. A parte remunerada sobrepõe-se um bocado à parte do cosplay. Como este fato é mais por lazer e não tanto por trabalho, os fatos que dão dinheiro são a prioridade.

Em que eventos internacionais já participou?
Em 2013, fui convidada para um evento em Málaga. Os portugueses têm bastantes admiradores em Espanha - e noutros países. Em 2011, fui representar Portugal no [campeonato] Europeu em França. E, em 2014 e 2018, fui representar, juntamente com o Manon, o campeonato mundial, no Japão.

Em que lugar ficaram?
Não sabemos. Só se sabe quem foi premiado, os outros não se sabe. É tipo segredo de justiça. Mas, pronto, ficamos no sonho de podermos ter ficado em 4º lugar.

E quais os momentos menos bons por que passou enquanto cosplayer?
Acho que começar um projeto para um campeonato e as coisas não estarem a correr bem. Acontece muito, porque o cosplayer quer sempre fazer mais do que a sua capacidade - para testarmos essas capacidades e aprendermos. E, por vezes, se não o fizermos com tempo, de forma organizada, podemos não conseguir estudar a melhor maneira de fazermos esse fato que nunca tínhamos feito. Isso aconteceu no primeiro ano em que eu e o Manon fomos para o Japão. Basicamente, fizemos uma armadura que nunca tínhamos feito. E foi difícil, até mesmo para a nossa amizade. Houve ali choques.

Há cosplay singular, em dupla e em grupo?
Sim. Para o Japão é sempre em dupla.

E quais os momentos mais felizes por que passou com o cosplay?
Foi ganhar a primeira e a segunda vez para ir ao Japão. Mas a primeira soube-me melhor. O World Cosplay Summit existe desde 2003 e eu, quando comecei a fazer cosplay, soube do WCS - e representar Portugal no Japão, com tudo pago, era um sonho. Quando soube da eliminatória no Iberanime, perguntei logo ao Manon.

Manon quem é? Como se chama?
É só Manon. É cosplayer e é o fotógrafo do meu livro. Eu já tinha os fatos planeados, já tinha o skit - que é a apresentação em palco - planeada, a música. Já tinha tudo. Cheguei-me ao Manon e disse-lhe: "queres?"

O que implica o skit, a performance?
Há o guião, há a fala - em inglês ou japonês - que é opcional, há a música. Temos de fazer a edição de vídeo, a edição de som, de voz. Temos de fazer props de palco, o nome que se dá aos acessórios. Há também os ensaios. Somos os produtores e os atores. Os skits a solo têm um minuto e meio, os em dupla ou em grupo têm dois minutos e meio. É tentar encaixar uma história em um minuto e meio ou dois minutos e meio para o público e o júri perceberem.

Na sexta-feira, vai lançar o livro às 18h30 no Comic Con, seguido de meet and greet. Que personagem vai encarnar?
Ainda estou a decidir qual das personagens da capa do livro levo. Ou a Mirka Fortuna [de Trinity Blood] ou a Kazumi Mishima [de Tekken 7], ainda não sei. Depende da temperatura que vai estar, porque a [roupa da] Kasumi é muito quente. Ela é fresca quando está vestida, mas é muito quente no momento em que está a ser vestida. Tenho de passar muito tempo com o meu pai a fazer o laço do quimono.

Vê-se a fazer cosplay até ser velhinha?
Sim, sim. Até já disse à minha mãe: "mãe, tu podias fazer esta personagem". Há personagens velhotas muito elegantes. Há de tudo, com todo o tipo de fatos, para todos os estilos.

Boas e más? Já interpretou algum vilão?
Não, nunca calhou. Normalmente queremos sempre fazer os protagonistas. Posso dizer que a Kazumi era boa, depois tornou-se má, tem uma parte de demónio, mas está muito ambígua. Não é má nem boa.